13 de agosto de 2014 | Tech & Games | Texto: | Ilustração:
Não sabe brincar? Desce pro play sim!

 

Ilustração: Dora Leroy

Ilustração: Dora Leroy

Eu jogo desde pequenininha e passei um tanto de anos achando que não sabia jogar. Os meus jogos prediletos eram fáceis e naqueles mais complicados e competitivos, eu ia mal. Morria demais, me perdia, levava susto, perdia pro meu irmão. Desencoraja, sabe? Cresci achando que aquilo não era pra mim. Descobri que não era mesmo, ou pelo menos era nisso que queriam me fazer acreditar.

Enquanto meu irmão ganhou um Game Boy, eu recebi um portátil da Barbie, um CD-ROM da Disney. Não culpo o Papai Noel ou minha mãe, a Nintendo deixou bem claro que Game Boy não era coisa de menina e, como se não bastasse, mais tarde veio a “comunidade gamer” dizendo que os jogos dos quais eu gostava, aqueles de menininha, eram todos de mentirinha. É claro que quando enfim redescobri meu interesse por videogame continuei perdendo, não só pro meu irmão, que mesmo quatro anos mais novo tinha muito mais know-how, mas também para a internet inteira, que agora eu conhecia através dos multiplayer online.

Jogar conectada muda radicalmente o cenário. Você não está mais jogando com a sua galera no sofá de casa. O pessoal, especialmente nos jogos FPS ou MOBA, é muito hostil: quem não sabe muito bem o que está fazendo recebe, ao invés de ajuda solícita, o título de noob.  Noob é quem não sabe jogar – mas pera aí, quem nasceu sabendo que o “O” atira e o “X” pula? Tem coisa que tutorial ou detonado nenhum ensina e me parece injusto não ter a chance de aprender. Não preciso nem dizer que em um ambiente masculinizado a pressão que recai sob nossos ombros é muito maior. A curva de aprendizado varia entre os gêneros de jogos e está sempre associada às desistências precoces. Quanto mais hardcore, mais tempo e experiência; quanto mais casual, menos. A chance de ter sua “carteirinha gamer” revogada é imensa, afinal você precisa jogar os jogos que eles legitimam. “Gamer” não é só quem joga bem o jogo certo, é também sinônimo de um conhecimento geek/nerd enciclopédico. Temos que pegar todas referências, piadas e easter eggs, do contrário vem a desqualificação, no nosso caso sob o tropo de “fake gamer girl”. Não é raro encontrar relatos de minas que abandonam o videogame por desconforto com a comunidade.  A atual presença massiva de mulheres nos jogos casuais e/ou sociais não é um acaso, é reflexo daquilo que nos é culturalmente imposto e só graças à recente popularização desses jogos é que a discussão acerca dos limites da identidade gamer tem sido fervorosamente discutidos e o panorama se tornando mais receptivo. Supervalorizar o nível de excelência e dificuldade tem tido um saldo muito negativo e desencoraja muito mais do que impulsiona nosso desenvolvimento. Competitividade só é legal enquanto é saudável. É evidente que jogos diferentes exigem comprometimento e habilidades diferentes e não tem nada mais justo e bacana que uma multiplicidade de propostas para atender a todo tipo de procura. O videogame não é só dos pro-players.

Eu tenho quase 1.500 horas de jogo no Team Fortress 2, mas não sei jogar com todas as classes disponíveis, não mando tão bem com aquelas que jogo e me culpei por isso durante muitas dessas horas.  Acreditava que, independentemente do meu esforço, a falta de habilidade era um estorvo e aquela mesma sensação de não pertencimento da infância seguia firme. Visitei todos os clássicos e me cobrei horas em jogos “sérios” tentando me equiparar aos meus amigos (todos homens). Era uma das poucas mulheres presentes e sentia uma responsabilidade enorme representando todas nós. A sensação é parecida com jogar em frente a uma plateia sedenta pela menor chance de vaia. Fazendo referência ao inesquecível Lorde Eternal, posso dizer que o feminismo foi o meu Enteitá tudo bem agora. Questionar essa pressão e a ideia de que você precisa saber brincar antes de descer pro play transformou a minha relação com o videogame. Hoje exploro e me divirto muito mais.

Anna define um jogo como “uma experiência mediada por regras”. A partir do momento em que você compreende quais são elas, você está jogando. No campo minado eu aposto que você perde mais do que ganha e isso não quer dizer que você não jogou – e jogar no nível mais fácil também não anula a experiência. Fizeram-me acreditar que jogar videogame é zerar a franquia de Zelda, ter na ponta dos dedos os combos de Mortal Kombat e se garantir no x1 de qualquer shooter. Hoje eu sei que é só gostar de jogar. Há quem goste de se desafiar a pegar todas as moedas da fase, desbloquear todos os achievements, zerar o jogo no menor tempo possível e colocar no YouTube. Jogar vociferando com a tela. Jogar os jogos não competitivos da Vanessa. Jogar subvertendo tudo.

Eu já escrevi uma vez convidando você a fazer um jogo, dessa vez eu te convido a jogar. Fica,  vai ter bolo! Me escreve se precisar de ajuda.

Carolina Stary
  • Ex-colaboradora de Tech & Games

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