22 de novembro de 2014 | Relacionamentos & Sexo | Texto: and | Ilustração:
Não somos da cor do pecado!

*Texto de Amanda Lima e Paula Gomes

Ser mulher negra significa, infelizmente, estar constantemente sofrendo colocações históricas e racistas em relação a nossa cor e sexualidade.

Antes de mais nada, é preciso voltar um pouco na história e contextualizar essas violências.
Durante o período de escravidão,  (que dizem ter durado mais de trezentos anos, mas nós sabemos que dura até hoje e que enfrentamos suas consequências, porque ainda somos maioria na escravidão moderna, recebemos pouco mais da metade do salário recebido por pessoas brancas e somos 70% das vítimas de assassinatos no Brasil) mulheres negras tiveram sua força explorada e sua sexualidade abusada. Eram obrigadas a satisfazer os patrões econômica e sexualmente, e forçadas a lhes dar prazer a qualquer momento. Diante desses constantes abusos, nossa identidade foi sendo massacrada e pisoteada, dia após dia.

Hoje em dia, o mito de que a mulher negra é mais forte e mais apta ao sexo que a não-negra continua. As heranças escravistas nos deixaram estigmas tão intensos que ainda estamos reconstruindo nossos pedaços. A violência obstétrica, por exemplo, é um mal que nos atinge muito, porque ainda acreditam que somos mais ‘’fortes’’ e que, portanto, não devemos receber o mesmo cuidado e atenção que mulheres brancas. Caso queira ler mais sobre o assunto, é só clicar aqui.

Por conta disso, até expressões que possam parecer bobas para alguns nos machucam tanto. Hoje resolvemos retomar duas destas expressões, que são: “da cor do pecado” e “não sou tuas negas”. Elas são extremamente ofensivas e não deveriam ser espalhadas e disseminadas por aí.
Toda vez que falam algo do tipo, é como se vestissem a roupa de “patrãozinho” e dessem crédito aos discursos e atitudes daquela época, quando as mulheres negras escravizadas eram usadas para sexo, para satisfazer os homens brancos da casa grande. Elas eram estupradas; algumas engravidavam e tinham que parir um filho contra a sua vontade; eram humilhadas e jogadas de lado.

Dizer “não sou tuas negas” é como incorporar uma sinhá branca inconformada com a traição do marido e dizer: “Não sou aquelas tuas escravas que você usa exclusivamente para se divertir”.

Já dizer “da cor do pecado” é naturalizar um chavão racista que associa a mulher negra a uma atração sexual incontrolável dos homens brancos, que permite com que ele faça o que quiser com o corpo dela, ela querendo ou não. O que acreditamos, e esperamos que vocês também, é que  não há nenhum cabimento em tal discurso, e é vergonhoso acreditar que ele ainda exista, e o que é pior, de uma forma tão escancarada.
A perpetuação da hipersexualização da mulher tem início aí.
Para você que não acredita que isso ainda ocorra, é muito simples: pense em carnaval, em “Globeleza” e em “rainhas da bateria”. A maioria é composta por mulheres negras, com corpos esculturais, sambando semi-nuas, como se esse fosse nosso papel, o de atrair turistas. Enquanto isso, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) divulgou que 61% das vítimas de estupro são mulheres negras e jovens.

É essencial se propor a não incorporar a “sinhá branca” e rever discursos. É preciso  estar atenta a opressões que possamos estar perpetuando. É preciso respeitar a história de um povo e estar alerta a possíveis ofensas.

Somos mulheres negras e temos direito a ter os nossos próprios corpos, nossa dignidade, nossa cultura e nosso respeito.

Amanda Lima
  • Colaboradora de Saúde
  • Colaboradora de Educação
  • Colaboradora de Se Liga

Amanda, 22 anos, mas com carinha de 15. Ama o significado de seu nome, mas prefere que a chamem de Nina. Psicóloga e militante feminista, sabe que conhece ainda tão pouco e por isso tem uma sede muito grande em conhecer mais. Mais da vida, mais do mundo, mais de tudo. Nutre um amor incondicional por Beyoncé e, nas horas vagas, sonha em poder mudar o mundo.

Paula Gomes
  • Colaboradora de Artes

Um dia quase Luisa, agora e para sempre Paula Gomes, só Paula, 18 anos, uma criançona, sabe nada da vida. Ah, sou de Sampa, Sampa da fria garoa, das ruas coloridas e da gente boa. Me arrasto pelos palcos e pelas bibliotecas, só finjo saber algumas coisas. Só não perco a cabeça porque fotografei ou escrevi e às vezes brinco de ser qualquer coisa. Tem números? Não sei! Como é isso em palavras? Dá pra soletrar? Seria até melhor se desenhasse, viu. Mas no final a gente resolve tudo com um sorriso e um abraço (só um não, né). :)

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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