3 de janeiro de 2018 | Sociedade | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Não temos tempo para desanimar
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“Não tive tempo para ter medo”. A frase associada a Carlos Marighella, guerrilheiro durante a ditadura militar no Brasil, remete a uma época da história do nosso país na qual fora exigida coragem de todos aqueles que não compactuavam com as medidas do governo. Nessa época, dizer que não teve tempo para ter medo, era dizer que toda a opressão da perseguição política vivida não foram suficientes para paralisa-lo.

Na atualidade, a conjuntura é diferente, não estamos em uma ditadura e não vivemos sob a constante ameaça de tortura estatal velada. Porém existe algo em comum entre os dois períodos: há uma grande nuvem de incerteza sobre os rumos políticos mundiais e sobre os direitos das chamadas minorias. Ler notícias na internet, assistir jornais e ouvir rádio não têm sido atividades prazerosas. Diariamente, somos bombardeados com notícias cada vez piores e nos deparamos com machismo, racismo e LGBTfobia sendo disseminados por figuras públicas importantes. É como se a intolerância e o ódio estivessem crescendo livremente a nível mundial. Neste cenário, não é incomum nos sentirmos tristes ou impotentes diante de tudo o que está acontecendo. Im.po.tên.cia, substantivo feminino que nos causa muita dor, fazendo-nos questionar quem somos, nossas convicções e a validade de nossa militância política.

Esquecemos, contudo, que o mundo já avançou em muitas das causas que acreditamos. O papel da mulher na sociedade foi bastante modificado nas últimas décadas, o racismo já não é mais tolerado completamente em silêncio e casais homoafetivos conquistaram o direito à união civil legal em diversos países, por exemplo. Essas conquistas não são fruto do acaso, são consequências de anos de lutas, de manifestações de rua e de inconformismo com realidades incoerentes. Mais do que isso, são a prova de que as conquistas sociais são processos longos e não lineares.

Além disso, precisamos ter em mente que as notícias que chegam até nós são narrativas e quem escolhe o seu tom é quem nos conta essas histórias. Existe ainda quem escolhe quais histórias serão contadas, essas pessoas, editores de grandes jornais e portais de notícia, por exemplo, levam em consideração os lucros que terão com cada notícia impressa ou cada postagem em seus sites. As notícias de ódio nos chocam e são  essas as que motivam respostas, compartilhamentos e vários outros tipos de reação que podem ser monetizadas. Nada do que está na primeira página de um jornal ou como imagem de destaque em um portal de notícias está ali por acaso. Os sentimentos que esse tipo de produto desperta e as reações que esperam que o público tenha são calculados, nosso olhar é direcionado ao pessimismo propositalmente sem que nos demos conta.  

Com certeza não podemos nos iludir, vivemos graves crises políticas, econômicas e sociais, sim. Entretanto, precisamos seguir em frente lutando por tudo aquilo que acreditamos ser justo e coerente. Usufruindo das vitórias já conquistadas, apoiando uns aos outros diante das notícias ruins e lembrando que nenhuma mudança é definitiva e os retrocessos atuais também não serão. Resistir à onda conservadora que invade o mundo só será possível se não desanimarmos!

Ester Borges
  • Colaboradora de Educação

Desde 1997, Ester anda pelo mundo e o experimenta de forma curiosa. Talvez seja por isso que estuda relações internacionais na USP e tenta se convencer que é uma pesquisadora. Frequentemente considerada otimista, ainda não tem grandes conquistas, porém acredita que descobrirá entre o amor ao próximo e a militância política algo que fará a humanidade se relacionar melhor. Provável que já tenha lido ficção demais.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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