14 de fevereiro de 2017 | Se Liga | Texto: | Ilustração: Natália Schiavon
“Não vou falar sobre questões raciais do Grammy”

No final da semana passada eu estava conversando com uma amiga, e tivemos esse diálogo:

Eu: Todo ano eu assisto à premiação do Grammy, sempre leio todas as matérias no dia seguinte… Acho que vou escrever alguma coisa sobre.
Amiga: Que interessante. Sobre o que você pensa escrever?
Eu: Acho que vou falar sobre as mulheres indicadas e premiadas. Não vou falar sobre a questão racial, pois estou com a esperança de que esse ano seja diferente.
Amiga: É, eu também estou com essa esperança.

Pois bem, domingo foi a premiação do Grammy, e tanto eu quanto a minha amiga estávamos enganadas: vai ser necessário sim discutir a questão do racismo no Grammy.

Antes de falar sobre a festa e os vencedores, que aconteceu na noite de ontem, é importante falar sobre a carta aberta que o Frank Ocean jogou nas redes sociais na sexta-feira. A carta de Frank é dirigida ao produtor do evento Ken Ehrlich e ao roteirista David Wild, que teriam falado que a apresentação de Frank Ocean no Grammy de 2013 foi “defeituosa”, e que eles não teriam nenhuma culpa. Segue a tradução da carta de Frank:

“Ok Ken (e David). Por mais que eu odeie fazer vocês famosos ou mesmo responder diretamente a vocês. Nós todos morreremos um dia e vocês são velhos então f***-se. Sim sim minha apresentação no Grammy de 2013 foi uma completa m****. Dificuldades técnicas, blá blá. Obrigada pela lembrança. Obrigado mesmo. F***-se aquela apresentação. Vocês acham que foi por isso que eu mantive o meu trabalho fora do processo do Grammy desse ano? Vocês não acham que eu queria me apresentar para me “redimir”, se eu me sentisse assim? Na realidade, eu queria mesmo participar para homenagear o Prince, mas aí eu saquei que o meu melhor tributo para o legado daquele homem seria continuar a ser eu mesmo e ter sucesso. Ganhar um prêmio na TV não faz de mim alguém de sucesso. Eu levei algum tempo para entender isso. Eu comprei todos os meus masters de volta ano passado no auge da minha carreira, isso é sucesso. Blonde vendeu um milhão de cópias sem uma gravadora, isso é sucesso. Eu sou jovem, negro, talentoso e independente… Esse é o meu tributo. Eu tenho ligado na CBS mais ou menos essa época do ano para ver quem recebe as maiores homenagens e vocês sabem o que não é ‘boa televisão’? 1989 ganhar o álbum do ano no lugar de To Pimp A Butterfly. Sem dúvidas, um dos momentos mais ‘errados’ na televisão que eu já vi. Acreditem no povo. Acreditem naqueles que prefeririam assistir a algumas apresentações do seu programa no YouTube no dia seguinte porque o seu show os faz dormir. Use o velho gramofone para realmente ouvir, irmãos, eu sou um dos melhores [artistas] vivos. E, se vocês estão afim de uma discussão sobre a parcialidade cultural e os danos nervosos gerais que o show que vocês produzem sofre, eu estarei disponível. Tenham uma boa noite.”

Muita gente reagiu mal à carta, dizendo que ele estava levantando assuntos que já estavam encerrados, estava sendo “vitimista” e queria apenas chamar atenção. Mas o Grammy de 2017, que aconteceu dois dias depois da carta de Frank Ocean ser compartilhada, provou que o artista estava certo: o caso Taylor Swift vs. Kanye West no VMA de 2009 não está encerrado. E, mais que isso, nunca se tratou de um briga entre dois artistas, mas sim de uma briga dos artistas negros contra premiações que não os respeitam nem valorizam. Como Frank disse, o Grammy tem uma “parcialidade cultural”, assim como as outras premiações musicais importantes.

O Grammy tem seis prêmios que são considerados os principais: Álbum do Ano, Gravação do ano, Música do Ano, Melhor performance Solo, Melhor Performance em Dupla ou Grupo e Melhor Álbum Pop. Cada uma dessas categorias conta com cinco indicados, o que dá um total de 30 indicações. Dessas 30 indicações, sete são trabalhos de três artistas negros (Beyoncé, Rihanna e Drake), sendo que nenhum deles levou um prêmio.

Na tabela abaixo, estão os indicados aos principais prêmios. Na cor roxa são os trabalhos dos artistas negros.

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É claro que fiquei muito feliz de Solange ter ganhado o prêmio de Melhor Performance de R&B, por Beyoncé ter ganhado Melhor Álbum Urbano Contemporâneo, pelo Drake ter ganho por melhor Performance de Rap… Mas quando os artistas negros ganharão os prêmios mais importantes? Quando deixaremos de sentir que eles sempre ganharão os “prêmios de consolação”?

O prêmio de Álbum do Ano parecia uma vitória certa para Beyoncé com o seu álbum Lemonade. Descrito como “um trabalho conceitual baseado na jornada de autoconhecimento e cura das mulheres”, Lemonade sempre apareceu como preferido na maioria das apostas.  Quando 25 da Adele foi anunciado como álbum do ano, o sentimento foi de choque. Não porque o álbum de Adele é ruim, mas porque o de Beyoncé é muito melhor e tem uma importância social indiscutível.

A própria Adele, ao receber o prêmio, relatou: “Eu não posso aceitar esse prêmio… o álbum Lemonade é tão monumental, Beyoncé. Ele foi tão monumental, tão bem pensado, tão lindo e cheio de alma”. Adele também questionou o fato de Beyoncé já ter recebido QUATRO indicações para melhor álbum do ano e nunca ter levado o prêmio para casa. A cantora inglesa teria dito nos bastidores: “Eu achei que fosse o ano dela. O que diabos a Beyoncé precisa fazer pra ganhar o álbum do ano?”. Durante os 57 anos de história do Grammy, apenas três mulheres negras já levaram o prêmio de álbum do ano: Lauryn Hill (1999), Natalie Cole (1992) e Whitney Houston (1994), e apenas 10 artistas negros levaram o prêmio no total.

Ao receber o prêmio de Melhor Álbum Urbano Contemporâneo, Beyoncé fez um discurso maravilhoso, empoderador e emocionante. Segue abaixo o discurso da Queen Bey:

 “Eu agradeço a Deus por minha família, meu marido maravilhoso, minha linda filha, meus fãs por me darem tanta felicidade e apoio. Todos nós experienciamos dor e perdas e às vezes ficamos inaudíveis. Minha intenção para o filme e o álbum era de criar um corpo de trabalho que daria voz às nossas dores, nossas lutas, nossa escuridão e nossa história. É tão importante para mim mostrar imagens para os meus filhos que reflitam sua beleza para que eles possam crescer em um mundo em que eles olhem no espelho – primeiro através de sua própria família, assim como nos noticiários, no Super Bowl, nas Olimpíadas, na Casa Branca, no Grammy – e ver eles mesmos. Eu quero isso para toda criança de todas as raças, e eu sinto que é vital que a gente aprenda com o passado e reconheça a nossa tendência de repetir erros”.  

Esse ano Kanye West, Drake e Frank Ocean sequer compareceram à festa da premiação, e acredito que fizeram a melhor escolha!

Gleice Cardoso
  • Coordenadora de Sociedade
  • Conselho Editorial
  • Colaboradora de Se Liga

Nascida e criada em Belo Horizonte - MG, é psicóloga e trabalha com pessoas em situação de risco e violação de direitos há quase 10 anos. Mulher negra, só descobriu a força de identificar-se como tal há pouco tempo, pois cresceu acreditando que era "moreninha". Tem duas gatas e um cachorro, mas queria ter 30 de cada. Tem vontade de comer sorvete todo dia (menos de manga) e faz crochê pra relaxar.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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