20 de novembro de 2015 | Ano 2, Edição #20 | Texto: and | Ilustração: Marina Sader
Negros, musicalidade e fé

“Tudo o que é bom e justo emana de um único Deus, que hoje pode ter muitos nomes e cultos. Mas, seus princípios foram antes cultuados por um único povo; primordial e resistente, criado à sua imagem e semelhança. São esses fatos que nos fazem ter tanta dificuldade em entender a intolerância, o preconceito e a violência praticados em nome de Deus, contra os religiosos do Candomblé e da Umbanda ou de qualquer outra religião. A religiosidade africana é a prática de uma doutrina baseada em valores de paz, justiça, amor fraterno e sacralização da vida.”
– Babalaô Ivanir dos Santos

Quando pensamos em música e dança como formas de manifestação da cultura e religiosidade negra, imediatamente pode nos vir à mente imagens de orixás, ou essa ideia pode nos remeter a terreiros. Em parte, essa associação está certa. No entanto, é importante destacar que louvores e religiosidade africana podem ir para além do terreiro e danças de orixás. Ainda assim, nesse texto destacaremos duas manifestações religiosas popularmente brasileiras: o Congado e a Festa para Iemanjá; a primeira, típica do estado mineiro, trata-se de um grande festejo considerado patrimônio imaterial pela UNESCO; a segunda, uma grande oferenda à mãe dos orixás no culto da Umbanda, que ocorre na cidade de Salvador, na praia do Rio Vermelho, e é um grande símbolo da cultura popular da cidade.

FESTA DE IEMANJÁ: RAINHA DAS ÁGUAS E MÃE DE TODOS OS SANTOS

Tradicionalmente no dia 31 de dezembro, em praias de todo o Brasil, vemos pessoas fazendo oferendas à Iemanjá e demais orixás, mas existe outra data exclusiva para homenagear a mãe das águas, que em Salvador é no dia 2 de fevereiro, conhecido também como o dia oficial de Iemanjá. Em Salvador, essa data é comemorada desde 1920, quando uma colônia de pescadores do Rio Vermelho, durante um ano de baixa pescaria, buscou ajuda de mães de santo e assim, resolveram cultuar santos africanos trazidos para a Bahia pelos escravos. Durante esse processo foi elaborada uma lista dos materiais que seriam utilizados como oferendas aos santos africanos. No início, a festa se chamava “Presentes da Mãe d’Água”, e apenas a partir de 1960 é que se tornou a “Festa de Iemanjá”, que hoje faz parte do calendário oficial de comemorações de Salvador.

Oferenda a Iemanjá.  Fotografia: Amanda Oliveira.

Oferenda a Iemanjá. Fotografia: Amanda Oliveira.

Durante a celebração e festa na praia, os filhos de santo incorporam orixás, que passam também a integrar a festa com danças, cantos e todas as suas energias. As comunidades de Candomblé e Umbanda vão às ruas prestigiar a grande celebração; os Babalorixás (pais de santo) e Ialorixás (mães de santo) participam de forma fervorosa, com seus adereços e vestimentas de acordo com a cor de cada um dos orixás. As manifestações culturais durante a Festa de Iemanjá também ganham espaço com grupos de capoeira e grupos carnavalescos, que chamam brincantes às ruas para festejar e celebrar sua fé, em uma atmosfera de paz e proteção espiritual.

Fotografia: Amanda Oliveira

Fotografia: Amanda Oliveira

Fotografia: Amanda Oliveira

Fotografia: Amanda Oliveira

Na época da escravidão, os escravos negros trazidos da África não podiam fazer cultos aos seus orixás, o que fez com que eles tivessem que associá-los aos santos do Catolicismo, que naquele período era a única religião permitida. Sendo assim, alguns dos santos que conhecemos hoje nas religiões podem ser reconhecidos como orixás também, já que foram sincretizados. Temos, por exemplo, Oxalá, que é o Senhor do Bonfim; Omolu é São Lázaro; Ogum representa Santo Antônio, Oxóssi como São Jorge, Ibeji é São Cosme e Damião, e Iemanjá se sincretiza como Nossa Senhora da Conceição. Dessa forma, a fé das religiões de matriz africana continuou resistindo e resiste até hoje: ainda que tentem silenciá-las, o toque de seus tambores resiste alto e forte.

O CONGADO: MÚSICA, LOUVOR E RESISTÊNCIA

Uma das mais importantes manifestações da herança cultural afro-brasileira no estado de Minas Gerais é o Congado. Tal celebração religiosa sincrética mescla tradições africanas com elementos indígenas e representações populares portuguesas.

As celebrações do Congado, que remetem às coroações dos reis africanos, expressam a sobrevivência da religiosidade africana através da reinterpretação das formas de culto impostas pelos colonizadores, unindo as memórias das devoções tribais com os valores impostos da devoção católica. A dança e a música remetem à coroação do Rei do Congo e da Rainha Ginga de Angola, com a presença da corte e de seus vassalos. No Congado, a música ocupa um importante papel, dando forma ao ritual. Com o propósito de servir de ligação entre o mundo físico e o mundo sagrado, a música tem a função de expressar a fé, a cultura e a vida do congadeiro.

Escravos celebrando O Congado em 1976 em Minas Gerais, Brasil

Escravos celebrando O Congado em 1876 em Minas Gerais, Brasil

A musicalidade de cada terno (nome dado aos grupos de Congado) tem características específicas, com variações sonoras e rítmicas de acordo com cada região. A aprendizagem musical nos ternos se dá de forma diferente do ensino institucionalizado, essencialmente pela interação dos integrantes, tornando, assim, cada terno único em relação à sua musicalidade. A aprendizagem se dá pela prática, observação, imitação e pela transmissão oral.

Gravura de Rugendas reproduz Festa de Nossa Senhora do Rosário no Século XIX

Gravura de Rugendas reproduz Festa de Nossa Senhora do Rosário no Século XIX

No Congado, existem dois tipos de músicos: os instrumentistas e os cantadores. Os cantadores são regidos pelo Capitão-Mor, que é quem inicia a cantiga, que pode ser do repertório do terno ou um improviso. Várias são as temáticas apresentadas nas cantigas dos congadeiros: a escravidão e sua abolição, desigualdades sociais, a luta diária do negro, a história do terno e da cidade, milagres realizados pelos santos, a devoção e a fé. Os principais sons da Congada vêm dos instrumentos de percussão, entre eles as caixas, xique-xiques, pandeiros, cuícas e reco-recos. Alguns ternos fazem uso de violões, violas, sanfonas ou acordeons, mas os sons desses geralmente permanecem em segundo plano.

Os instrumentistas mais importantes para a Congada são os caixeiros (que tocam caixa), pois são eles que determinam a base rítmica a ser acompanhada pelos outros instrumentistas. A caixa é um tambor feito de madeira ou metal recoberto de membranas em ambas as extremidades. As reuniões em torno da dança e da música sempre representaram importantes contextos de interação social para os negros no Brasil colônia, criando afinidades entre povos que, apesar de diferentes origens, uniram-se em razão de sua condição de cativeiro. A tradição musical dos povos negros foi ressignificada, mas ainda tem importante papel histórico e social.

Fotografia: Jorge Quintão

Fotografia: Jorge Quintão

O Congado enfrentou e ainda enfrenta desafios, sendo necessária sua constante atualização, para a sua sobrevivência e transmissão da expressão de fé. O Congado das Minas Gerais resiste, apesar da intolerância e da incompreensão da importância histórica e social dessa celebração.

Fabiana Pinto
  • Colaboradora de FVM & Culinária

Fabiana Pinto, negra e carioca. Graduanda em Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro em tempo integral e, escritora de suas percepções e experimentações do mundo em seu tempo livre.

Gleice Cardoso
  • Coordenadora de Sociedade
  • Conselho Editorial
  • Colaboradora de Se Liga

Nascida e criada em Belo Horizonte - MG, é psicóloga e trabalha com pessoas em situação de risco e violação de direitos há quase 10 anos. Mulher negra, só descobriu a força de identificar-se como tal há pouco tempo, pois cresceu acreditando que era "moreninha". Tem duas gatas e um cachorro, mas queria ter 30 de cada. Tem vontade de comer sorvete todo dia (menos de manga) e faz crochê pra relaxar.

  • Daiane Cardoso

    Nossa. Emocionante. <3

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos