3 de setembro de 2015 | Edição #18 | Texto: | Ilustração: Beatriz H.M. Leite
Nem a terra nem as mulheres somos territórios de conquista!

C e r t a s r e v i s t a s dizem por aí que os garotos vão nos conquistar — e que nós, claro, precisamos estar preparadas, lindas e cheirosas para que isso aconteça. C e r t a s r e v i s t a s gostam de difundir essa cultura de que pessoas devem conquistar as outras, e pior: que existem maneiras certas e erradas para realizar essa conquista. Algumas fazem até manuais com o passo a passo de como agir. Só que na vida real as coisas não funcionam bem assim.

Afinal de contas, o que significa conquistar?

O termo conquistar, na verdade, é uma metáfora que compara os nossos relacionamentos com… guerras! Disputas! Conflitos! 

Que horror. 

A palavra conquista sempre foi usada para a situação na qual alguém (a história nos diz que são sempre homens) consegue novos territórios — e com eles suas riquezas e até a força de trabalho de seu povo. Seguindo a lógica, quando falamos em conquista, estamos tratando as pessoas — em geral, garotas — como territórios a serem conquistados — pra não dizer colonizados, né. Isso diz muito sobre a sociedade em que vivemos: se somos tratadas como territórios, significa: 1. que não somos humanas; 2. que pode haver posse (e nós sabemos bem que sentimentos de posse geram ciúmes, controle e abuso); 3. que podemos ser conquistadas e até invadidas quando eles bem quiserem e, portanto; 4. que não temos sentimentos, vontades e poder de decisão. Nada disso faz bem. 

Bom mesmo é encararmos de outro jeito essa coisa gostosa que é nos relacionarmos com outras pessoas. Porque uma coisa é certa, não precisa ser assim. A gente pode parar de encarar os relacionamentos como uma situação em que uma pessoa conquista e a outra é conquistada. As pessoas vão se envolvendo juntas, dando seus passos simultaneamente — é verdade, às vezes os passos tem distâncias diferentes, mas de que isso importa, não é mesmo? 

O corpo: nosso primeiro território

Diante de toda essa situação, que só existe porque vivemos num mundo machista, precisamos defender o que parece ser o nosso primeiro território, essa fortaleza que chamamos de corpo. É nas regiões em conflito que isso se torna mais evidente: o estupro se torna uma arma de guerra, e o corpo das mulheres é invadido em nome de conquistas literalmente territoriais e de riquezas. Acontece na Palestina, acontece no Haiti (e os responsáveis são homens das tropas brasileras, supostamente pacificadoras!), acontece nos morros e periferias do nosso país (e, de novo, os responsáveis estão ali em nome do Estado).

A frase que intitula esse texto é de um coletivo feminista boliviano chamado Mujeres Creando. Elas picham frases de fortalecimento feminista nos muros de seu país e, assim, têm um importante papel na difusão do feminismo. Com essa frase, elas trazem mais uma questão à tona: as mulheres não são territórios a serem conquistados, mas e a terra? No mundo em que vivemos, só tem terra quem tem dinheiro — o dinheiro é o responsável pela conquista nos dias de hoje. Justo? Acho que não.

Sonho com um mundo onde os povos possam viver em paz, as mulheres possam viver uma vida sem violência, e todos tenham terra suficiente para morar e trabalhar. E que nem o amor nem o sexo dependam de conquistas para acontecerem!

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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