14 de setembro de 2015 | Ano 2, Edição #18 | Texto: | Ilustração: Clara Browne
Nem toda conquista é nossa

Quando prestei vestibular, o Orkut ainda estava em seus tempos áureos e a comunidade que eu mais aguardava pertencer era a “Foi mal a minha é Federal”. Só fui perceber mais tarde, conversando com meus veteranos do curso de história, que ostentar minha aprovação no vestibular não era nada mais do que comemorar a desigualdade social. Não que eu não devesse ficar feliz com a minha aprovação, mas que, na verdade, estudar em uma faculdade de qualidade não deveria ser uma conquista e, sim, um direito. Descobria afinal que o que se comemora como conquista às vezes não é nada mais do que a repercussão de um privilégio que já era garantido.

Demorei bem mais tempo para entender que estudar na Federal não era uma vitória e muito menos uma escolha. No caminho que foi traçado para mim desde que nasci no berço esplendido da classe média ou eu passava no vestibular ou eu passava no vestibular. Aos 17 anos, isso era só o início de uma lista de tarefas que precisavam ser cumpridas. Cada vez mais o que eu supunha como conquista se parece com um destino que me protege ao mesmo tempo em que me priva de ter vontade própria.

Porque, afinal, o que pensamos como conquista e vitória pessoal está quase sempre relacionado a alguma posse. Nosso nível de bem-estar pode ser medido por listas que dizem muito pouco sobre ter uma vida saudável e plena. Principalmente, essas listas se constroem de modo cruelmente desigual.  Enquanto alguns confundem um estilo de vida luxuoso como realização pessoal, a maioria nem pode pensar nesses termos, porque precisa lutar para conquistas básicas como ter uma casa e comida – o que supostamente deveria ser um direito garantido a qualquer ser humano.

É perverso transformar direitos em conquistas e também é problemático pensar nossa felicidade em termos de posse. A vida em seus momentos mais árduos ou plenos não é algo facilmente capturável em listas ou fotografias expostas nas redes sociais. Nem toda conquista é nossa. E nem todo desejo cabe em uma conquista.

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Nunca tinha pensando por esse lado, parabéns

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos