7 de abril de 2015 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Beatriz Leite
Nem toda leitura obrigatória é uma desgraça na sua vida: 10 exemplos pessoais

Toda escola passa livros obrigatórios para lermos. Seja por causa do vestibular que vem aí, seja porque o professor ou professora achou que seria pertinente trabalhar algum livro com os alunos. Além de conhecer autores importantes, a ideia dos livros obrigatórios é também estimular alunos e alunas a lerem e, quem sabe, desenvolverem gosto pela literatura. Mas o que acaba acontecendo, na maioria das vezes, é que nossas almas rebeldes gritam mais alto e, mesmo que você seja uma pessoa que goste de livros, a ideia de ser obrigada a ler determinada história desestimula muito mais – e a chance de pegarmos birra com os pobres coitados dos livros se torna muito maior do que a chance de desenvolvermos amor pela literatura. No fim, a maioria dos estudantes acaba procurando um resumo na internet ou vendo a adaptação para cinema, pois é mesmo uma opção mais fácil do que ler um livro chato.

Até hoje me lembro de algumas desgraças que apareceram na minha vida – Robin Hood, você me gera raiva até hoje, devia ter continuado raposa para sempre – e admito que, assim como todos à minha volta, deixei-as de lado e peguei resumos na internet para fazer a prova. Mas no meio de tantas leituras obrigatórias, apareceram livros maravilhosos, os quais nunca me esquecerei. Livros que me marcaram, que se tornaram preferidos, que deram gosto de ler.

Todo ano seu professor ou sua professora vai passar pelo menos um livro que você vai gostar, acredite. Existe um valor naquilo que nos é pedido – seja pelo que representa historicamente, seja por ser bem escrito, seja simplesmente porque a pessoa que está pedindo leu na sua idade e amou. E o que às vezes é difícil de entender – e isso falo para mim mesma todos os dias – é que algo que é obrigatório pode, sim, ser legal. Pode até mesmo mudar sua vida. E, por isso, compartilho aqui alguns desses livros ou contos que deram um prazer enorme de ler, apesar de minha alma, rebelde como a sua, gritar “NÃO!” a tudo o que é obrigatório na vida.

 

  1. A Metamorfose (Die Verwandlung) – Franz Kafka

Eu tinha 13 anos quando o professor de português, de longe o meu preferido, passou A Metamorfose para lermos. Meu pai já havia me contado da história, mas lê-la foi uma experiência completamente diferente. A premissa: um homem acorda um dia e está transformado em um inseto gigante. A cada página,no limiar do assombro e do maravilhamento, o brilho mais forte nos olhos de quem lê.

  1. Orgulho e preconceito (Pride and Prejudice) – Jane Austen

Digam o que quiserem, mas Orgulho e preconceito é e sempre será um dos melhores livros de todos os tempos. É romântico? Óbvio, foi escrito exatamente na fase do Romantismo. Mas não, não é água com açúcar como muita gente que não entende a essência dessa preciosidade diz por aí. Jane Austen, além de ser uma das poucas mulheres escritoras reconhecidas de sua época, capta o que é a vida (e o conto de fadas) das mulheres do fim do século XVIII, começo do XIX. E tudo com uma ironia finíssima, que quem não se atenta pode pensar que é sério. Deixe de preconceito e abra seu coraçãozinho para o universo dessa mulher maravilhosa.

  1. Morte e vida severina – João Cabral de Melo Neto

Um poema-peça que meu professor fez questão de ler grande parte em aula conosco. Uma daquelas histórias que, contando, não tem nada demais. Mas é de João Cabral que estamos falando. O silêncio, a pedra, o sertão – tudo se torna doce a quem o lê, mesmo que a história seja árida, que seja a história de morte e vida severina. A cada verso, uma nova referência, uma nova crítica, um novo mundo a ser criado. Admito: tive que me segurar para não chorar no meio da aula. Porque por mais que o projeto de João Cabral fosse ser extremamente racional na construção de seus poemas, não tem jeito: ele comove demais. Tanto que, durante muitos anos, eu tinha decorado a primeira parte do poema. “O Retirante” explica ao leitor quem é e a que vai (“O meu nome é Severino, não tenho outro de pia…). E já que estamos falando em comoção, fica aqui um combo coxinha no peito: um dos cantos de Morte e vida severina, musicada pelo Chico Buarque.

  1. O Ovo e a galinha – Clarice Lispector

A gente já meio que sabe que a Clarice Lispector tem essa capacidade enorme de transformar qualquer coisa em um soco no estômago, em uma espécie de transe, em uma experiência daquelas de tirar o fôlego. Mas esse conto é diferente de tudo. Não é apenas uma viagem louca pelo fluxo de consciência, é um mistério eterno. A cada palavra, você se embala mais e mais em algo que não é certeza ou razão, que não é busca ou achado. Ao fim, não se sabe mais do ovo, da galinha ou de si mesma. Tudo é mistério, tudo é certeza. E por mais que, do conto, não seja possível tirar conclusão alguma (a própria Clarice, uma vez questionada sobre o conto, respondeu que não sabia o que ele significava ou queria significar), quando o último ponto é dado e você, leitora, ergue sua cabeça a respirar com fôlego novamente, você sabe que, naquele instante, você mudou. Você nunca mais será a mesma.

  1. O Fazedor de velhos – Rodrigo Lacerda

Alguns livros são socos no estômago, mas este é um abraço no coração. Foi o último livro que o professor do nono ano pediu para que lêssemos – e ele não poderia ter acertado mais. O Fazedor de velhos conta a história de um garoto que está em um daqueles momentos da vida em que se depara com o fato de que suas escolhas não fazem mais sentido e, querendo respostas do que fazer da sua vida, ele passa a ser guiado por um velho estranho que pede tarefas bem esquisitas. Falando assim, não parece nada demais. Mas esse é um daqueles livros que te dão abrigo no momento em que se está mais perdida. Quando uma fase da vida termina, quando você percebe que está crescendo, que tudo em volta está mudando, vem este abraço no coração e aí você entende: você também faz-se mais velha.

  1. O Alienista – Machado de Assis

Era o oitavo ano do Ensino Fundamental e eu estava naquela fase de querer ser diferente. Lembra aquela história do diferente ser visto como loucura? Pois foi o que aconteceu. Eu era a “louca”, o que ao mesmo tempo me deixava orgulhosa e um pouco triste. Foi quando esse conto maravilhoso apareceu e o mundo se descortinou. O mundo inteiro é a casa verde e, aqui, faço questão de usar as palavras de Machado “A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar de que é um continente”.

 

  1. O Menino no espelho – Fernando Sabino

Nasci e cresci na cidade, na época em que criança não podia ficar na rua porque você nunca sabe quem é que está lá. Nasci e cresci na internet, em um submundo mágico em que podíamos ser livres à nossa maneira. Mesmo assim, O Menino no espelho me levou para essa infância das ruas de terra batida, galinhas a serem mortas para o almoço e reuniões secretas de espionagem. Um mundo mágico de sol, Minas e uma estranha nostalgia se descortina a cada página e, ao fim, entendemos que crescer é também lembrar, revisitar o ido e encontrar-se ali, bem de frente ao espelho.

 

  1. Princesa: a história real da vida das mulheres árabes por trás de seus negros véus (Princess: A True Story of Life Behind the Veil in Saudi Arabia) – Jean P. Sasson

Este livro foi pedido não por um professor de português, mas pelo professor de política, para que entendêssemos um pouco mais sobre a situação no Oriente Médio. Lembro-me de os meninos da turma mal terem terminado de ler, enquanto todas as garotas incorporaram um pouco a história em si. “Mas por quê?” você me pergunta.

Imagine a vida de uma princesa, mas não uma princesa como a Branca de Neve ou a Aurora. Também não estou falando de uma princesa como a Diana ou a Kate. Imagine a vida de uma princesa na Arábia Saudita, país islâmico com todas suas leis inflexíveis e rigorosamente pautadas no Corão. Um lugar em que mulheres são proibidas de dirigir, de viajarem sozinhas. Que o motivo da proibição de mulheres testemunharem em processos criminais são: porque são muito emotivas, esquecem das coisas, não participam da vida pública (e, portanto, não conseguem entendê-la) e porque são completamente dominadas pelo homem (e, portanto, diriam o que o homem lhes mandar dizer em um testemunho).

Agora imagine esta princesa com uma personalidade forte, que é contra as leis machistas de seu país, que faz-se ser ouvida. Imagine esta mulher sendo submetida à vontade dos homens – e tendo a lei contra ela –, imagine-a conhecendo outras mulheres com histórias mil vezes piores. Casamentos forçados, mutilações, violências sexuais, apedrejamento, tráfico de órgãos. Agora imagine que esta história é real.

Jean P. Sasson, durante o tempo que morou na Arábia Saudita, conheceu esta princesa, a qual pediu-lhe para que escrevesse sua história, já que ela própria não poderia fazê-la sem o perigo da morte. E apesar do receio (a escritora conta que amou o país e não gostaria de divulgar mais negatividade quanto a ele), Jean P. Sasson deu voz a esta princesa, a qual conhecemos por Sultana. E, junto a isso, deu voz a toda uma série de mulheres que sofrem diariamente pelo simples fato de serem mulheres, mas que são esquecidas, por estarem em uma parte do mundo a qual se escolhe muitas vezes ignorar. E apesar de lermos sobre esse mundo distante, onde os homens e o dinheiro claramente imperam, no fundo, também sabemos que esse mundo é também o nosso – e é essa noção de unidade que faz com que Princesa seja tão poderoso.

  1. Auto da compadecida – Ariano Suassuna

É muito raro lermos peças de teatro na escola. Talvez por isso mesmo que esse livro tenha me impactado tanto. O formato de roteiro muda muito o ritmo de leitura, fica bem mais dinâmico. Além disso, todas as personagens são incríveis e não quero falar nada sobre a história para não dar spoiler, porque ver o enredo se descortinando em frente a seus olhos, no caso do Auto da compadecida, te faz gargalhar sozinha. Aproveito para deixar uma dica: leia os diálogos com o sotaque de onde cada personagem é.

  1. O Mário que não era de Andrade – Luciana Sandroni

Parece meio bobo, porque a proposta é ser um livro mais educativo sobre a vida e a obra de Mário de Andrade, mas a gente até esquece isso enquanto está lendo. A premissa: um garoto chamado Mário encontra uma espécie de portal que o leva para a casa de Mário de Andrade, quando ele estava vivo. A cada novo dia que Mário entrava pela porta, o escritor estava em uma nova fase da vida, com novas preocupações e alegrias. Do nascimento até sua morte. Luciana cria uma história tão doce, que fica fácil esquecer que Mário de Andrade era O Mário de Andrade – a ponto que o envolvimento fica tão grande que, no final, mesmo sendo óbvio que ele morreria (afinal, né, ele já morreu, não dava pra deixar isso de fora), eu chorei horrores (e olha que não era de chorar com essas coisas, não).

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

  • Gabi

    Eu amei Capitães da Areia e Cidade e as Serras quando fui obrigada a ler na escolar!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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