27 de janeiro de 2015 | Edição #10 | Texto: | Ilustração: Manzanna
Nem todo superpoder é grandioso
Ilustração: Manzanna.

Falar em superpoderes é sempre um pouco megalomaníaco e exagerado. Conhecemos pessoas que consideramos ter superpoderes, mas se alguém nos perguntar qual é o nosso provavelmente não saberemos responder.

Fulano consegue aprender três línguas simultaneamente enquanto dorme. Sicrana salva animais abandonados, cuida de mais de 60 bichinhos dentro da própria casa, e ainda dá conta de ser a aluna número 1 da sala no seu curso de medicina. Mas… e eu? :(

Parece que todo mundo tem um milhão de poderes e que se não conseguirmos fazer a quantidade de coisas com a facilidade que alguém pode ter de fazê-lo, nos sentimos insatisfeitas, achamos que falhamos. Parece que a primeira coisa que eu aprendi quando nasci foi a me comparar com os outros! E eu acho que se tem uma coisa que faz a vida da gente ficar mais difícil é justamente a tal da comparação. Estamos na era da rede social e as vidas dos outros estão sempre escancaradas na nossa cara (amo essa era! Não pensem que vou criticar não) e invariavelmente elas nos parecem perfeitas, invejáveis, e só facilitam o desenvolvimento do insetinho da comparação na nossa cabeça. O que os outros têm de melhor vem até a gente com uma lente de aumento supermegapotente e o que a gente tem de melhor vira um grãozinho de areia ao lado do sol. Os defeitos alheios nunca aparecem para nós nessas horas então só vemos os nossos. O dia a dia, os problemas, as lutas, tudo isso fica enfraquecido ao lado de fotos maravilhosas com sorrisos enormes em lugares perfeitos.

Acontece que nem só de feitos magníficos e momentos incríveis é feita a vida. Não vou nem entrar no mérito de como pessoas diferentes têm prioridades e realidades diferentes. Eu não quero focar no outro lado e falar sobre as outras pessoas, com quem nos comparamos o tempo inteiro. Quero falar do lado de cá. E se a gente parasse de esperar conquistas extraordinárias para sentirmos orgulho próprio? E se pudéssemos ver que nossos superpoderes já estão presentes no nosso dia a dia? Talvez uma das suas qualidades não seja ser uma pessoa superforte que consegue levantar um peso de 10 mil quilos com os braços com a facilidade de quem levanta uma pena (entenda isso como literal ou metafórico). Talvez uma delas seja: você sabe montar uma barraca de acampamento como ninguém. Por que isso não é razão para orgulho também? Então quero fazer um apelo para que você se orgulhe das coisas cotidianas também. Para que pare de querer ter aquela qualidade que a menina da sua sala tem, ou de querer conquistar o que o cara do trabalho conquistou! Quero que você se orgulhe das coisas cotidianas que parecem bobas, mas não são! Por exemplo, de finalmente passar daquela fase do videogame em que você estava presa desde o Natal passado, de ter conseguido fazer um penteado bonito, de ter pregado o botão da camisa sem furar o dedo, de ter lembrado a letra inteira de uma música que gosta, de ter feito um café mais gostoso que o normal essa manhã. Não quero que você espere até ter um doutorado em física quântica de quinto grau para sentir orgulho de si mesma. Quando isso acontecer (e coisas grandes e também gigantescas, como essa, ainda vão acontecer na sua vida), sinta orgulho, sim! Mas sinta orgulho antes disso. Você pode se orgulhar de si mesma agora. Seu superpoder não é sempre grandioso e atípico. Não vai sempre causar inveja nos outros, mas não vai ser o único poder que você tem. Pense em você como uma pessoa multipoderosa. Alguns dos poderes são talentos grandes e outros bem pequenos. O que importa não é o tamanho deles, mas que eles sejam grandiosos para você.

Lembra quando você era pequena e acreditava que você era um ser diferenciado porque conseguia descobrir pelo cheiro qual era a comida que seu avô estava cozinhando, aí percebeu que era bobagem? Bom, recupere esse talento, ele não era nada bobo! Você pode identificar os seus poderes agora, mesmo que os dos outros pareçam tão maiores e mais fortes que os seus. A vida vai ficando bem mais leve se pararmos de achar que temos que ser super-heroínas e salvar o mundo, mudar o mundo todos os dias! Não somos super-heroínas, mas temos poderes e, adivinhe, eles são, em sua maioria, extraordinariamente… cotidianos. Parece que rola uma grande pressão para transformar cada dia num dia incrível, que leve a alguma coisa maior. É claro que é legal ter dias assim, mas acredite: podemos nos sentir felizes mesmo quando nosso dia não foi um desses. E nenhum feito histórico acontece de um dia para o outro, então aprecie as coisas que pareceriam insignificantes. Porque é possível sim mudar o mundo e mudar a nós mesmas, mas é impossível esperar que absolutamente todos os nossos passos serão extraordinários.

Experimente olhar seus atos cotidianos de uma ótica diferente a partir de agora. Nunca se sabe qual era o superpoder que você estava escondendo de si mesma a vida toda… E pode acreditar em mim: a partir desses pequenos orgulhos você vai conseguir as conquistas enormes que você quer. Nenhum livro é escrito em uma noite, então não adianta se estressar se conseguiu escrever só uma página hoje. Se a página saiu do jeito que você queria, experimente se parabenizar pelo feito em vez de se torturar por não ter feito mais. Sempre tem amanhã para você continuar e ter ainda mais razões para se orgulhar, e tentar escrever uma página e meia. E depois duas. Até que perceba que você é infinita.

Beatriz Trevisan
  • Cofundadora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Música

Bia tem 22 aninhos e ainda não descobriu o que gosta e quer de verdade fazer nessa vida. Por isso, enquanto não descobre, tenta fazer um monte de coisas, como escrever, cantar, ser cabeleireira dazamiga, mexer em blogs e de vez em quando estudar Direito pra faculdade. Apesar de parecer que isso ocupa todo o tempo livre dela, na maioria das vezes, ela só acaba não conseguindo fazer nada e usa todo ele para ouvir música, ler e jogar Pokémon. Adora música, sua cantora favorita é a Lorde e é soprano. Tumblr: biadrill.tumblr.com

  • Eilor Marigo

    Nós, seres humanos, aprendemos por comparação. Mas quem aprende a se aprovar sem se comparar aos outros, certamente descobre um lado mais pleno e feliz da própria vida.
    Excelente superpoder, Bia!
    Beijos

  • Simone

    Muito bom Beatriz! Estamos habituados a ver o resultado do trabalho dos outros, mas não o trabalho que tiveram para chegar ao resultado! Qualquer coisa na vida está impregnada e partes boas e partes não tão boas assim… é uma questão de saber olhar a parte boa e valorizá-la!
    Parabéns pelo seu texto!
    😉

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