13 de novembro de 2015 | Ano 2, Edição #20 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Ninguém fica parado quando toca som de preto

“Eu sou bem pior do que você tá vendo / O preto aqui não tem dó, é 100% veneno / A primeira faz bum, a segunda faz tá / Eu tenho uma missão e não vou parar / Meu estilo é pesado e faz tremer o chão / Minha palavra vale um tiro, eu tenho muita munição”
(Racionais MC’s – Capítulo 4, versículo 3)

É histórico que, no Brasil, as músicas produzidas pelos pobres e nas periferias sempre foram consideradas pela elite ruins, violentas, degradantes. No século XX, o samba e as rodas de capoeira eram vistos como focos de violência e perigo na cidade do Rio. Mas era ali, no samba e nas rodas, que a periferia se encontrava, se reconhecia e se sentia importante: todos tinham vez e voz. Antes disso, os negros trazidos à força para serem escravizados no Brasil se reencontravam no jongo. Depois disso, os favelados se reencontravam no hip-hop e no funk. A periferia sempre teve na música um refúgio da realidade dura, até hoje.

Ao longo dos anos, o samba, o hip-hop e o funk passaram a ser aceitos pela elite, mas não a qualquer custo: todo o movimento da criação e do contexto desses ritmos foi esvaziado de significado. Agora, poucos entendem a importância da música como reafirmação de identidade e denúncia de violências cotidianas, e a veem apenas como diversão. Sem nada além disso. E como não há mais sentido, os ritmos se tornaram frágeis, e apenas os músicos e ouvintes nascidos e/ou criados nas realidades antes retratadas conseguem entender o problema em tudo isso.

Os bailes funk da elite custam caro, a bebida também, as músicas são extremamente produzidas, e feitas por DJs que figuram em programas de TV e alguns artistas que nem sequer são de origem pobre ou reconhecem a história daquele ritmo. Esse cenário em nada se assemelha aos bailes funk periféricos, com caixas de som simples, DJs locais e MCs que, em busca de um espaço na indústria da música, fazem de cinco a dez apresentações por noite cantando a realidade que vê todo o dia em sua porta. Para a periferia, a música, o futebol e o crime se apresentam como (atraentes) saídas da pobreza. E se a classe média é quem tem mais poder parar gerar lucro e proporcionar, assim, uma vida um pouco mais digna, é para ela que os ritmos vão se voltar. Não por preferência, mas por necessidade. A partir daí, estão cada vez mais raras as letras com consciência social ou que retratam o cotidiano das comunidades. Os ritmos tiveram que se adaptar às vontades da classe média para serem aceitos.

Se no passado a música periférica se firmou, foi porque ela surgiu nesse contexto de ser uma ferramenta de protesto, denunciar a violência e resgatar as origens de um povo que se perdeu (contra a sua vontade) ao longo da história. Mas esta face só resiste ao primeiro momento. O preconceito se mostra quando a elite rechaça esse movimento de protesto para não se reconhecer como causa e parte de um sistema excludente como este em que vivemos. A música produzida e consumida majoritariamente por pretos foi e é essencial para que reconheçamos as violências que sofremos diariamente, como pretos e pobres, mas a elite tem dificuldade em aceitá-la crua. Por isso ela é moldada, produzida, atenuada. Aliás, não só a música, mas os artistas que as cantam. As figuras que antes expunham em seus corpos a realidade da moda e do estilo periférico, agora se moldam à moda e ao estilo padrão – através dos cabelos, das roupas, dos traços. A elite só consome os artistas se eles a divertirem e parecerem um pouco com ela.

Por isso, é tão importante a existência de artistas que ainda resistem a esse processo, como Mc Carol, Emicida e Racionais MC’s – a voz da periferia nos anos 1990, mas que continua sendo referência até hoje –, que não tiveram que se moldar ao padrão para se tornarem reconhecidos e continuam, ainda assim, usando a música como forma de protesto e exaltação dos pretos e pobres.

Lola Ferreira
  • Revisora
  • Social Media

Lola tem 22 anos, mora no Rio e é apaixonada por ele e pelo jornalismo. Busca o contato com suas raízes a todo tempo, e deseja que todas as mulheres negras assim o façam. Lê, escreve e estuda muito - mas julga que nunca será suficiente. Deveria se importar menos com a opinião alheia, mas ao mesmo tempo ouvir os outros é o que mais gosta de fazer. Acredita em astrologia e no amor como chave para mudar o mundo.

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