23 de junho de 2015 | Ano 2, Edição #15 | Texto: | Ilustração: Laura Viana
No Capitolina Repórter de hoje: Memes

Ilustração livremente inspirada no icônico Mr. Skeltal 

Uma das coisas muito loucas sobre essa história toda de comunicação e linguagem é que elas refletem – ou será que ajudam a moldar? Fica a dúvida – o funcionamento de determinada sociedade em determinado período histórico.

E o que dizer dessa sociedade contemporânea ocidental que mal conhecemos e já consideramos pacas? Qual seria a forma de comunicação que resume nossos digitadores e conectados seres? Os palpiteiros mal-encaixados no tempo poderiam dizer que é a nova língua criada pela internet, enquanto outros mais ousados apelariam para os emojis. Mas qualquer contato levemente mais aprofundado com nossa parcela da humanidade comprova que não há ‘vc’ ou 🙂 que resuma tão bem nosso jeitinho quanto um bom vídeo viral.

Assim, como um exercício de auto-reflexão sobre nosso lugar nesta grande festa que é a história humana, a Capitolina te convida para uma análise profunda, acadêmica e bem fundamentada (ou talvez não) sobre a perfeita metáfora visual do espírito de nosso tempo: o meme.

 

De onde vêm?

dfb

Pera lá que a pergunta é meio ampla, então vamos por partes.

Para começar, o termo foi cunhado pelo biólogo Richard Dawkins há alguns milhões de anos – isso em tempo de internet, em tempo humano, foi só há uns quarenta. A grande estreia se deu no livro “O Gene Egoísta”, de 1976, em que Dawkins usa o conceito para explicar uma ideia que se repete e se replica.

A origem da palavra é bem clara, mas o surgimento da coisa toda já em bem menos preciso, sendo quase impossível traçar a origem do primeiro meme. Podemos, porém, relembrar aquela corrente de e-mail que todo pai já recebeu em seu endereço @uol.com.br em meados de 1990, e chegaremos à conclusão de que a sementinha de tudo isso está perdida em alguma caixa de entrada do Outlook do seu Windows 95.

Bons exemplos são o bebê dançante 3D que circula por aí desde 1996, os hamsters dançantes do Hampster Dance, de 1998, e a banana dançante do “It’s Peanut Butter Jelly Time!”, de 2001 – apesar de não ser obrigatório dentro da definição de meme, nota-se claramente o apreço da jovem internet por coisas esquisitas dançando.

Outro grande pioneiro do conceito é do Brasil-sil-sil e podia ser considerado praticamente o acesso nacional de boas vindas à internet discada: o clássico pudim.com.br.

Orly_owl

É possível traçar, porém, o surgimento do grande responsável pela estética hegemônica na construção de um meme. No distante ano de 2003, surge a corujinha ORLY, que não só aprimorou a arte do questionamento passivo-agressivo, como também deu início a uma nova era no design gráfico virtual, moldando essa identidade visual de imagem somada a uma frase de impacto em fonte neutra – a Impact acabou se firmando como rainha absoluta na área.

 

Onde vivem?

Responder “na internet” seria cretino demais? Sejamos mais específicos, então.

Boa parte dos clássicos, aqueles que moldaram o conceito de meme da forma como você passou a ver em estampas de roupas e bonés – o nome científico é Rage Comic -, surgiram em Chans, ambientes levemente obscuros da rede mundial de computadores que costumam funcionar como fóruns. Além disso, outra grande fatia dentro desta biodiversidade toda tem sua paternidade reclamada pelo Tumblr ou pelo Reddit e suas respectivas hordas de usuários.

Já o meme em vídeo costuma fazer um caminho mais mainstream, atingindo a popularidade por meio das redes sociais mais comuns, como Facebook e Twitter.

 

De quê se alimentam?

Principalmente, da capacidade inventiva do ser humano – capacidade esta que costuma ser levada ao limite do absurdo quando se trata da internet. Lembram do “Bed Intruder Song”? Algum seguidor de regras básicas do bom senso acharia normal viralizar uma situação trágica feito aquela e ainda transformá-la em uma coisa – admitamos – engraçadíssima? Pois é, normal pode não ser, mas não é sobre normalidade que estamos falando.

Além disso, outro fator essencial e indispensável ao conceito de meme é a conectividade. Não basta criar a piada, é preciso espalhá-la. Para o máximo de pessoas possível. Até que estejam todos de saco completamente cheio. Nesse ponto, cria-se um novo meme.
E este é o outro ponto do tripé alimentar mêmico: a constante renovação. Mas falamos melhor sobre ele no próximo ítem.

 

Para onde vão?

Troll-face

De forma bem básica, poderíamos dizer que, tão rápido quanto atingem seu auge, os memes também desaparecem. O ciclo de vida é curto neste mundo, queridinha, um dia você está no topo, no outro não está mais.

Mas não estamos aqui para manter a conversa no nível básico, então podemos tentar entender a coisa toda por outro lado: o tal do Lavoisier já dizia que, na natureza, nada se perde, tudo se transforma, não é? A pergunta não é retórica, eu não sei mesmo se foi ele quem disse isso, nem se foi deste jeito, mas vamos ao ponto: não é só na natureza. Nesse belo cosmos que é a internet, a maravilha da reciclagem também acontece.

Um meme pode simplesmente desaparecer? Pode, mas é o menos provável. Muitas vezes, ele apenas se fragmenta em outros memes, o que pode resultar em um fenômeno conhecido como “levar a piada longe demais”. Pode ser também que ele apenas mude de público: você não usa mais o Troll Face porque acha old? Talvez ele seja a grande novidade na vida digital do seu tio que acabou de criar um perfil no Facebook e está adorando mandar diversas trollagens – algum screamer de 1999, aposto – para os queridos sobrinhos.

O meme pode ser, inclusive, apropriado por mídias mais jurássicas, como a televisão. A abertura de “Unbreakable Kimmy Schmidt”, feita nos moldes bem conhecidos dos remixes auto-tunados de entrevistas e bizarrices veiculados em canais de notícias, é um ótimo exemplo recente.

E, depois de cumprir o roteiro vanguarda-público geral-tios, o meme tende a seguir a mesma lógica das roupas, virando vintage. Citar o All Your Base Are Belong To Us há cinco anos era sinal de que você estava atrasado nas tendências da internet – hoje em dia, dá um charme retrô à conversa. Tipo calça de cintura alta, sabe?

Para encerrar, deixo uma curadoria pessoal, em ordem mais ou menos cronológica, dos melhores memes que a WWW já viu. Divirta-se, e não precisa me agradecer:

Tunak Tunak Tun
Choque da Uva
Banana Phone
Leek Spin
Charlie The Unicorn
It’s Over 9000
I like turtles
LEAVE BRITNEY ALONE!
King Size do Rio de Janeiro
Friday
Going to the store 
Nissim Ourfali
Ryan Gosling Won’t Eat His Cereal
O repórter gostosinho
Bem louco! Empolgante!
Eu tô cagado de fome!
Site dos Menes
Legado da Copa
Bonecas Trouxas
Imagens de dor e sofrimento

Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

  • dora

    obrigada sr. esqueleto

  • http://biadrill.tumblr.com/ Beatriz Trevisan

    LEAVE BRITNEY ALONE AHAHAHA eu tinha esquecido OBRIGADA

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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