20 de julho de 2015 | Ano 2, Edição #16 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
No que você está pensando?

Ao abrir o Facebook ou o Twitter, os dois parecem grandes amigos seus, perguntando como vai sua vida, quais são as novidades, o que tem de legal acontecendo. É tanta simpatia que realmente dá vontade de contar tudo, desde a mudança de escola até aquele relato detalhado sobre o tamanho da fila da livraria, né? O chato é que nem sempre todo mundo curte muito essa coisa de saber cada partezinha da sua vida.

Mas o que é puro mau humor dos haters que não querem ver sua felicidade e o que é realmente uma reclamação justa sobre a décima selfie com close no seu nariz em um mesmo dia? Nem sempre dá pra saber.

O oversharing, estrangeirismo que define essa prática de compartilhar alucinadamente, online ou offline, a própria vida, tem limites um pouco nebulosos. Minha mãe, por exemplo, achava, por um bom tempo, completamente absurdo que eu usasse fotos minhas na internet – “Como assim você coloca sua cara aí para o mundo inteiro ver?!”. Já alguns amigos acham estranho que eu considere jacu essa coisa de fazer check-in no Foursquare quando você vai a algum lugar – para eles, nada mais natural que compartilhar com seus contatos o que você está fazendo de legal por aí.

Exceto em coisas meio óbvias – foto de cocô tende a ser uma unanimidade, mesmo quando é de um bebê fofíssimo -, o oversharing tende a estar nos olhos de quem vê. Usuários diferentes veem o uso da internet de maneira diferente, seja pelo recorte de geração, profissão ou contexto social, e o que é uma ferramenta puramente utilitária para alguém pode ser o meio de expressão de outro. Para você, o Facebook pode ser só uma forma de trocar mensagens e marcar saídas com os amigos. Para sua colega de faculdade, um lugar para se manter informada sobre o mundo. Para a sua tia, um álbum de fotos do novo netinho e daquela viagem superbacana para Campos do Jordão. E tudo bem postar essas coisas ou se irritar com elas.

Mas, como tudo na vida, o padrão costuma ser diferente para quem é mulher. A internet é apaixonada pelo termo attention whore, que é algo meio intraduzível, mas costuma ser usado para se referir ofensivamente àquela pessoa – que, coincidentemente, costuma ser sempre uma miga de gênero nossa – que se expõe muito online. Essa exposição toda, dizem os críticos, é puro desejo por confete, atenção e likes, e não deve, jamais, ser confundida com conteúdo relevante. Mas se você já passou qualquer meia hora em algum desses ambientes dominados por homens nos meios virtuais, principalmente em chans ou jogos online, sabe que basta se mostrar como mulher para ser classificada como – pronto, achei tradução para o termo – uma vadia que só quer atenção.

O negócio é que o peso dado pelo conteúdo produzido por homens e por mulheres costuma ser bem diferente – levante a mãozinha quem de nós nunca foi interrompida ou corrigida grosseiramente por um homem enquanto falava em público, principalmente quando o assunto era política. Nenhuma mão levantada? Que surpresa! – e na internet isso costuma ficar ainda mais claro.

Se na vida real as coisas já não são das mais fáceis, em um mundo virtual em que o anonimato tá aí, para o bem e para o mal, a crueldade e os padrões duplos misóginos podem chegar a níveis bem mais absurdos. Em um artigo chamado “Por que as mulheres não são bem vindas na internet?”, publicado na PSMag, Amanda Hess, que escreve sobre tecnologia, cita muitos dados e histórias interessantes, incluindo dela própria, sobre como a violência de gênero online é marcante. Uma das estatísticas mostradas é de uma pesquisa que criou diversos perfis para fazer comentários, e levantou uma média de cem comentários diários com conteúdo sexualmente explícito ou ameaçador feitos em resposta aos usernames femininos. Já em relação aos usuários masculinos, a média era de cerca de 3,7. Ou seja, não é difícil entender que, muitas vezes, a implicância e a crítica feita ao excesso de compartilhamento online é, na verdade, uma crítica ao que é produzido por mulheres. Os tais trolls gostam muito de encher nosso saco para demarcar território, e qualquer coisa vista como feminina vai receber o devido backlash. O ódio às selfies é um dos melhores exemplos disso.

Feito o devido recorte de gênero, ainda fica dúvida sobre se deve ou não postar tal coisa?

O mais legal é sempre lembrar que a internet é feita de compartilhamento, e que a graça toda desse universo virtual imenso é poder escutar outras vozes além das que já têm palco na vida real. E o que você tem a dizer é importante sim, por mais que muitas vezes te façam achar que é bobagem. Só é preciso saber o que é informação relevante – aquela que vai ser bacana para você falar e útil para quem recebe – e o que é aquele tipo de coisa que tradicionalmente estaria em um diário, de você para você mesma.

Esse segundo tipo não necessariamente precisa ficar totalmente de fora, já que é um jeito bem legal de mostrar sua própria personalidade. Acontece que ouvir sobre seu cachorro e ver várias fotos fofíssimas dele de vez em quando pode ser divertido, mas na quinta vez em uma mesma semana já é provável que te faça perder o seguidor e a amizade. Poste selfies, poste histórias engraçadas, reclame da vida, poste textões. Tá tudo liberado, é só parar e pensar: você está cuidando bem do seu loteamento na internet? Apelando ao cliché, é tudo uma questão de equilíbrio. Ou, apelando ao Livro do Bom Senso Online:

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Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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