12 de junho de 2015 | Ano 2, Edição #15 | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
Nós e a música (ou: por que formar uma banda!)

Se você é mulher, sabe muito bem que nem sempre é fácil dizer o que você está pensando. Por mais que nós acreditemos que o que temos para falar é importante e valioso para quem está à nossa volta, na hora H dá gagueira, a gente fica vermelha, se convence mil vezes dentro da própria cabeça que aquilo nem é tão importante assim, pensa que alguma outra pessoa provavelmente já vai falar o que nós tínhamos pensado dizer e fica por isso mesmo, ou quando juntamos bastante coragem para falar, o tom de voz sai meio baixo e nós tentamos resumir tudo em um minuto, para acabar logo; que nem arrancar band-aid, sabe?

Nem todas as mulheres têm tanto medo quanto eu – ainda bem, se não estaríamos perdidas! –, mas mesmo as mais corajosas temem os insultos que vão ouvir quando disserem algo ligeiramente mais grosseiro ou agressivo. “Maria-macho”, “louca”, “descompensada”, “loira burra” e variantes saem da boca de alguns homens quase que automaticamente, assim, como se nada fosse.

Uma forma de dizer o que pensamos de um jeito mais descontraído é através da arte! Apesar de nem sempre ser possível usar esse caminho, como, por exemplo, no meio de uma discussão política séria, ele tem sua utilidade e produz efeitos talvez até mais poderosos do que discursos formais e quadrados.

Quando eu falo de arte obviamente me refiro a qualquer forma dela, porque dá para passar muito do que se pensa através da pintura, desenho, animação, dança, poema ou o que for. Mas eu tenho um apreço especial pela música quando penso em formas de arte efetivas para distribuir ideias importantes por aí.

Falando nisso, não dá para não lembrar de mim deitada no chão do quarto ouvindo Beatles com catorze anos e me interessando por aquele universo hare-krishna-paz-e-amor. Ainda que meu interesse por essas coisas tenha ido embora nos cinco anos que se passaram desde então (com exceção do meu vegetarianismo que se mantém aqui firme e forte), elas tiveram uma importância absoluta para a formação do meu ser naquela época. Eu cresci e fui descobrindo outras músicas que falam sobre coisas que eu acredito. Algumas delas são estranhas e algumas bem conhecidas, mas todas elas me fortalecem muito em tempos difíceis.

Por mais que muitas das minhas músicas favoritas tenham sido feitas por homens, as músicas escritas por mulheres, e principalmente aquelas que tratam do feminismo, tocam um cantinho bem especial do meu coração. Posso citar a Beyoncé, a Violeta Parra, a Mercedes Sosa, a Bethânia, a Billie Holliday e a Joni Mitchel, assim, só de cabeça. A voz delas produz um efeito no meu corpo que, ao mesmo tempo que se parece com um furacão, também dá uma tranquilidade beeeem tranquilinha. É bem verdade que as relações entre mulheres são bem diferente das outras relações, assim como a já citada Beyoncé fala neste vídeo lindo de morrer, e ouvi-la nos meus fones de ouvido é, tipo, poder carregar essa voz delas para todos os lugares comigo, sempre prontas para me dizer que eu sou forte, que não tem problema se I woke up like this.

Por mais que eu não tenha lá muito talento para compor e tocar, eu gostaria muito de poder surtir esse efeito em outras mulheres. De qualquer forma, acho um desperdício de vida saber tocar e não formar uma banda com as migas tipo p-a-r-a o-n-t-e-m! Deve ser um jeito ótimo de se divertir e ainda por cima espalhar ideias subversivas e feministas por aí.

Mas também não estou falando que formar uma banda também seja a coisa mais fácil do mundo, né. As bandas femininas sofrem muito preconceito nos festivais por aí, todo mundo provavelmente vai dizer que vocês não sabem tocar, que vocês deviam ser só tietes e mais umas baboseiras quaisquer. Mas bem, machista a gente encontra em todo canto do mundo, né? E acho que enfrentar eles com suas amigas se sentindo uma rock star é mais fácil do que enfrentar eles tendo que falar sozinha. Além disso, é muito fácil hoje em dia criar um soundcloud e divulgar as músicas no Facebook, o que pode fazer com que as ideias de vocês se espalhem muito rápido pela rede!

Por mais que tenham sempre dito para a gente que o que temos para falar não é importante, e por mais que tentem nos diminuir e intimidar, nós ainda podemos procurar brechas e oportunidades para, unidas, mostrarmos nossa força! Temos que aproveitar que a tecnologia deixa a gente se divulgar sozinha atualmente – imagina como as minas dos anos 1960 faziam para fazer o corre delas? –, que vivemos em uma época com tantas meninas querendo ser mais autônomas, livres e independentes, que feminismo está deixando de ser (bem devagarzinho e a lentos passos) um palavrão, e crescer nessa oportunidade! E crescer como mulheres não é só crescer no movimento feminista como movimento social (apesar de isso também ser superimportante), mas também crescer em todos os universos que ainda não nos pertencem, como a tecnologia, a arte e as ciências. Chamar uma mina desconhecida para a sua banda também pode ser uma ótima forma de quebrar essa rivalidade subliminar que sempre existe entre a gente, e provar que nós podemos nos unir para fazermos coisas legais juntas, sem estarmos competindo.

Então, faça como a Beyoncé, ame suas irmãs e vem com a gente conquistar o mundo!

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos