4 de novembro de 2015 | Edição #20 | Texto: | Ilustração: Isabela Zakimi-Innocentini
Nós por nós: a voz e a mão da mulher na música

Muitos processos criativos na música são coletivos, isso é muito comum. Imagina aquela cena clássica: uma banda ensaiando, baixista dando pitaco na bateria, guitarrista mudando verso que vocalista escreveu… E é muito bacana que a música que sai seja filha de todo mundo que participou da composição, porque é uma síntese do grupo que jamais poderia se concretizar sem as peculiaridades de cada indivíduo.

Acontece que, assim como o resto do mundo, nem tudo são bolhas de sabão. A cena musical é hostil. Músicos independentes sabem disso. Afinal, é custoso sobreviver sem uma gravadora e competir no mercado com peixes maiores que você. Músicos de gravadora também sabem disso, porque a indústria fonográfica é uma indústria e, no fim das contas, o lucro conta mais que o valor artístico. E sabe quem mais é vítima dessa hostilidade? As mulheres. Porque, bem, teoricamente o que é artístico deveria ser mais aberto e livre de preconceitos, mas o machismo é um mal da sociedade e acaba impregnando tudo, mesmo. Por mais que se tente isolar acusticamente, o barulho ainda vaza. O que acaba acontecendo é aquela meleca de sempre: a voz da mulher é abafada pela do homem, o homem fala pela mulher, a mulher nunca é bem representada.

No pop talvez isso seja mais evidente. Sabe como é, tem aquele estereótipo (muito real, aliás) do artista que não participa de quase nada durante a composição só para aprovar ou não a música que vai cantar (às vezes, nem isso), mandar brasa nos vocais e beijo, tchau. E aí por trás de quase toda canção pop tem macho. E isso é bem problemático, porque nós não sabemos como foram os bastidores. Não sabemos se as palavras são ditas de mulher pra mulher ou se são colocadas na boca de uma mulher por um homem que calou a experiência feminina. O resultado disso é a perpetuação de velhos paradigmas femininos, porque o homem escreve o que ele acha que a mulher é: invejosa, insegura, heterossexual, etc. Mas somente a mulher sabe o que ela é. Nesse contexto de falta de representatividade são superimportantes figuras como a Sia, que agora tá estourando como cantora, mas há muito já compunha pra grandes estrelas pop.

Mas não podemos ser injustas: o cheiro podre do sexismo não vem só do pop, “esse subgênero superficial e mesquinho”. Vem da maioria dos gêneros musicais. Pode espernear o quanto quiser, não adianta. Como a gente defende a “supercabeça” bossa nova, por exemplo? Na bossa nova a mulher é ou mera intérprete (que empresta a suavidade ímpar que só mesmo uma mulher poderia ter) ou “a Garota de Ipanema”, objeto fascinante, parte de um cenário exótico. Ela pode até estar no meio, mas nunca está na dianteira. Perigo dizer que toda a MPB repete esse padrão, mas aí entraríamos numa discussão biscoito-ou-bolacha sobre o que é MPB, e não é esse o foco da nossa conversa.

No rock também é bem complicado. A figura exagerada do machão radical que anda de moto, bebe cerveja, sua feito porco e fala palavrão é só a pontinha do iceberg. Há formas mais suaves (e talvez por isso mesmo mais eficientes e perigosas) de silenciar uma mulher neste meio. É meio como aquele papo furado de que mulher não sabe dirigir e não foi feita pra lidar com maquinaria pesada. Além de todas essas baboseiras, aparentemente mulher também não tem aptidão biológica pra tocar instrumentos. Cantar pode, mas guitarra? Bateria? Moça não sabe mexer com isso, não.

Para bater nessas ideias (e em outras mais), o Riot Grrrl surgiu com bandas de rock formadas somente por garotas, com letras agressivas bem diretas e feministas — coisa linda de se ver. Annie Clark, ou St. Vincent, como é conhecida artisticamente, também é uma afronta ao machismo no rock. Em um meio que só dá espaço para “deuses da guitarra”, suas habilidades com a guitarra fizeram muitas costas se dobrarem para reverenciá-la. Mesmo que sua figura magricela e frágil tente convencer do contrário, ela é uma deusa da guitarra. Pensando mais fundo, é horrível como uma mulher precisa ser muito melhor que um homem para ser reconhecida. Meio como nos games, né, meninas?

O rap e o funk também têm suas especificidades. Os dois costumam ter letras escritas por quem canta, porque elas são expressões das convicções do artista. É a arte de meter a boca no trombone, de mandar a real. Quando junta tudo isso com mulher, então, vixe, só pode dar coisa boa: Bárbara Sweet, Karol Conka, MC Carol, Ludmilla e tantas outras que dão conta de retratar a realidade feminina por quem de fato entende do assunto: elas mesmas. Não é nem preciso ser superengajada no feminismo. Só o fato de ser uma mulher falando por ela mesma já é muito significativo.

É expressiva essa figura do som, né? Somos constantemente silenciadas na vida e mutadas na música. Mas não vão calar a nossa voz. Tem muita mulher produzindo seu próprio som de cabo a rabo, quer queiram ou não. Pasmem: mulher mexe em cabo, carrega caixa de som, mixa faixa, grava áudio. Mulher escreve, e escreve muito bem, e manda o próprio recado sem ajuda de ninguém, obrigada.

Julia Oliveira
  • Coordenadora de Estilo
  • Ilustradora

Julia Oliveira, atende por Juia, tem 22 anos e se mete em muitas coisas, mas não faz nada direito — o que tudo bem, porque ela só faz por prazer mesmo. Foi uma criança muito bem-sucedida e espera o mesmo para sua vida adulta: lançou o hit “Quem sabe” e o conto “A ursa bailarina”, grande sucesso entre familiares. Seu lema é “quanto pior, melhor”, frase que até consideraria tatuar se não tivesse dermatite atópica. Brincadeira, ela nunca faria essa tatuagem. Instagram: @ursabailarina

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