16 de julho de 2014 | Ano 1, Edição #4 | Texto: , and | Ilustração:
Nós temos tantos hermanos
Ilustração: Helena Zelic.

Ilustração: Helena Zelic.

Texto por Helena Zelic, Gabriella Beira e Beatriz Leite.

Existiu uma cantora e compositora chamada Violeta Parra. Ela dizia assim:
“Quando será esse quando,
senhor fiscal,
que a América seja
só um pilar.
(…)
Só um pilar, ah sim,
e uma bandeira,
que terminem os conflitos
nas fronteiras”
(tradução livre)

Violeta Parra nasceu e viveu no Chile e, como muitas outras pessoas de diversos países do nosso continente, ela acreditou e propagou o ideal de uma América Latina unida. Mas o que é América Latina e o que significa esse ideal de união?

Bem, como ensinam na escola, os países da América Latina são aqueles que passaram por colonização da Espanha (na maior parte dos casos), da França (no Caribe) e de Portugal (como aconteceu com o Brasil). Há muitos anos, aliás, séculos, os povos latino-americanos têm muitos motivos para se unir: seja contra os colonizadores e pela independência do continente, seja pela luta comum contra as ditaduras militares, muitas apoiadas pelos Estados Unidos, seja pela integração econômica e cultural; enfim, a lista de razões favoráveis à união de nossos povos é bastante grande. E, neste grande leque de motivos, existem em todos uma mesma raiz: unirmos para sermos mais fortes contra todas as opressões que marcaram nossa história e ainda estão presentes. Quer dizer, nós aqui da América Latina, como também outros países “periféricos” em relação a Europa e EUA (do Oriente Médio, por exemplo), pensamos em união para podermos ser quem somos independentemente das imposições dessas outras potências que há séculos querem nos definir para seu próprio favor.

Mas aqui no Brasil ainda é meio esquisito ouvir e entender que os argentinos, os uruguaios, os chilenos, os peruanos, os bolivianos etc., são nossos “hermanos” e talvez uma das principais dificuldades para compreender essa ideia é a diferença linguística que há entre nós: enquanto a maioria dos países da América Latina fala espanhol, nós falamos português. Além disso, por diversos motivos históricos, o Brasil acostumou-se a negar a identidade latino-americana, caminhando para uma aproximação com o chamado “Ocidente” (os países europeus desenvolvidos e, é claro, os EUA). Pelo grande desempenho econômico, o Brasil acaba sendo visto como país “modelo”, reproduzindo um certo grau de imperialismo econômico, o que também dificulta a criação de vínculos de solidariedade entre nós.

No entanto, se, por um lado, somos mais fortes economicamente, dentre os outros países daqui, por outro, somos vistos como países menores para o resto do mundo e para as outras potências. O Brasil, assim como os outros países da América Latina, tem um processo histórico marcado por:
colonialismo,
invasão europeia,
escravidão,
ditaduras militares,
pra não dizer mais um monte de outras coisas (também bastante sangrentas).

Ou seja: o Brasil, apesar de falar uma língua diferente, tem muito em comum com o Chile, a Argentina, o Uruguai, a Venezuela, o Peru… As ditaduras, por exemplo, aconteceram em períodos de tempo bem próximos, no século passado, e tiveram suas marcas em comum: elas tinham apoio (direto ou indireto) dos Estados Unidos, colocavam-se como uma ofensiva a governos de esquerda, perseguiam pessoas e calavam vozes. Poucos foram os países que conseguiram barrar essa ditadura: a Guatemala, o Paraguai, a Argentina, o Brasil, o Peru, o Uruguai, o Chile, a República Dominicana, a Nicarágua e a Bolívia sofreram uma repressão tremenda. A Violeta Parra é um exemplo de gente que lutava por um mundo mais justo, e suas canções foram entoadas por diversos outros artistas, como a Mercedes Sosa, argentina, o Victor Jara, chileno, e até por brasileiros, como Milton Nascimento, Gal Costa, Chico Buarque, Caetano Veloso e Elis Regina. Por outro lado, Cuba, por exemplo, em vez de ditadura militar, teve uma revolução. Outro processo se instaurou ali.

O mundo mudou desde os anos oitenta para cá. Outras políticas se estabeleceram, outros programas, outras formas de governar e outros governantes. Outras gerações nasceram. Mas, ainda assim, muitas lutas ainda continuam e outras demandas surgem, precisando ser conquistadas também.

Mais recentemente, o objetivo que une a América Latina é o desenvolvimento econômico e o combate à pobreza. Nos últimos anos, vimos um processo de ascensão de governos de esquerda, como a Dilma no Brasil e a Michelle Bachelet no Chile, acompanhado pelo que ficou conhecido como “Bolivarianismo”, movimento político de abertura democrática à participação direta dos cidadãos em conselhos deliberativos. Isso pode ser observado no Equador, na Bolívia e na Venezuela, onde, é importante ressaltar, a questão indígena está sendo cuidadosamente tratada. Além disso, cada vez mais surgem iniciativas de integração econômica, como o Mercosul, mas também integração política e social, como o caso da UNASUL. Em contraponto, projetos como a ALCA, que incluía México e Canadá mas favorecia muito mais os EUA foram rechaçados. Esta luta contra a ALCA, inclusive, foi marcada pela união de diversos povos, em diversos países.

Com o tempo podemos ver que toda a América Latina tem lutado para construir sua própria identidade e independência econômica. É uma luta longa e árdua porque estamos indo contra resquícios de séculos de opressão, estamos indo contra a ideia que até hoje existe de que somos “piores” ou “menos desenvolvidos”. Mas a gente sabe que não é pior que ninguém, não somos selvagens e nosso processo de “desenvolvimento” é outro, só isso. Ah, e esse processo é nosso! Não deles. O que quer dizer que nós, quando queremos falar se estamos bem ou mal, não devemos olhar pra fora e comparar, e sim olhar para nossa história e pro nosso povo e a partir daí tirar alguma conclusão. Não nos definimos a partir da Europa nem dos EUA, tentar fazer isso é inclusive injusto, além de ser uma reprodução e reflexo de toda essa história de imposições e opressões: espelharmos neles porque “eles é que são bons”.

Um exemplo dessa nossa resposta às imposições externas é o que aconteceu na Bolívia, recentemente: o McDonald’s faliu. Não tem mais McDonald’s na Bolívia! É estranho pensar que uma empresa desse tamanho possa falir, mas faliu. E sabe por quê? Porque simplesmente a Bolívia não tem nada a ver com hambúrguer de fast-food. A cultura boliviana tem uma outra relação com a comida. Os bolivianos não queriam McDonald’s, eles queriam a comida deles, que não deixa de ser a cultura deles. Quanto não há de decisão política em uma escolha cultural dessas? Bolívia 1 x 0 Estados Unidos!

Esse caso da Bolívia é uma demonstração de resistência da cultura nativa às pressões massificadoras vindas dos países mais influentes, como os EUA. É aí que está a ideia de união: unir-se também significa resistir e, principalmente, manter viva a cultura local que tanto tentam extirpar, pelos mais diversos motivos. A América Latina não é assim denominada por coincidência. As características que nos unem e os motivos que temos para colocar em prática essa união são incontáveis. Então, quando ouvirem por aí que os venezuelanos, os colombianos, os equatorianos e tantos outros são nossos “hermanos”, abrace a ideia, porque juntos somos sempre mais fortes!

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

Beatriz H. M. Leite
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Beatriz H. M. Leite, 21, é paulistana e mora em Buenos Aires. Além de cartas não enviadas, coleciona cartões-postais e histórias dignas de novela mexicana.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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