4 de maio de 2018 | Ano 4, Sociedade | Texto: | Ilustração: Amanda Daphne
Nossas cidades têm passados (e presentes) negros
favela

Cidades são dinâmicas, jamais param de se transformar. Todos os dias um muro é construído, uma árvore sai de cena ou uma fachada é pintada. Além disso, a cidade não é a mesma para todos os seus habitantes. Cada ser humano que vive em um município o conhece de um jeito diferente, as experiências e vivências tornam os lugares únicos para cada um. A minha São Paulo, com certeza, é diferente da São Paulo dos seus outros 12 milhões de cidadãos.

Essa dinamicidade não é atual nem reservada para as grandes cidades. Qualquer aglomerado de pessoas terá esse aspecto e, justamente por esse motivo, as memórias de uma cidade são algo difícil de se preservar. Apesar disso, sempre existirão algumas histórias compartilhadas oralmente sobre certos bairros e regiões, o que também faz parte da construção de uma cidade.

Existe aquele bairro que surgiu por causa de um grande produtor de café, açúcar ou milho, aquele outro que apareceu quando uma indústria europeia chegou no Brasil e construiu uma pequena vila operária, ou ainda um formado por imigrantes alemãs, italianos ou japoneses chegados durante ou após as duas Guerras Mundiais. Porém, você já ouviu falar de algum bairro da sua cidade que começou com a população negra após a abolição da escravidão (ou mesmo antes dela)? Não? Mas não existiam negros por aí durante a época das grandes fazendas, da indústria estrangeira ou das Guerras Mundiais?

Provavelmente existiam, mas você não ouviu falar de bairros iniciados por negros e negras porque essa parte da história precisou ser apagada, infelizmente. Isso faz parte da tentativa de embranquecimento da população brasileira e de esquecimento do período mais sombrio da nossa história. Esse apagamento da história preta faz com que muitas vezes negros e negras não se sintam pertencentes a suas cidades, mesmo que seus bisavós, avós e pais tenham construído esses municípios tanto quanto operários europeus e camponeses orientais.

Falando especificamente de São Paulo, os bairros nos quais isso fica mais evidente são o Bixiga e a Liberdade. O primeiro fica bem próximo ao centro da cidade e hoje é conhecido pelos descendentes de imigrantes italianos que ali habitam, além das festas e inúmeros restaurantes de comida típica de várias regiões da Itália existentes por lá. Contudo, quase ninguém sabe que anteriormente esse bairro era chamado de Saracura, uma parte de várzea de um córrego com o mesmo nome, que frequentemente transbordava e gerava alagamentos. No século 19, existiam tantos negros naquela área que o bairro era chamado de “Pequena África”. Já o bairro da Liberdade, atualmente conhecido pela forte cultura oriental em suas ruas e pelos restaurantes japoneses, foi uma grande zona de tortura e cemitério de escravos. E foipor serem regiões com terrenos de baixo custo que, posteriormente, os imigrantes europeus e orientais se alojaram por lá, sendo os cortiços comuns nesses bairros.

O preconceito e a especulação imobiliária após o desenvolvimento de maior infraestrutura nestas regiões afastou as famílias negras destes espaços centrais, o que as levaram a ocupar as zonas periféricas da cidade*, já que a percepção social sobre a população negra não foi modificada, diferentemente do que ocorreu com os imigrantes europeus e orientais, de modo que nunca teve as mesmas oportunidades de exercer funções melhores remuneradas.

Atualmente os bairros com a maior população negra da capital paulistana ficam no extremo de suas zonas leste e sul ou nas pequenas cidades ao redor do município, que formam a chamada zona metropolitana e costumam ser cidades dormitórios**. Essa situação não é exclusiva de São Paulo, acontecendo também no Rio de Janeiro, em Brasília e em várias outras cidades do país. É claro que nas periferias ou nas cidades dormitórios moram brancos, mas o fato de existir uma maioria negra nessas localidades não é coincidência.

Desta forma, ao falarmos de esquecimento de bairros negros, podemos falar sob duas perspectivas: o apagamento de negros da construção histórica de bairros tradicionais das mais diversas cidades do Brasil ou da falta de infraestrutura e da aparente falta de memória de alguns governantes quanto a serviços básicos, como saneamento, educação e saúde, nas periferias. Em ambos os casos, o direito de negros e negras em participar ativamente de suas cidades e terem orgulho delas é podado.

Portanto, relembrar as histórias dos bairros construídos por negros em nossas cidades, reconhecendo a importância de pretos e pretas na urbanização e produção de espaços, é uma forma de resistir à lógica racista e dar força aos movimentos que lutam pelo direito de ocupação da cidade por todos os seus cidadãos e reivindicam que os “novos bairros negros” sejam parte integral dos planos das cidades, de forma que não seja negada a eles a infraestrutura e o direito à moradia digna.

 

(Fica aqui a sugestão para que todo mundo procure as histórias de bairros negros das suas cidades. Adoraria ler sobre eles nos comentários deste texto.)

*Esse processo é chamado de gentrificação, ou seja, quando projetos de melhoria na infraestrutura dos locais faz com que o preço dos imóveis suba e a população mais pobre da região precise mudar de residência.

**Cidades dormitórios são aquelas: cidades em que grande parte dos moradores trabalham ou estudam em um município vizinho próximo, conhecido como “cidade-núcleo”, e que possui uma melhor qualidade de vida e oportunidades.

Ester Borges
  • Colaboradora de Educação

Desde 1997, Ester anda pelo mundo e o experimenta de forma curiosa. Talvez seja por isso que estuda relações internacionais na USP e tenta se convencer que é uma pesquisadora. Frequentemente considerada otimista, ainda não tem grandes conquistas, porém acredita que descobrirá entre o amor ao próximo e a militância política algo que fará a humanidade se relacionar melhor. Provável que já tenha lido ficção demais.

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