25 de outubro de 2014 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração:
As nossas primeiras vezes
Ilustração da Mariana Paraizo

Quase tudo quanto é filme, série e livro para adolescentes fala de primeiras vezes – especialmente primeiras vezes românticas e sexuais. Afinal, muitas dessas primeiras vezes acontecem nessa época da vida. No entanto, essas narrativas em geral nos ensinam que tem um primeiro beijo perfeito, uma primeira transa perfeita, e que, se não for perfeito, tua vida inteira vai ser definida por esse fato. Mas posso te contar um segredo? Primeiros beijos e primeiras transas são sempre diferentes pra todo mundo. Podem ser bons, ruins, ou meio mais ou menos; podem ser com uma pessoa que você ama muito ou com uma pessoa meio aleatória que você quis pegar; podem ser quando você é mais nova ou mais velha; podem ser com caras, garotas ou pessoas que não se identificam com nenhum desses dois gêneros. E, pra provar isso, algumas colaboradoras aqui da revista (que preferiram ficar anônimas pra não expor as outras pessoas envolvidas) contaram suas experiências:

 

1. Eu tinha medo de beijo de língua. É o medo de iniciante, eu sei, porque língua não machuca nem nada. Eu sempre tive medo do novo, e perder o LV (beijo de língua virgem) era algo que me deixava amedrontada. Eu dei um selinho num garoto aleatório e resolvi ficar do meu jeito (selinho) com o amigo do meu irmão, que também era BV (boca virgem) e era mais novo que eu. Fiquei umas duas vezes, mas do meu jeito (selinho, porque não machuca). Um dos garotos da minha sala viu o modo como eu beijava (que era selinho), disse que não era beijo de verdade e, numa tarde saudável, se juntou em mim e no menino para nos ensinar a beijar. Foi de certa maneira humilhante para mim e para o menino. Não soube lidar com isso e acabei jogando a culpa que estava em mim no pobre garoto, espalhando para a escola inteira que ele beijava mal. Mas também beijava, oras, não sabia como era para fazer. Graças ao tempo, tudo passou e o menino hoje é um dos meus melhores amigos.

Assim como quando eu tinha 12 possuía medo de língua, com 19, eu tinha medo de pênis. Mas, ao contrário do beijo de língua, que é algo natural e de encaixe, o sexo é algo muito sério. Eu tinha um namorado, 6 anos mais velho que eu, que foi bastante abusivo comigo (não vou entrar em detalhes). Com alguma pressão, um dia resolvi ir na cara e na coragem com o pensamento que queria transar. Não foi bom, doeu, e não foi nada prazeroso para mim. Tentamos mais algumas vezes, por pressão dele, e foi o suficiente por achar que todo sexo seria ruim e dolorido como aquele. Claro que (bem) depois achei outra pessoa que mostrou que sexo pode ser bom e super prazeroso. E assim descobri que a virgindade, para quem tem vagina, por algo físico mesmo, tem que ser feito devagar. Como ainda temos o hímen, ainda está tudo fechado, tudo deve ser feito com muita calma. Infelizmente, a maioria não sabe disso.

2. Meu primeiro beijo foi esquisito igual são todos os primeiros beijos, eu acho. Eu tinha 14 anos e eu era novinha, mas todas as minhas amigas mais próximas já tinham beijado já fazia um tempo. Hoje eu vejo que não tinha razão de eu neurar com não ter beijado ainda, mas, na época, isso realmente parecia o fim do mundo! Tinha um menino super bonitinho que sempre estava com os amigos nos lugares em que eu e as minhas amigas estávamos, porque uma delas estava ficando com um amigo dele. E aí eu resolvi que queria beijar ele e uma das minhas amigas investigou – como é bom ter amigas que façam o trabalho sujo por você! – e descobriu que ele também queria ficar comigo. Pronto. Boom. Eu ia ter meu primeiro beijo com um menino bonito e fofo e era tudo que eu queria! Pelo menos comigo, na época, tudo era super arranjadinho. Tinha hora e data e lugar marcado para a gente ficar. Tudo marcado pelos nossos amigos, é claro. Eu ia beijar ele na quadra do prédio dele num dia em que eu tinha uma festa de 15 anos. A gente ia se encontrar comigo já praticamente pronta pra ir para a festa e de lá eu ia sair direto. Ok. Tudo preparado. Estava mais nervosa que sei lá o quê. Cheguei lá e –adivinha! – ele não quis ficar comigo!!! Ele estava trocando mensagens com uma outra menina e me deu o maior gelo! Ainda bem que minhas amigas estavam por perto, teria sido muito mais constrangedor se só estivéssemos nós dois. Fiquei com muita raiva porque, poxa, eu tava tããão perto! Aí eu saí pra ir pra festa, um menino que era da minha escola estava dando em cima de mim e aí eu fiquei com ele e nunca mais vi o menino que eu ia beijar antes. Isso é que é plot twist. A experiência foi péssima, eu tava morrendo de vergonha, dei um beijo nele e odiei e não queria mais beijar ninguém nunca mais na vida. Claro que isso passou depois. E o pior: o cara era super mala! Depois que eu beijei ele, a gente voltou para o salão onde estava tendo o jantar da festa para encontrar nossos amigos em comum e, a cada palavra que ele falava, eu pensava “gente… por que eu beijei esse cara por que por que por que”. Mas não me arrependi, viu? Hoje eu tenho carinho por esse dia! Só não precisava ter me pressionado tanto pra beijar logo, não teria problema nenhum esperar mais algum tempo.

Minha primeira transa foi diferente. Foi com meu namorado. Eu também estava muito nervosa, claro! Eu nunca tinha visto um cara totalmente sem roupa antes na minha frente, hahaha! Eu tinha 17 anos. Se você me perguntar se eu gostei de sexo de primeira, vou ter que te falar que não. Eu gostei mais da ideia de “cara, eu já tenho uma vida sexual ativa!!! cara, eu tô prestes a transar nesse momento!!” do que do ato em si. Acho que porque as primeiras vezes me deixaram muito nervosa. É uma sensação de super vulnerabilidade, sabe? Mas, depois de algumas tentativas, eu consegui relaxar e hoje consigo aproveitar muito! Outro problema é que, até então, eu era super travada, tinha MUITA vergonha de falar sobre sexo, até falar a palavra “sexo” eu não conseguia sem tremer e ficar vermelha. E daí pra mim era impossível me sentir confortável no sexo pra fazer o que eu queria e falar o que eu queria. Mas fui me soltando, e conhecer o feminismo me ajudou muito. Percebi que não tinha nada a ver ficar me julgando, e que gostar ou não gostar de algo no sexo e falar ou não falar sobre isso não me define como pessoa!

3. Meu primeiro beijo foi resultado da ansiedade de finalmente beijar alguém. Tinha 16 anos. Foi com um cara oito anos mais velho do que eu, do tipo predador de meninas colegiais. Ele era um pouco fedido, o que na época eu considerava parte da personalidade selvagem dele, mas hoje percebo que era falta de higiene pessoal. Fomos para os fundos de uma livraria e ele me beijou com um pouco de agressividade, passando a mão por lugares que eu ainda não estava pronta para ser tocada.  Em algum momento, o chiclete que eu havia mascado com medo de mau hálito escapou da minha boca e grudou na barba dele. Assim acabamos o beijo, para meu alivio e para o desespero dele.

4. Eu não lembro ao certo quantos anos eu tinha, era entre 14 e 15, ela tinha 16. A primeira vez que a gente se beijou (que não foi meu primeiro beijo da vida, mas foi meu primeiro beijo com uma garota) eu me senti como se tivesse virado ”um homem” – mas, parando pra pensar, hoje em dia devia ser algo mais como ser ”adulta” ou “madura”; anos depois, quando eu li Dom Casmurro, identifiquei essa sensação com a reação do Bentinho quando beijou a Capitu pela primeira vez, enfim, até hoje é uma sensação que não consigo pôr em palavras direito. Transamos no mesmo dia do nosso primeiro beijo. Foi durante uma tarde quente de julho enquanto ela estava sozinha em casa. Ela morava naquela cidade do interior e eu morava na praia. Nos conhecemos uns anos antes, brincando na rua juntas, viramos amigas e uns anos depois ela veio a ser minha primeira transa. Ela não era virgem, mas também nunca tinha transado com uma garota. Tudo aconteceu num ritmo bem natural e foi tudo muito sincero e, como ambas conhecíamos bem nossos próprios corpos (considerando a idade que tínhamos), o orgasmo foi recíproco. Em nenhum momento eu pensei que era errado ou que eu deveria esconder – ela muito menos. Obviamente, eu não contei à minha família, porque eles são muito preconceituosos, mas, desde que me entendo por gente, me sinto atraída por mulheres tanto quanto por homens, e isso pra mim é – e sempre foi – muito natural. Apesar de, durante a infância, ver muitos discursos condenando quem fica com pessoas do mesmo sexo (principalmente por parte da família), nunca tive dúvida de que, pelo menos pra mim, sempre foi o certo: não me sentir mal pelo que eles condenavam, o importante é o que eu sinto.

5. Às vésperas do meu aniversário de 14 anos, eu era apaixonadinha por um amigo meu – para vocês entenderem o nível da paixão, hoje em dia eu nem lembro mais quem era, porque eu fui apaixonadinha platonicamente por praticamente todos meus amigos. Mas, como era de se esperar, o tal amigo (quem quer que ele fosse) não queria nada comigo. Tudo bem, acontece. A surpresa é que, por outro lado, o garoto novo do colégio, que era alto e de cabelo comprido e tinha jeito de bad boy cafajeste, estava sim interessado em mim, e mostrando esse interesse com bastante insistência. Eu, apaixonadinha pelo tal amigo e, confesso, meio morrendo de medo do possível envolvimento com o tal cafajeste, dava fora atrás de fora. Hoje em dia, lembro como se isso tivesse durado meses, mas, pensando bem, provavelmente foi um flerte de, no máximo, uma semana – tempo de adolescência passa em outro ritmo, eu acho. Ainda apaixonada pelo tal amigo, e dando foras no cafajeste de cabelo comprido, viajei para comemorar meu aniversário com o grupinho de colégio (incluindo os dois garotos em questão). No primeiro dia de viagem, estava sentada do lado de fora da casa pensando na vida quando o cafajeste de cabelo comprido sentou do meu lado, puxou um papo, e me beijou. Na hora, reclamei, porque ele tinha me pegado despreparada, e agora tinha passado meu primeiro beijo, e eu não estava preparada! E, bem, eu não me dou lá tão bem com surpresas. Mas logo, logo, ficou tudo bem: à noite, nos beijamos mais. No dia seguinte, mais ainda. Acabou que ele foi meu primeiro namorado, um relacionamento intenso e dramático que durou aproximadamente um mês – falei, tempo de adolescente passa em outro ritmo –, e que me ensinou que eu gostava de beijar pessoas, especialmente cafajestes de cabelo comprido.

 Corta para o cafajeste de cabelo comprido seguinte, no ano seguinte, depois do meu aniversário de 15 anos. Era meu novo namorado – com o qual acabei ficando por anos –, e foi com quem tive minha primeira transa. Apesar do nosso relacionamento não ter sido nem perto de um mar de rosas, essa primeira vez foi tranquila. Fomos chegando nela aos poucos; quando rolou, estávamos ambos com vontade, perdidamente apaixonados (de verdade, não tipo minha paixão pelo amigo do primeiro parágrafo), e confortáveis um com o outro. O sexo em si foi meio mais ou menos – afinal, nenhum de nós sabia exatamente o que fazer ali –, mas, como já tínhamos feito “everything but (ou seja, tudo que podíamos fazer sem que eu “perdesse a virgindade” no sentido mais tradicional da coisa) não foi um empecilho tão grande. Depois, conversamos a noite toda, tentamos de novo no dia seguinte, e no seguinte e, bem, esse relacionamento foi intenso e dramático e durou aproximadamente seis anos, mas pelo menos me ensinou que eu também gostava de transar com pessoas (não necessariamente cafajestes de cabelo comprido).

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

  • renata

    A ideia da matéria foi fantástica, adorei! Ah e eu queria aproveitar pra compartilhar aqui a minha primeira vez porque ela aborda uma outra questão e acho que pode ajudar as meninas que estiverem na mesma situação em que eu estava.
    Bom, desde pequena eu era muito chateada com o meu clítoris, porque ele não era escondidinho como o das meninas e mulheres que eu conhecia. Isso começou quando duas amigas viram e o chamaram de “estranho”. Ele é consideravelmente grande e isso me deixou sempre muito insegura. Quando eu fiz 16 anos, fui ao ginecologista ver se tinha como arrumar aquilo e deixar de acordo com o ideal de beleza, o qual é violentamente empurrado a todas as mulheres. Ele me disse que não tinha como operar aquela região porque ia colocar em risco o meu próprio prazer. Também disse para eu não me preocupar, já que o tamanho era completamente normal e ela já tinha visto vários outros muito maiores, também normais. Mas isso não ajudou muito. Eu chorava , me envergonhava, achava que nunca ia ter a coragem de transar.
    Felizmente, aconteceu. Eu estava no apartamento de uma menina da minha faculdade, nós já tinhamos ficado algumas vezes, mas não era nada sério ou promissor. O sexo em si não foi nem perto de bom, admito, eu nem sabia como fazer oral numa menina direito. Ainda assim, foi uma primeira vez incrível porque me deu mais confiança. Eu devia ter confiado mais no meu médico, mas acabei ouvindo a conhecida inimiga “ditadura da beleza”.Vaginas são diferentes, não existe um modelo certo.
    Desculpa pelo texto longo e escrito na pressa!

  • jullyana

    Oii gente mim da uma dica pois tenho vergonha de flr sobre isso com minha mae eu tenho 13 anos meu namorado tem 17 ele quer tira minha virgindade mas to com medo muito medo o q faço

    • http://www.revistacapitolina.com.br/ Revista Capitolina

      Jullyana,

      se você está com medo e não se sente pronta ou confortável para isso, diga para seu namorado que não vai rolar agora. É importante que tanto você quanto ele respeitem seus limites.

      Também recomendamos que você converse com alguém próximo e de confiança sobre esses assuntos, é sempre bom! E, caso o medo seja mais dúvida do que qualquer outra coisa, dê uma lida no nosso outro texto sobre o assunto, em que respondemos algumas perguntas comuns sobre a virgindade: http://www.revistacapitolina.com.br/tudo-sobre-virgindade/ .

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos