6 de novembro de 2014 | Artes, Literatura | Texto: , , and | Ilustração:
Nossos livros favoritos da adolescência
Ilustração de Isadora M.

Ilustração de Isadora M.

 

Romances policiais – (Mazô) caiopano

Uma vez eu achei um livro na minha estante de livros que não fui eu que coloquei ali. Era um livro chamado “Cai o Pano”, de capa meio avermelhada com uma silhueta de um corpo em branco. Era bem velho, do tipo com páginas amareladas. Averiguando a situação, descobri que pertencera a minha mãe quando ela era nova. Foi nesse clima que mistério que eu conheci os romances policiais. A partir dali, de Poirot para Sherlock foi um pulo. Li a coleção completa, na verdade não sei até hoje se li mesmo, mas li todos os que estavam disponíveis na biblioteca da minha escola. Eu ia dormir super tarde em dia de semana porque precisava descobrir o que acontecia no livro e naquele tempo eu não era viciada em internet. Lembro muito bem de ter lido um dos livros em que o Sherlock se envolvia num caso de maçonaria – isso me deixava louca, a maçonaria a coisa mais curiosa que existia para uma garota de 13 anos, certo? Secreta, só para homens, envolvendo política, dinheiro, crimes, rituais? Hoje em dia eu vejo o quanto essa obsessão – por Sherlock e pela maçonaria – só revelava a minha vontade e frustração de entrar para um círculo onde eu fosse alguém relevante, na minha impossibilidade por ser apenas uma garota de 13 anos sem ter desvendado nenhum caso misterioso. O que eu penso? Prefiro ser uma garota de 13 anos sem ter desvendado nenhum caso misterioso do que ser um machista brincando de “assuntos importantes demais para dividir com garotinhas”. Mas os livros são legais e estimularam meu gosto por leitura, então eu perdoo. Caso resolvido.

 

livro-carlos-drummondAntologia poética (aka: aquele da capa verde), Carlos Drummond de Andrade (Clara Browne)

Este livro tem duas histórias, a emocional e a intelectual, e por isso que o escolhi dentre tantos livros tão queridos.

Eu o ganhei no meu aniversário de treze ou catorze anos, do meu melhor amigo o qual, é claro, era minha paixão “escondida” na época. Durante nossa amizade e proto-amor estranho (não é o momento para contar essa história), brigamos e fizemos as pazes muitas vezes. Mais do que o esperado, talvez. E todas as vezes em que isso aconteceu, de alguma forma, essa antologia poética do Drummond estava envolvida. A história de nós dois foi uma das histórias que me fez crescer muito e parte dela está contada nesse livro cheio de dobras, grifos e palavras – minhas, de meu amigo e de Drummond – e, por isso, ele é tão importante para minha história emocional.

A outra história é a intelectual, que remete à minha pessoa sentada na última carteira da sala de aula tendo terminado a prova de português em exatos dez minutos. Eu estava no nono ano e o professor daquela matéria era, sem dúvidas, o meu preferido. Eu perguntei a ele se podia ler enquanto a saída não estava liberada e, depois de uma aposta do quanto eu ia tirar na prova, ele me deixou ler e indicou um poema chamado “A morte do leiteiro”. Até hoje acredito que é a imagem poética mais bonita que já vi. E, por causa disso, me enfiei tão afundo neste livro, neste poeta, que minha admiração por sua poesia só aumentava. Ele parecia sempre saber o que falar. Em todas as fases da minha vida ele estava ali se mostrando cúmplice, ao mesmo tempo que sorrateiramente cruel comigo. Ele também se sentia deslocado, também não aceitava a crueldade do sistema em que vivemos, também se questionava sobre tudo. E suas palavras, construídas sempre impecavelmente, aos poucos me fizeram crescer. Comecei a entende-las melhor, a vê-las de outra maneira. Grifei milhões de versos, selecionei estrofes inteiras, anotei minhas análises (algumas feitas sozinha, outras feitas em aula). Aprendi seus truques, reconheci referências e, pouco a pouco, este livro foi me conduzindo para o caminho da poesia. A ponto de hoje saber que nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Não encontrei foto minha com a Meg Cabot, mas nessa foto estou segurando o livro autografado!

Não encontrei foto minha com a Meg Cabot, mas nessa foto estou segurando o livro autografado!

O diário da princesa, Meg Cabot (Rebecca Raia)

Talvez O diário da princesa tenha feito parte da infância de muitas meninas dos anos 1990. O livro, que faz parte de uma série, que depois foi transformado em filme, conta a história de uma adolescente comum, Mia Thermopolis, de Nova Iorque que descobre ser princesa de um pequeno reinado Europeu.

Tinha 10 anos quando o livro foi lançado e li e reli toda a série mil vezes. Eu amava o escapismo de viver no mundo de Mia, que tinha problemas, sim – ia mal em algebra, era apaixonada pelo irmão da melhor amiga, sofria bullying – mas ela era princesa! Tinha impressão que todos problemas seriam amenizados com essa condição. Por isso, lia e relia para escapar e viver no mundo de Mia Thermopolis.

O ultimo livro da série foi publicado durante meu ultimo semestre do colegial. Até hoje não li. Tenho um apego com a série e tenho a impressão que quando eu terminar o ultimo livro, os sentimentos de conforto que senti durante esses anos que escapei para o mundo da princesa vão acabar por ali. Quando a autora da série, Meg Cabot, veio para o Brasil, passei horas na fila para tirar uma foto com ela e receber um autográfo. Contei desse sentimento para ela e ela me confortou dizendo que eu sempre seria um princesa. <3

Harriet_the_Spy_(book)_coverHarriet The Spy (A Pequena Espiã), Louise Fitzhugh (Isadora Marília)

Harrier The Spy é um livro que eu poderia sem dúvida ler e reler sempre. A primeira vez que tive contato com a história foi através do filme de mesmo nome, e simplesmente me apaixonei com as personagens do mundo de Harriet. Tempos depois procurei saber mais sobre a história e descobri que era baseada em um livro, que infelizmente não consegui comprar em português na época. Escrito por Louise Fitzhugh em 1964, o livro conta sobre a vida de Harriet, uma menina de 11 anos cujo maior sonho é tornar-se uma escritora e espiã. Seguindo os conselhos de sua “babá”, Harriet começa a escrever em cadernos sobre tudo o que observa – desde seus vizinhos aos seus colegas de sala – criando uma espécie de diário com seus mais estranhos pensamentos e opiniões sobre a vida alheia. Além de suas rotas de espionagem, que incluem invasões à casas e outros lugares, ela também se diverte com seus dois amigos, Sport e Janie, e sua babá e companheira de todas as horas, Ole Golly. O livro tem uma reviravolta muito grande quando o caderno de Harriet é descoberto pelas pessoas de sua sala; sua babá é despedida (porque Harriet já está “velha demais” para ter uma babá e pode cuidar de si sozinha); seus amigos voltam-se contra ela, além de vários outros acontecimentos. O que mais me encanta na história é a maneira como o livro se encerra, como Harriet se expressa e se desculpa com o mundo por suas críticas, e como cada personagem se encaixa tão bem naquele universo, e como somos eternos observadores. É um grande ensinamento sobre tolerância e o mundo real que existe lá fora, e como é importante lutarmos para realizarmos os nossos desejos. E que, uma boa espiã nunca é pega.

capitaes-areia-capaCapitães da Areia,  Jorge Amado (Helena Zelic)

Li Capitães da Areia com treze anos, a pedido de um professor de Português da Oitava Série. O livro era bonito, uma edição nova com fotos de capoeristas e tecido de chita. Eu já tinha o costume de ler, mas aquela história eu especialmente devorei em muito pouco tempo. Foi uma leitura sincera e singela, cheia de sensações e sentimentos.

Logo fiquei amiga dos moleques do trapiche abandonado, principalmente o João Grande, tão desengonçado e bonzinho. Senti orgulho da coragem de Dora, menina entre tantos garotos. Soube colocar os reflexos evidentes do autor esquerdistas (declaradamente comunista) à época, o que tornou a leitura ainda mais emocionante. Ah, e óbvio, com treze anos, quem não se apaixonaria por Pedro Bala?

Rebecca Raia
  • Coordenadora de Artes
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora Editorial

Rebecca Raia é uma das co-fundadoras da Revista Capitolina. Seu emprego dos sonhos seria viajar o mundo visitando todos museus possíveis e escrevendo a respeito. Ela gosta de séries de TV feita para adolescentes e de aconselhar desconhecidos sobre questões afetivas.

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

Isadora M.
  • Coordenadora de Ilustração
  • Colaboradora de Artes
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora

Isadora Maríllia, 1992. Entre suas paixões estão: Cookie Monster, doces, histórias de espiãs (como Harriet The Spy e Veronica Mars), gatos e glitter. No entanto, detesta bombom de abacaxi e frutas cristalizadas.

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

  • flavia lucena

    Rebecca, lê sim o último do diário da princesa! Eu gostei bastante quando li (faz um tempo, li quando lançou) e eu lembro de ser um final bastante satisfatório. Além do quê, eitaa! http://www.megcabot.com/2014/05/new-2015-meg-cabot/ SIMM, O DIÁRIO DA PRINCESA XI E SE CHAMA ROYAL WEDDING! Dessa vez direcionado ao público adulto! Estou apreensiva e curiosa! (Tem também uma história de uma série com uma irmã perdida da mia que vai estar no ensino fundamental, escrito pra essa faixa etária mas achei bizarríssimo ;x)

    • http://metrophones.tumblr.com/ Rebecca Raia

      Estou querendo ler, sim! Mas é tão emocional… queria ter a série para sempre! Tô pensando se devo reler tudo antes de ler o X! Obrigada pela dica e boa noticia!

  • http://luverona.blogspot.com.br Luiza Verona

    Gente, tem um livro que li no começo de minha adolescência e após ele me apaixonei pela leitura, só que não consigo lembrar o nome!! Será que vocês conhecem? Conta a história de um adolescente (se não estou enganada, chama-se Pedro) que logo no começo é assaltado por outros garotos que levam seu tênis. Ele passa por conflitos ao longo da história típicos desta fase. Lembro-me que ele faz amizades com um grupo que toca rock e depois com um que toca rap. No final ele leva um tiro e reaproxima ele do pai. Se alguém já leu ou suspeita por favor me digam o nome!!!!

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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