29 de novembro de 2014 | Relacionamentos & Sexo | Texto: , , e | Ilustração: Isadora M.
Nossos relacionamentos (não românticos) favoritos da ficção
Ilustração da Isadora Marília

Texto da Rebecca Raia, da Sofia Soter, da Brena O’Dwyer e da Beatriz Trevisan.

Falamos muito sobre nossos relacionamentos da vida real, mas para descontrair um pouco, pedimos para as colaboradoras da nossa coluna falarem sobre seus relacionamentos (não românticos) favoritos na ficção. Leia nossa lista e depois conte pra gente nos comentários: quais são os relacionamentos mais legais da ficção pra você?

Rory Gilmore & Paris Geller, Gilmore Girls – Rebecca Raia

Na série Gilmore Girls, uma das protagonistas, Rory Gilmore, estuda muito em função de um sonho: estudar em Harvard, uma das melhores universidades do mundo que obviamente tem um processo seletivo muito competitivo. Por isso, Rory vai estudar em um dos melhores colégios – onde no primeiro dia de aula, conhece Paris Geller.

Paris Geller é uma força da natureza. Extremamente determinada em ser a melhor em tudo que faz (e ela tenta fazer tudo). Ela tem pais ricos e ausentes e foi criada por babas, enquanto Rory foi criada por sua mãe solteira de quem é melhor amiga. A chegada de Rory no colégio é uma ameaça ao seu reinado de aluna Número 1 e as duas, mesmo sendo pessoas tão diferentes, se tornam rivais imediatamente.

A rivalidade aprofunda o relacionamento das duas. Com frequência, elas são colocadas no mesmo grupo ou atividade justamente por serem as melhores e acabam convivendo bastante por isso. Mas os meus episódios favoritos são os que a Paris começa a se aproximar de Rory por motivos além da competição acadêmica. Elas se aproximam por motivos que muitas vezes são os motivos porque fazemos amizade com outras meninas: meninos. Paris não tem muita desenvoltura social e assim que tem oportunidade de sair com meninos, vai pedir ajuda para Rory – e são nessas cenas que vemos a amizade delas surgindo e depois é também por esses motivos elas acabam brigando.

Eventualmente, a amizade se desenvolve e as duas acabam até morando juntas durante a faculdade.  É uma relação ímpar e profunda, que raramente é explorada na ficção: a Rory nunca tenta prejudicar a Paris, mas a rivalidade entre elas a incentiva a alcançar seus objetivos. Existe conflito mas fica claro que na hora do aperto, Paris está ali para a Rory e Rory está ali para Paris.

Nós & a história, Metamorfose – Brena O’Dwyer

Minha relação de ficção favorita é a nossa com os personagens. Isso pode se aplicar a qualquer livro, mas vou explicar aqui a partir da Metamorfose do Kakfa porque acho que esse livro leva esse conceito ao extremo.

Pra quem nunca leu, o livro conta a história do dia que um jovem acorda e percebe que é um inseto gigante e como ele e sua família vai lidar com essa nova situação. É um livro grotesco com descrições bizarras de como é andar com diversas patas e gostar de comida estragada.

Não é uma leitura agradável, mas extremamente satisfatória porque nós somos os donos da história, nós damos significado e sentido praquela experiência, nós completamos o livro.

Gregor acorda um dia e percebe que se transformou num inseto gigante, então, ele tenta sair da cama porque percebe que está atrasado pro trabalho. Ele nunca pergunta como e porque aquilo aconteceu, quem faz essa pergunta somos nós os leitores. Nós fazemos as perguntas e nós respondemos.  O conteúdo, a metamorfose de Gregor, está lá, mas o significado não, este está na nossa leitura.

Além da nossa relação com o personagem e com o livro, posso destacar dois outros relacionamentos que aparecem: 1) nosso relacionamento com o nosso corpo em constante mudança; O que significa ter um corpo que muda? Onde pelos crescem onde não cresciam antes? Cabelos se tornam brancos? E 2) nosso relacionamento com nossa família; Gregor era o provedor na família dele. Sua transformação impossibilita que ele trabalhe, por isso, o pai dele precisa rejuvenescer e voltar a trabalhar, sua mãe não consegue lidar com a situação, sua irmã assume o papel de mãe. Qual nosso lugar na nossa família?

Blair Waldorf & Serena Van der Woodsen, Gossip Girl – Beatriz Trevisan

Você já assistiu à série Gossip Girl? Se não assistiu, devia. É uma história envolvente, cheia de reviravoltas, com foco em adolescentes de Nova York. Claro que é bastante distante da vida real, mas acho que é isso que torna ainda mais legal de assistir: dá pra se desligar totalmente do mundo e se distrair de verdade. Uma das coisas mais legais em Gossip Girl pra mim é o relacionamento entre a Blair e a Serena, protagonistas da trama. Até isso tem seu lado irreal: acho que se qualquer amiga minha tivesse feito metade do que uma fez pra outra na série, ela não seria mais minha amiga há muito tempo, hahaha. Mas a parte distante, para mim, acaba no exagero dos conflitos entre elas: a amizade tem todo um lado humano e palpável que eu acho lindo. São duas amigas que brigam sim, que têm momentos em que estão distantes e cheias uma da outra (me irritam aquelas amizades fictícias completamente irreais em que as amigas ficam grudadas 24 horas por dia e nunca, NUNCA cansam uma da outra), mas que também estarão presentes sempre que houver um momento difícil na vida de uma delas. Acho a amizade delas super bonita e romântica e por isso que o relacionamento delas é um dos meus favoritos da ficção. Tem toda essa questão do irreal versus real, que faz com que, ao mesmo tempo, seja fácil se envolver na história – por ter um lado fora da realidade: as roupas, os conflitos, as atividades e as brigas e reconciliações impossíveis –, assim como é fácil também se identificar com elas e querer abraçar minhas melhores amigas toda vez que eu vejo uma cena das duas.

Aria Montgomery, Emily Fields, Hannah Marin e Spencer Hastings, Pretty Little Liars – Sofia Soter

No começo do drama de suspense Pretty Little Liars, as quatro protagonistas estão afastadas depois do desaparecimento da quinta integrante do grupo de amigas. No entanto, o aparecimento de uma figura misteriosa determinada a persegui-las faz com que elas se juntem novamente, remendem a amizade, e se tornem o meu grupo de amigas favoritas na ficção. Conforme a série vai ficando mais dark e aterrorizante, verdades se revelam e outros segredos tomam seu lugar, e elas não podem confiar em mais ninguém – família, amigos, namorados, todos podem ser potenciais perigos ou traidores –, a não ser nelas próprias. As quatro têm personalidades diferentes, e vivências diferentes, mas elas se aceitam e se complementam e sempre buscam entender o lado da outra: Aria é interessada em literatura, envolvida em um relacionamento muito complicado com um professor, e com uma vida familiar bastante instável; Emily participa do time de natação, se assume lésbica apesar da resistência da família e tem uma tendência terrível a namorar garotas que acabam mortas; Hannah é uma garota popular que tenta se recuperar de um transtorno alimentar e de uma quase cleptomania; Spencer é obsessiva e perfeccionista em todas as áreas de sua vida, e enfrenta um problema com drogas. E, nesses processos complicados, somados ao estresse de estarem constantemente sob vigilância de uma figura secreta que tenta destruir a vida delas a cada passo, elas são o melhor apoio umas das outras.

Brena O'Dwyer
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Brena é uma jovem carioca de 22 anos que cada dia tem um pouco menos de certeza. Muda de opinião o tempo toda e falha miseravelmente na sua tentativa de dar sentido a si mesma e ao mundo em que vive. Gosta de ir ao cinema sozinha as quintas a noite e de ler vários livros ao mesmo tempo. Quase todas as segundas de sol pensa que preferia estar indo a praia, mas nunca vai aos domingos.

Beatriz Trevisan
  • Cofundadora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Música

Bia, 23 anos (mas todo mundo acha que ela tem 13), feminista interseccional e estudante do último ano de direito. Talvez queira seguir na área, mas seu sonho de verdade é ser cantora e escritora. Se bem que, se fosse possível, largava tudo isso e se tornava Mestre Pokémon pra ontem.

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

Rebecca Raia
  • Coordenadora de Artes
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora Editorial

Rebecca Raia é uma das co-fundadoras da Revista Capitolina. Seu emprego dos sonhos seria viajar o mundo visitando todos museus possíveis e escrevendo a respeito. Ela gosta de séries de TV feita para adolescentes e de aconselhar desconhecidos sobre questões afetivas.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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