13 de março de 2017 | Ano 3, Edição #31 | Texto: | Ilustração: Isadora Moreira
Novas tecnologias como formas de resistência

Quando penso em luta e resistência, a primeira coisa que vem à mente são pessoas protestando nas ruas, gritos de ordem, cartazes com símbolos de movimentos sociais e uma repetição dessas manifestações ao longo da história. Nesse especial sobre luta, falamos sobre diversas formas e indivíduos que lutaram para seguir seus ideais ou mudar situações de injustiça em suas realidades. Elas precisaram mobilizar muitas pessoas para trazer visibilidade à suas agendas e fazer com que estas últimas ganhassem escopo, avançando suas lutas. Todavia essas são apenas algumas das formas como podemos lutar.

Há quase duas décadas, vivemos uma revolução proporcionada pelo desenvolvimento de novas tecnologias como a internet que mudaram nosso ritmo, nossa forma de nos relacionarmos com outras pessoas, de obter informações e, até mesmo, de resistir. O clichê de que vivemos em um mundo mais veloz, menor e mais conectado é real e deve ser entendido como um poço de possibilidades para desenvolvermos oportunidades concretas de mudança e luta.

Uma das possibilidades que a internet proporciona é o “efeito-dominó”: quando uma mobilização começa em algum lugar do globo, ela é rapidamente captada por outros grupos e ganha mais escopo e, portanto, visibilidade. Um dos exemplos recentes desse fenômeno foi a “Women’s March” (Marcha das Mulheres) nos Estados Unidos, que teve adesão em países de todos os continentes (até na Antártica) e ocorreu em mais de 600 cidades pelo mundo. As marchas ocorreram no dia seguinte à posse de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, como resposta à sua eleição e ao retrocesso que ele representa para os direitos humanos em geral, e aos direitos das mulheres em específico. A marcha foi transmitida pelos principais canais de televisão do mundo como CNN e BBC e publicada em diversos jornais, o que trouxe uma conscientização massiva para além dos círculos feministas e de ativistas de direitos humanos.

Outra característica do ativismo digital é a capacidade de mobilização de pessoas de forma rápida e com poucos gastos. Diversos movimentos pelos direitos civis durante as décadas de 60 e 70 usavam materiais físicos visuais como cartazes e panfletos para difundir encontros, passeatas, manifestações e atos. Isso demandava não só a impressão dos próprios materiais, o que custava muito caro, mas também a distribuição física deles, implicando em uma exposição arriscada dos ativistas, já que poderia resultar em alguma violência contra eles. Com a internet, surgiram inúmeras ferramentas para superar esses desafios como a criação de eventos em mídias sociais, uso de hashtags para condensar temas e informação, o desenvolvimento de plataformas de discussão online e mesmo a legitimação de abaixo-assinados via assinaturas digitais. Canais como Change e Avaaz permitem que qualquer usuário da internet crie suas próprias petições; organizações não governamentais como Anistia Internacional e Greenpeace usam essa ferramenta e até mesmo atores do governo vêm implementando esse mecanismo para ganharem mais legitimidade nas propostas que desenvolvem nos respectivos órgãos públicos.

A internet também possibilita uma horizontalidade maior em lutas sociais, uma vez que todos as pessoas envolvidas podem ter uma voz naquele movimento ou iniciativa. Isso acontece porque a difusão de agendas e pautas é potencializada, aumentando a quantidade de líderes ou até mesmo eliminando a necessidade de apontarmos pessoas para esse papel. O espaço virtual transforma movimentos em redes, em que cada um é um nó e pode exercer papeis distintos – mais ou menos engajados – mas relevantes de toda forma. Imagine a participação como um espectro: você pode ser desde uma pessoa que observa aquele movimento e o conhece, até a pessoa que cria iniciativas e mobiliza outros a se juntarem a você. Por isso, a rede é tão importante para o avanço de pautas sociais: ela facilita a interação e permite diferentes tipos de engajamento, de acordo com sua possibilidade e vontade.

Por fim, é importante falar sobre o acesso à internet e como pode ser um fator inclusivo ou exclusivo, dependendo da região e circunstâncias. De acordo com a última pesquisa sobre acesso à tecnologias da informação em domicílios no Brasil de 2015, 58% dos brasileiros têm algum acesso à internet no país, o que representa mais 102 milhões de pessoas. Esse acesso é majoritariamente via smartphones, posto que são os dispositivos mais baratos para se ter acesso à internet. Esse número ainda não é ideal, mas vem crescendo consideravelmente na última década, mostrando a importância da democratização ao acesso à internet, o que, por consequência, aumenta o acesso à informação e às inúmeras oportunidades que essa tecnologia oferece.

Assim, novas tecnologias podem ser entendidas como facilitadoras de movimentos de resistência na era digital. Elas aumentam o acesso à informação, viabilizam uma horizontalidade e menor burocratização da participação, possibilitam rapidez e economia na mobilização de pessoas e o aumento do escopo de movimentos de luta. Elas não substituem as marchas, as manifestações, os cartazes ou os abaixo-assinados, mas, sim, se somam a essas estratégias, ressignificando nossa forma de lutar e resistir. Um clique pode ter muito poder!

Debora Albu
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão

Debora é mestra em Estudos de Gênero e é formada em Relações Internacionais. É carioca, apesar de ter passado uma temporada da vida em Paris e todo mundo a chamar de "francesinha" - por vezes acredita ser verdade. Faz parte da gestão da Agora Juntas, um rede de coletivos feministas no Rio de Janeiro. É ciberativista e feminista antes mesmo de entender o que essas palavras significam.

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