23 de março de 2015 | Edição #12 | Texto: | Ilustração: Clara Browne
O Alienista e o conceito de loucura
Ilustração: Clara Browne

[Este texto revela partes importantes do enredo do conto, mas mesmo assim você deveria ler O Alienista se ainda não o tiver feito!]

 

“As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas.”

É com essa frase que Machado de Assis começa O Alienista. O ilustríssimo Dr. Bacamarte é um daqueles personagens inquestionavelmente inteligentes. O autor até faz piada com esse estereótipo em alguns momentos do livro, inclusive no final, que não seria o mesmo se não houvesse uma grande piada envolvida em sua caracterização. Ainda assim, é necessário problematizar o fato de que personagens assim quase sempre são homens, como o Dr. House da série de mesmo nome ou o famoso detetive Sherlock Holmes, e quando são mulheres são consideradas estranhas e anormais, como a Dra. Temperance Bones da série Bones.

Um dia, ele resolve abrir uma casa de orates, ou, como conhecemos hoje em dia, um hospício, na cidadezinha de Itaguaí. Isso porque discordava completamente da maneira com que o governo da cidade tratava seus doentes psiquiátricos: eram sempre isolados em suas casas e não recebiam tratamento algum. A primeira reação dos moradores é de completa aversão, afinal que pessoa em sã consciência colocaria em um mesmo lugar todos os loucos da cidade? Ao longo da história as opiniões dos moradores a respeito do doutor mudam de acordo com as decisões que ele toma.

E é aí que entra a parte legal do conto (que alguns acreditam na verdade ser uma novela, mas como eu não entendo bem essa discussão vou falar que é um conto mesmo porque aparentemente também é uma designação válida). A história é, em resumo, uma crítica a como eram tratadas as doenças mentais e qual era seu conceito na época (O Alienista foi publicado em 1882, caso você esteja se perguntando). Logo nas primeiras páginas, o autor nos apresenta com uma discussão a respeito do conceito de loucura, coisa que o protagonista busca tentar entender, explicar e resolver; já que foi por isso mesmo que resolveu abrigar todos os seus pacientes.

Porém, ao longo do tempo, muda de opinião sobre quais pessoas admitir em sua instituição: em dado capítulo, confidencia a seu melhor amigo que “A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente”. Afirma, depois, que “A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia e só insânia”. Essa expansão inadvertida do conceito de loucura, na história, leva ao internamento de diversos personagens célebres de Itaguaí, mas na vida real ela não é nada além de prejudicial. Prejudica aqueles que merecem ser o foco da busca de paliativos e soluções, enquanto verdadeiramente doentes, e transforma em patologia comportamentos que não são nada além disso, comportamentos.

Na história, a crítica se dá pela caracterização de modéstia, generosidade, vaidade ou até mesmo o uso de hipérboles como loucura. Isso porque são traços considerados pela sociedade como indesejáveis ou incomuns, do mesmo jeito que se faz atualmente com, por exemplo, garotas que são assertivas e por isso tachadas de mandonas, etc, mas de uma maneira “oficial” porque quem disse isso foi um médico. Esse é, aliás, outro assunto criticado por Machado de Assis: só porque alguém importante proclama algo como verdade isso não quer dizer que está certo.

Em outro ponto da história, o Dr. Bacamarte percebe que a população de seu hospício está demasiado grande para que sua proposição acerca da loucura seja verdade. Ele resolve, então, dar alta a todos os seus pacientes e internar todos aqueles que inicialmente havia categorizado como sãos, ou seja, “se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades”. O tratamento dado pelo médico passa então a ser a tentativa de corromper todas as qualidades daqueles que não têm defeitos.

É claro que a incoerência entre as duas teorias que postula não passa despercebida por ele, e é isso que no final faz com que ele libere novamente todos os seus pacientes e passe a ser o único habitante da Casa Verde, nome dado ao seu estabelecimento: “Mas deveras estariam eles doidos, e foram curados por mim, -ou o que pareceu cura não foi mais do que a descoberta do perfeito desequilíbrio do cérebro?” A descoberta de que é considerado por todos os seus conhecidos como uma pessoa sem defeitos o leva a essa conclusão também.

No final das contas, O Alienista cumpre um papel muito importante de questionar os conceitos de normalidade e loucura, e fala muito bem a respeito da necessidade de se questionar sempre a autoridade científica e como ela se relaciona com a sociedade em si. Uma caracterização adequada dos conceitos que o conto aborda é importante para o bem-estar de pessoas que realmente necessitam de tratamentos médicos, tirando o estigma de doenças mentais e de modo geral facilitando o acesso à saúde para todos. E, além disso, é uma ótima leitura!

Todos os trechos citados foram tirados do texto disponibilizado no Domínio Público, um  site que disponibiliza gratuitamente importantes obras literárias do nosso país.

Beatriz Rodrigues
  • Colaboradora de Ciências
  • Colaboradora de Estilo
  • Colaboradora de Saúde

Bia Rodrigues ou só Bea tem 19 anos, é mineira, estudante de Farmácia e adora fatos inúteis. Se tivesse que comer só uma coisa pelo resto da vida, escolheria batata. Ainda não acredita que conheceu outras meninas da Capitolina. É 60% Corvinal e 40% Sonserina.

  • https://nyankkosensei.wordpress.com/ Julianatsume

    Eu simplesmente amo o Alienista! um dos meus contos favoritíssimos!Deu até vontade de ler de novo! E sim, devemos sempre lembrar que o saber médico não é algo imparcial, há ideologias e construções sociais envolvidas ao longo do tempo, não é um saber inquestionável. Lindo texto.

  • Carolina

    Um livro maravilhoso que questiona esses conceitos também de um jeito extremamente honesto e brutal – parafraseando a Angelina Jolie – é o Garota, Interrompida da Susanna Kaysen.

    Ótimo artigo, Beatriz 😉

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