18 de setembro de 2015 | Culinária & FVM | Texto: | Ilustração:
O alimento como símbolo de resistência cultural.

O ato de cozinhar, assim como abordamos na última edição, que foi sobre comida, pode ser tido pra nós mulheres uma forma de emancipação. Mas e quanto ao alimento que utilizamos durante esse ato revolucionário? O que dizer sobre ele? E qual a importância desse alimento na representatividade da cultura regional do nosso país?

Com a globalização, o hábito de cozinhar tem sido jogado de lado e aberto espaço para os fast-foods e comidas internacionais (pois é. Aquele hambúrguer do McDonald’s que, às vezes, usamos para substituir uma refeição), deixando os alimentos típicos da nossa cultura cada vez mais esquecidos. Tapioca, pamonha, acarajé, farinhas diversas, frutas regionais e até mesmo hábitos como dormir um pouco depois do almoço, ou tomar aquele cafezinho em seguida ao almoço têm se perdido na correria dos nossos dias. Mas quando conseguimos manter essa “chama” da tradição acesa? Bom, quando isso acontece, tudo se torna incrível.

Quando cozinhamos, além de estarmos exercendo uma ação gastronômica, estamos agindo também de forma cultural.  A escolha dos nossos alimentos diz muito a nosso respeito (não, não quer dizer que você está de dieta naquele momento pela linhaça que você escolheu comer ou não). Não, não é isso. O alimento que escolhemos exemplifica familiaridade, ancestralidade e cultura. Como, por exemplo, quando pessoas do nordeste do país migram para os grandes centros urbanos do sudeste e optam por utilizar ingredientes de sua terra. Isto é uma forma de resistência cultural.

Sabe aquele arroz branco simples que comemos quase sempre no almoço? Existem várias formas de prepará-lo. A maneira e ingredientes que escolhemos para fazê-lo diz muito sobre nossas origens. Pela comida somos capazes de descobrir a história de uma pessoa. Por exemplo, alguém vindo do Maranhão – o primeiro estado a cultivar o arroz trazido pelos europeus lá em 1745 – tem em sua culinária diversos pratos à base de arroz. Como o arroz de toucinho, de jaçanã, arroz de camarão e o mais famoso e delicioso de todos o arroz-de-cuxá.

Arroz-de-cuxá: Comida típica do Maranhão,  à base de arroz, vinagreira e demais temperos.

Arroz-de-cuxá: comida típica do Maranhão à base de arroz, vinagreira e demais temperos.

E quando optamos por comer um feijão diferente? Para pessoas de Minas Gerais é muito comum comer tutu à mineira, ou feijão-tropeiro ao invés daquele feijão preto – o carioca – que cozinhamos quase sem refletirmos sobre. Quando você está com alguém em um restaurante e essa pessoa prefere um tutu à mineira ao feijão, com certeza ela em algum momento da vida sofreu influência de um mineiro, ou então, o que é ainda mais legal, é uma pessoa que sabe valorizar uma cultura alimentar não convencional à sua criação.

Feijão-Tropeiro: Prato típico da culinária mineira.

Feijão-Tropeiro: prato típico da culinária mineira.

A ancestralidade de uma pessoa fica evidente quando encontramos, por exemplo, aquela avó da nossa amiga, que faz questão de farinha de mandioca, e quando perguntamos de onde ela é, ela nos conta sua história de vida e sua cidade de origem. Mesmo que essas mulheres do nosso dia a dia não tenham uma noção do que significam ancestralidade, regionalismo e tantos outros conceitos, e mesmo que não saibam o quão importante é a resistência do regionalismo na alimentação, elas contribuem todos os dias um pouquinho para não deixarem morrer a cultura do nosso país. Mesmo que o mundo cresça, mesmo que as cidades e pessoas se misturem, juntos podemos não só nos misturar, mas agregar valores, cultura e COMIDA a todos ao nosso redor.

Fabiana Pinto
  • Colaboradora de FVM & Culinária

Fabiana Pinto, negra e carioca. Graduanda em Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro em tempo integral e, escritora de suas percepções e experimentações do mundo em seu tempo livre.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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