14 de novembro de 2015 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Clara Browne
O arrependimento nos fez corcundas: um convite ao presente

Faz um tempo que venho reparando, nos seres humanos, uma insatisfação constante. A gente dificilmente parece estar inteiro, pleno, e isso faz muito peso em nossas costas. E tudo bem, “cada um sabe a cruz que carrega” e a vida nos dá certa carga pra levar mesmo, mas eu me pergunto: será que não temos andado com muito peso inútil? Já não é hora de darmos uma esvaziada pra seguirmos com mais leveza?

Ao que parece, a grande maioria de nós leva um peso em comum: arrependimento. É complicado, sim, mas sinto que precisamos refletir sobre isso porque parece que é o item mais pesado das nossas bagagens e, afinal, de que serve tudo isso? Não diria que sou 100% bem resolvida com os arrependimentos que tenho (aliás, acho que ninguém é) e poderia até escrever este texto só com perguntas porque não tenho muitas respostas, talvez quase nenhuma. Só sei que estou 200% certa sobre não dever andar olhando para trás.

Você deve ter aí, escondidinha lá no fundo, uma lembrança que te dá vontade de voltar atrás e fazer diferente. Talvez você sinta que perdeu os melhores anos da sua vida fazendo/vivendo algo que no final não valeu a pena. Já venho com a parte otimista do texto, mas quero fazer mais uma pergunta: esse sentimento, essa vontade de voltar atrás como se fosse um Ctrl+Z, acrescenta algo positivo à sua vida, à sua maneira de ver o mundo? Se sim, que ótimo, fico feliz por você reconhecer isto e que esteja tirando bom proveito das más experiências. Se não, outra pergunta: então pra que continuar carregando isso?

Ouço muita gente falando demais sobre todas as vivências ruins que tiveram, e ok falar delas porque isso ajuda a gente a superá-las. O problema é como a gente fala delas. Veja bem, não quero que paremos de conversar sobre tudo que nos aflige, a ideia não é varrer tudo pra debaixo do tapete: quero falar, mais exatamente, sobre varrer tudo pro lixo mesmo, mandar embora de casa pra, na próxima vez, tentar fazer menos sujeira. Traduzo: não adianta ficar se lamentando pelo que poderia ter sido diferente, porque não foi. Que não se pode fazer nada pra mudar o passado é meio óbvio, mas a gente não gosta e reluta muito pra acreditar nisso. Só o que você pode construir é o agora, e o que vier depois é consequência disso.

Então, eu gostaria de convidar todos a refletir com sabedoria, sem pesar, sem alimentar mágoa. A única possibilidade a ser considerada aqui é aprender com o que vivemos e reconhecer que, independentemente de ter sido bom ou mau, vai continuar fazendo parte de nós. Por isso, acho fundamental que sempre tentemos tirar algo de bom das coisas ruins. E se essas coisas ainda não nos trouxeram nada de bom, nunca é tarde pra recomeçar, pra construir essa parte boa.

Por que não tentar transformar o arrependimento em outra coisa? Como varrer aquelas coisas, olhar pra elas e separar o que podemos reaproveitar. E se pudermos encarar o que a gente viveu de uma maneira diferente, recolhendo o que foi bom pra fazer de um outro jeito e, definitivamente, se esvaziar do que não foi legal?

Estou tentando muito não cair num senso comum, mas acredito que este tipo de pensamento, por mais que seja clichê, ainda parece ser algo muito difícil de acreditar. Se não foi bom, vai ver é porque não era pra ser mesmo e que bom que ainda somos capazes de perceber isso pra aproveitar hoje. Precisamos nos abrir pro novo, pro que acontece aqui e agora, e se nos apegamos ao que vivemos de ruim, pode acabar faltando espaço pra viver o que está ou pode ser bom. Eu peço, por amor, que prestemos mais atenção ao que está à nossa frente porque temos de continuar andando e não dá pra fazer isso olhando pra trás.

  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

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