25 de fevereiro de 2015 | Ano 1, Edição #11 | Texto: | Ilustração:
O Brasil é suas comunidades: entrevista com Rosa Bernardes
Rosa

Conheci Rosa Bernardes da forma mais inusitada: passando uma temporada na casa de minha tia, no Rio de Janeiro. Minha tia falou: “Você e cumádi vão se dar bem demais, vai ser um problema” e, assim que conheci Rosa, soube que aquilo era verdade. Aos poucos, ela foi me contando de sua trajetória como fotógrafa e documentarista e, a cada novo episódio, fiquei mais e mais encantada por sua força, sua coragem, sua pessoa.

Até agora não consigo acreditar que antes desse verão, não conhecia Tamboro, o documentário que produziu propondo a ter uma visão ampla do Brasil. E consigo acreditar menos ainda que o filme não está divulgado nos colégios de nosso país. “Tamboro”, em língua Ingaricó, quer dizer “para todos sem exceção”.

Assim, quando veio a ideia de uma edição sobre comunidade, já fui logo perguntar à Rosa se ela topava nos dar uma entrevista, contando um pouco mais sobre todas as comunidades que visitou Brasil a dentro. Ela topou. Aqui, fica um pequeno retrato de um lugar que é muito maior do que imaginamos, um lugar que é o nosso país.

 

Fotografia de Rosa Bernardes, Asa Branca

Fotografia de Rosa Bernardes, Asa Branca

Com quais comunidades você já trabalhou?

Passei muitos anos viajando por todo Brasil trabalhando com cinema documental, e conheci as mais diversas comunidades que você possa imaginar. E isso me deu uma grande experiência em trabalhar em campo, e principalmente conseguir interagir com a dinâmica das comunidades.

Atualmente meu trabalho está mais focado na fotografia, estou documentando um quilombo urbano na periferia do Rio, de tradição agrícola, e duas comunidades localizadas no território olímpico, Asa Branca e Vila Autódromo, e que estão sofrendo transformações estruturais profundas devido aos jogos de 2016.

Ano passado estive em duas aldeias indígenas no Acre, Nukini e Puyanawa, nas proximidades da Serra do Divisor. E no segundo semestre deste ano pretendo trabalhar com uma comunidade cigana, cujo acampamento fica montado na beira de uma rodovia e em frente de uma siderúrgica, em Minas Gerais.

 

Como é o processo de aproximação com culturas que não são a sua?

Para documentar uma comunidade, em um primeiro momento, com muito diálogo. Primeiro converso com o líder local, para definirmos que tipo de troca vai ser feita. Falo sobre o meu trabalho, explico o que é um trabalho autoral, mostro os ensaios fotográficos que já fiz. Em troca, sempre deixo um CD com a cópia do trabalho para o empoderamento do grupo, além de imprimir e dar de presente os retratos de quem fotografei.

Depois de tudo acertado, começa o trabalho em campo. Nesta etapa, tudo é muito delicado. Para que você realmente atinja a sutileza na imagem, é preciso ficar quase que invisível, e isso é difícil com uma câmera na mão. Olho no olho, sinto se há algum desconforto, mostro as fotos pelo visor. Espero até que nossa relação se estabeleça com confiança para que o resultado seja bom e a intimidade das casas, das histórias e das tradições sejam reveladas.

 

Fotografia de Rosa Bernardes, Acre

Fotografia de Rosa Bernardes, Acre

Você consegue pensar em algo que aproxima essas comunidades?

O fato de conviverem com o preconceito, com a pobreza, com a indiferença. O índio, o favelado, o quilombola, o cigano, todos são excluídos do mundo dito civilizado. Não são modelos de capa de revista, vivem à margem, na fronteira do que é considerado bem sucedido pela sociedade. O preconceito é muito grande.

 

E algo que diferencia? 

Cada uma dessas comunidades produz uma identidade e um conhecimento de seu território que é único. Ele está ali, deve ser respeitado, em suas tradições, seus rituais, sua linguagem.

Todas estas comunidades e as redes que se formam em seu entorno – seja na cidade, na floresta ou na beira da estrada – têm experiências diferentes para compartilhar, e que são extremamente necessárias para que possamos abrir nosso olhar para além de nós mesmos.

 

Fotografia de Rosa Bernardes, quilombo Cafundá Astrogilda

Fotografia de Rosa Bernardes, quilombo

Como essas comunidades pensam família? Território? Mulher?

No quilombo Vargem, a questão familiar é central. Os mais velhos são os guardiões do território, detêm as tradições, os costumes, mantêm viva a identidade cultural da parentela.

Já a questão territorial é bastante complicada. Primeiro porque os quilombolas são em sua origem pequenos agricultores. Acontece que, de um tempo pra cá, o Plano Diretor da cidade do Rio de Janeiro foi alterado, e passou a caracterizar o território do município do Rio como integralmente urbano. Dessa forma você não pode exercer a agricultura na cidade do Rio de Janeiro, ou seja, de uma hora para outra os agricultores urbanos simplesmente deixaram de existir perante o estado! Com essa mudança suas propriedades passarão a pagar impostos territoriais urbanos e não rurais. Resultado? O agricultor não vai conseguir pagar pela metragem de sua terra, vai acabar vendendo seu sítio e em seu lugar vão surgir prédios. É a lógica da especulação imobiliária.

Para piorar a situação, a comunidade fica dentro da área do Parque Estadual da Pedra Branca e o Plano de Manejo do Parque prevê a remoção dos moradores tradicionais em benefício da preservação da natureza. Ou seja, essa comunidade passou a viver de nada e a morar em lugar nenhum.

Isso tudo é uma situação absurda, pois tudo que precisamos é de alimentos saudáveis, sem agrotóxicos, produzidos ao lado de nossa casa, sem precisar de atravessadores nem da precificação das grandes redes de supermercados que dominam a distribuição de alimentos.

Em minhas idas ao quilombo e a convivência com a rede de agroecologia que está ligada a essa comunidade, aprendi que se alimentar é uma escolha política, e está ligada a um consumo ético, solidário e ecológico. Comprar do pequeno produtor, de preferência daqueles que produzem perto de seu território é fortalecer a agricultura familiar, que verdadeiramente nos alimenta e preserva o meio ambiente.

Ainda mais para nós, pois a coisa mais comum de se ver em nosso país é a monocultura de plantas que ninguém come, como a cana de açúcar, eucalipto e soja. Sabemos que a cana é combustível, o eucalipto é madeira e a soja é alimento das vacas; essa última, nós comemos (eu não). Mas sabemos também que o agronegócio só beneficia uma minoria exportadora e que a monocultura extensiva agride o solo e o ecossistema, e consequentemente o clima.

Onde já se viu leite de soja? Pergunta para a sua vó se no tempo dela existia isso. Essa porcaria foi criada pela indústria da soja para tornar o produto mais amigável à opinião pública. Quando filmamos o Centro Oeste brasileiro, estivemos em uma fazenda de soja e a cena é estarrecedora: além dessa monocultura ter praticamente exterminado o cerrado brasileiro para alimentar bois na China, são depositados metros e metros de agrotóxico nos silos para evitar que os grãos sejam atacados por insetos. Um horror.
Mas isso é outro assunto, vamos voltar ao quilombo. O fato de ser urbano trouxe aos quilombolas a oportunidade de organização e diálogo. Hoje eles conseguem vender seus produtos nas feiras orgânicas da cidade, e recentemente conseguiram certificar seus produtos.
As mulheres da comunidade são bastante articuladas, e pertencem a movimentos importantes de mobilização que unem mulheres agricultoras de todo país. A luta é grande contra a invisibilidade imposta pelo Estado, mas a articulação em rede está sendo mais forte para vencer a batalha.

 

Fotografia de Rosa Bernardes, Asa Branca

Fotografia de Rosa Bernardes, Asa Branca

Já na favela Asa Branca, as questões são outras. As relações familiares são bem mais diversas, devido à densidade populacional e ao seu território ser urbano.

Vejo meninas muito jovens com filhos, que muitas vezes acabam sendo criados com a ajuda das avós. Vejo também pais que não casam, mas assumem os filhos morando em casas separadas. Também é comum famílias adotarem espontaneamente crianças que não têm estrutura familiar, o famoso “pegar para criar”.

A comunidade não tem UPP, mas é pacificada e lá você encontra de tudo um pouco: terreiro de macumba, centro espírita, igreja católica, assembleia de Deus, padaria, borracheiro, rádio comunitária, casa das tias (prostíbulo), lava-jato, restaurante, botequim, quitinetes, mercadinhos, puxadinhos e até um hostel está sendo construído.

Essa favela se localiza no território olímpico, bem próximo ao centro onde acontecerão os jogos, por isso as transformações que estão acontecendo são muito radicais. Foram construídos vários condomínios de prédios de classe média ao lado da comunidade, abriram lojas de fast food e centros comerciais, além de um shopping gigantesco nas imediações. O transporte mudou com a construção do BRT e levas de imigrantes haitianos, que trabalham para as empreiteiras que constroem os equipamentos olímpicos, mudaram-se para lá.

Eu fui, então, pesquisar como essas transformações se refletiam na juventude e cheguei às duas turmas de bate-bola da comunidade, chamadas Atitude e Sensação. Mais conhecidos como clóvis, os bate-bola são uma tradição carnavalesca da periferia do Rio. Os grupos saem fantasiados batendo uma bola amarrada no chão, fazendo bastante barulho e espalhando o medo pelas ruas. Eles disputam entre si o posto de melhor grupo em desfiles na periferia.

As turmas são muito unidas, e têm uma organização incrível. Cada participante chega a gastar R$ 2.000,00 em sua fantasia. Pude observar, e aí acho um dado bem interessante, que os jovens incorporaram ao traje tênis de marcas famosas. Ou seja, além da fantasia as turmas selecionam um modelo de marca de tênis, que chegam a custar até R$ 800,00, e desfilam com a etiqueta pendurada, uma forma de expor a capacidade aquisitiva do grupo.

As meninas da comunidade participam da festa, e este ano pela primeira vez na comunidade, desfilaram como bate-boletes. Tudo com muito funk e danças provocantes, características dos bailes cariocas.

 

Fotografia de Rosa Bernardes, Acre

Fotografia de Rosa Bernardes, Acre

Passando-se ao território indígena, antes de tudo é importante comentar que o conceito de índio é muito amplo. São centenas de etnias, troncos linguísticos, organizações tribais. Não dá para generalizar, cada grupo tem sua especificidade.

Outra coisa importante é não pensar nesses grupos no passado, aquele estereótipo do índio selvagem, pelado na floresta. Já fazem 500 anos de intercâmbio cultural e muita coisa mudou. Hoje em dia temos cineastas indígenas, lideranças femininas conectadas no Facebook, pajés fazendo rituais de cura em cidades como São Paulo.

Em 2013 estive no Acre, em uma expedição até a Serra do Divisor. Passei por duas aldeias, das etnias Puyanawa e Nukini. Nesse território, apesar de ser demarcado e reconhecido pelo estado, há uma grande luta para o resgate da cultura tradicional.

O ciclo da borracha foi muito violento, e dizimou muitos destes grupos. Para vocês terem uma ideia, conheci um senhor que era capataz de seringal e saía para caçar crianças indígenas com cachorros, a mando de seu patrão. Essa é uma história que não vemos ser contada, uma história de extrema violência e que se repete e repete nos rincões de nosso país. Foram 258 anos de escravidão indígena “legal” no Brasil, dá para imaginar?

Após anos de exploração violenta e muita luta para demarcação de seu território, ainda encontramos sequelas desta desestruturação cultural. Nestas aldeias havia uma sede da assembleia de Deus, alcoólatras, e um grupo que havia conseguido resgatar sua identidade cultural e inclusive adotar a sua língua como matéria do currículo escolar da aldeia.

A comunidade se organiza em núcleos familiares, e as mulheres estão lutando para ter mais expressão. O modelo tradicional é a mulher cuidando dos filhos e da casa, os homens na lavoura e na caça.

 

Você acredita que existe um jeito mais proveitoso de ter trocas verdadeiras com comunidades que não são a sua?

Acho que toda troca é proveitosa. Se você é fotógrafo, antropólogo, estudante, qualquer que seja sua especialidade, e tiver a generosidade de olhar o outro oferecendo o seu saber, é completamente proveitoso para ambas as partes.

 

O audiovisual e a fotografia são trabalhos razoavelmente diferentes. Você sente que existe diferença quanto ao contato com a comunidade nesses dois tipos de trabalho?

Quando se trabalha com cinema você chega com uma equipe enorme e vários equipamentos. É um verdadeiro circo que se arma, é impossível passar despercebido. Fora que o tempo de um documentário é outro. Entrevistas, apresentações, você realmente se torna um acontecimento no local.

Com a fotografia documental, é bem mais simples. À medida que a presença da câmera vai sendo assimilada pela comunidade, vai ficando mais fácil penetrar no universo a ser documentado.

 

Fotografia de Rosa Bernardes, quilombo Cafundá Astrogilda

Fotografia de Rosa Bernardes, quilombo

Como foi filmar Tamboro? Conta um pouco da história pra gente.

Foi uma experiência incrível. Fui casada durante 15 anos com o cineasta Sergio Bernardes, diretor do filme. Nós começamos a desenvolver o projeto de filmar o Brasil logo que nos conhecemos, e a convite da Presidência da República conseguimos o financiamento para fazer um institucional para a Embratur.

O problema foi que quando mostramos o resultado final, a Secretaria de Comunicação da Presidência argumentou que o filme tinha muito pobre. Oi? Isso fez com que Sergio resolvesse fazer um outro documentário, desta vez mostrando a verdadeira face do Brasil.

Nesse ponto eu tive que assumir a produção do filme, porque um projeto desse porte, com pouquíssima verba, era tão arriscado que ninguém queria assumir. Tive que virar executiva, assumindo a nossa produtora, coordenando uma equipe de mais de 10 pessoas, por todos os cantos do país. Deu certo. Filmamos a maior apreensão de mogno já feita pelo IBAMA, o tráfico de armas nas favelas, e várias outras situações de risco.

Sergio faleceu logo depois de terminar a edição, mas mesmo assim eu consegui lançar o filme em 2009 no Festival do Rio. Ganhamos Prêmio Especial do Júri e Melhor Montagem, e o filme seguiu por dois anos em exibições em Festivais e Mostras em todo mundo. Atualmente aguardo os últimos tramites burocrático da ANCINE para liberar o filme e poder lançar em circuito comercial.

 

Você acha que, sendo mulher, o processo de aproximação com outras comunidades muda?

Às vezes sim. Vivemos em uma sociedade machista; por incrível que pareça longe dos centros urbanos muitos se admiram de ver uma mulher dirigir uma equipe.

Nessa última viagem que fiz a Serra do Divisor, enquanto tomava banho no igarapé com a Vari, líder indígena feminina da aldeia Puyanawa, ela veio comentar comigo que estava admirada de ver uma mulher mandando nos homens, sem perder o seu lado feminino. Eu fiquei muito feliz porque de certa forma a minha simples presença mostrou uma realidade que muitas mulheres indígenas desconhecem.

 

Rosa em trabalho

Rosa Bernardes

Como é ser mulher na sua profissão?

Somos minoria, ganhamos menos, às vezes não somos respeitadas, como toda mulher. Eu tenho 47 anos de idade, já passei por muitas situações de enfrentamento. É uma luta, mas hoje em dia, ao ver publicações como a Capitolina, a mobilização de tantas de vocês, me dá um orgulho, uma esperança de que vamos conseguir mudar esta realidade.

Outro dia vi no meu feed o vídeo de uma menina enfrentando um senhor alcoolizado que estava lhe passando uma grosseira cantada. Eu achei isto tão fantástico, a possibilidade de você poder colocar na rede as suas questões. Vamos em frente.

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Aqui deixamos uma galeria com as fotos das comunidades que a Rosa mais comentou, selecionadas por ela mesma!

 

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Se você se interessou pelas coisas que a Rosa contou, aqui ficam alguns links legais que ela indicou para saber mais dois assuntos:

Mulheres e Agroecologia em Rede

A gente não quer só comida

As 10 mentiras mais contadas sobre indígenas

Como o pós-consumismo floresce na Alemanha

 

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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