1 de fevereiro de 2016 | Cinema & TV, Colunas, Se Liga | Texto: and | Ilustração:
O Brasil no cinema gringo

O cinema é um elemento que muitas vezes cumpre um papel importante na construção de ideias que temos sobre o mundo, outros lugares e outras culturas. Contudo, com um cinema norte-americano que já vem há muitas décadas sendo hegemônico, as ideias que vêm de lá sobre o resto do mundo ressonam muito mais do que quaisquer outras – e a Chimamanda Adichie já nos ensinou muito bem o perigo de uma história única.

 

Acho que muitas brasileiras e brasileiros concordariam que é difícil definir o que é “ser brasileiro”. Nosso país tem o tamanho de um continente e é cheio de diferentes práticas, costumes, cidades, entre tantas outras coisas; também é cheio de opressões e formas de segregação social que, combinados, dão origem às mais diversas vivências. No entanto, existe um tipo de imagem sobre nós que o cinema norte-americano vem passando já há um bom tempo. A gente selecionou algumas representações que esse cinema vem fazendo da gente pra tentar entender um pouco o que é que eles pensam da gente, afinal de contas:

 

  1. José da Silva Pereira

 

Quando Audrey Hepburn, no papel de Holly Golightly em Bonequinha de luxo (Breakfast at Tiffany’s, 1961), avisa que está interessada em um tal de José da Silva Pereira, a gente até dá uma risadinha. O personagem de político brasileiro (milionário) foi interpretado por outro José, mas a pronúncia certa do nome é “Rosé”, porque o ator na verdade era espanhol. Chamado José Luis de Vilallonga, provavelmente conseguiu o papel por seu círculos de amizade influentes, uma vez que era um aristocrata nascido em Madri. O personagem é secundário, mas altera a relação do casal principal da trama; José da Silva Pereira em seu chapéu panamá, com seu corpo bronzeado e muito dinheiro aparece para desestabilizar a relação da aspirante a atriz e o escritor.

 

  1. Felipe

 

Outro personagem brasileiro, outro ator espanhol, mais um José na jogada. Dessa vez, o filme é de 2010 e se chama Comer, rezar e amar (Eat, Pray, Love). Inspirado em viagens que Elizabeth Gilbert fez para tentar superar o fim de um relacionamento, o filme escalou para o papel de seu paquera brasileiro (na vida real chamado José Nunes) o ator espanhol Javier Bardem. Uma parte do filme que ficou meio polêmica foi quando o tal brasileiro diz que é costume no Brasil beijar os filhos já crescidos na boca.

 

  1. Zé Carioca

 

O caso do papagaio que aparece em filmes da Disney dos anos 1940 (especificamente “Alô, amigos! (Saludo amigos, 1942) e “Você já foi à Bahia? (The Three Caballeros, 1944)) é bem especial. Criado numa época em que o mundo estava em guerra e o Brasil não se decidia se estava do lado dos Estados Unidos ou da Alemanha, Zé Carioca veio ajudar na política da boa vizinhança. O papagaio recebe com simpatia o próprio Pato Donald. Provavelmente ele é o mais bem-sucedido personagem dessa lista, porque reproduz em desenho animado (ou quadrinhos) estereótipos que os próprios brasileiros se preocuparam em criar, como o gosto do samba, a esperteza, a malandragem.

 

  1. Claudia Caswell

 

Ainda em começo de carreira, Marilyn Monroe também já foi brasileira no cinema. No papel de Claudia Caswell, no filme A malvada (All About Eve, 1950). Embora não seja apresentada exatamente como brasileira, mas sim como uma aluna formada na Escola Copacabana de Artes Dramáticas, e que espera sua chance como atriz enquanto suas características físicas são mais relevantes do que seu talento.

 

  1. Carlos Blanka

 

Ele aparece no filme Street Fighter – A última batalha (Street Fighter, 1994), mas já era um dos personagens brasileiros mais conhecidos dos videogames. Quem o interpretou foi o ator australiano Robert Mammone, pintado todo de verde e com uma peruca laranja. Blanka sofreu uma mutação em um acidente de avião, o que levou a sua cor de pele esverdeada, mas muita gente achava que o verde vinha do consumo de clorofila em seu ambiente de selva. O personagem é o mais animalesco do jogo (e do filme) e acaba retratado mais como selvagem do que como um ser humano.

 

  1. O filme Alucinações (Memory, 2006)

 

Foi dirigido por Bennett Joshua Davlin e lançado em 2006. A história central é de um médico que, depois de entrar em contato com uma substância misteriosa, começa a ter memórias de assassinatos que não são dele. Essa substância vem de um paciente que foi encontrado na floresta Amazônica, e algumas cenas o mostram correndo desesperado em meio a um monte de “selvagens assustadores” (que provavelmente eram pra representar indígenas brasileiros). Em certa cena, o filme mostra também a fachada de um típico boteco em Recife – mas o interior é uma espécie de cassino/bar com luzes azuis e decoração festiva tropical, parecida com o que a gente vê em filmes passados em Las Vegas.

 

  1. O filme Turistas (2006)

 

Dirigido por John Stockwell e lançado também em 2006 como uma produção de terror, Turistas se passa no Brasil e é um grande aglomerado de estereótipos que se têm sobre brasileiros (segue spoilers). Seis jovens americanos vêm ao Brasil e, em uma viagem para o nordeste na qual seu ônibus sofre um acidente e quebra no meio do caminho, ficam perdidos em um tipo de praia / paraíso meio macabro, onde são drogados e acabam sendo vítimas de uma gangue que rouba órgãos de gringos pra enviar pra o “Hospital do Povo” no Rio de Janeiro e salvar vidas de pessoas pobres. No meio de tudo isso tem também muita objetificação de mulheres brasileiras e racismo. Os brasileiros são como selvagens que no fundo são bonzinhos, mas cometem atos de barbarismo pra salvar pessoas no meio do caos que é o Brasil.

 

 

Nem precisa falar que essas representações apagam boa parte do que o Brasil e as pessoas brasileiras realmente vivem, além de transformar nossas experiências em estereótipos que envolvem a sexualização de mulheres, a ideia de que nós falamos espanhol e todos os povos da América Latina são praticamente a mesma coisa, que nós somos uma terra repleta de crimes e de misticismo etc. Talvez o que possamos tirar disso tudo é que, assim como nós, muitos outros povos são bem mais complexos do que o cinema “padrão” pode nos mostrar. Esta é a importância de buscarmos sempre escutar outras vozes e valorizar cada vez mais nosso próprio cinema e os de outros países.

Bárbara Carneiro
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Ilustradora
  • Fotógrafa
  • Colaboradora de Esportes

Bárbara Carneiro mora em São Paulo, curte narrativas cíclicas, tem como gosto mais constante a cor amarela e cria um cacto no jardim.

Thais Bakker
  • Colaboradora de Cinema & TV

Thais tem 20 anos e estuda Relações Internacionais e Filosofia. Se sente bem estranha se apresentando, por isso pagou uma coxinha a quem escrevesse isto por ela. Essa pessoa também achou relevante mencionar que ela reclama mais do que o socialmente aceitável.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Tem um filme francês (maravilhoso, aliás) chamado Samba que mostra um brasileiro de uma forma um pouco diferente. Se falar mais é spoiler.
    PS: detesto esses esteriótipos do nosso povo, eles não nos fazem andar para frente

  • Matias Eastman

    Tem um documentário chamado Olhar Estrangeiro a respeito disso. Baseado no livro “O Brasil dos Gringos” e dirigido por uma conhecida diretora brasileira, a Lúcia Murat. Eles citam diversos exemplos, mas o mais interessante é que a diretora confronta diversos artistas estrangeiros envolvidos com os esteriótipos que ele ajudaram a criar. Segue o trailer do filme: https://www.youtube.com/watch?v=FbMMKxvXs6g

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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