14 de janeiro de 2015 | Tech & Games | Texto: | Ilustração:
O cartão de visitas do planeta Terra – Placas Pioneer

Ou: “Oi, alienígena, quer teclar?” 

Preparadíssimas para um possível encontro com a vida extraterrestre, as naves espaciais Pioneer levam consigo uma mensagem polêmica da humanidade.

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“O espaço, a fronteira final… Estas são as viagens das naves estelares Pioneer 10 e 11, em sua missão de APRESENTAR O PLANETA TERRA AOS ETS.” – Capitão James Kirk (brincadeirinha). Fonte da imagem.

A missão do programa estadunidense Pioneer não era só fazer social, mas também explorar os planetas do sistema solar através do envio de missões não tripuladas ao espaço. Dentre suas quase vinte missões, duas se destacam.

Pioneer 10 foi a primeira nave espacial a voar pralém de Marte e atravessar nosso cinturão de asteroides. Um ano e meio depois do seu lançamento, em 1972, deu uma passadinha por Júpiter e fotografou de perto sua Grande Mancha Vermelha. Sua irmã mais nova, Pioneer 11, lançada no ano seguinte, chegou até Saturno, onde registrou um novo anel e pequenas luas até então desconhecidas.

Cada uma das sondas carregam a bordo uma placa com uma mensagem pictórica “facilmente” reconhecível à vida inteligente que possa vir a encontrá-la. A ideia original de que as Pioneer deviam carregar uma mensagem da humanidade foi de Eric Burgess, que cantou pro Sagan (ele mesmo, Carl Sagan) durante uma visita a um laboratório espacial em Pasadena, Califórnia. Sagan ficou eufórico, a NASA aprovou e deu um prazo de três semanas para preparar a mensagem. Concebida por Sagan e Frank Drake, quem em seguida criou também a Mensagem de Arecibo, e desenhada pela então esposa de Carl, Linda Salzman Sagan, a mensagem foi enfim gravada em duas placas de ouro-alumínio anodizado (ou o material mais resistente que a NASA tinha em mãos) e fixada na estrutura externa das naves.

A mensagem é uma mistureba de código binário, símbolos e diagramas contendo aquilo tido como essencial para entender o basicão a respeito da Terra e da humanidade. Nosso “endereço” no espaço (a posição do Sol em relação ao número de pulsares – pontos fixos no espaço que permitem a triangulação da nossa localização -, o sistema solar e a trajetória das naves), o hidrogênio como elemento abundante e a própria sonda em escala com corpos humanos nus. NASA mandou nudes aos ETs!!! Quem diria.

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Mensagem presente nas placas Pioneer.

É claro que nada disso passou em branco e assim que a placa foi apresentada ao público, este se manifestou. Uma parcela mais conservadora da população achou absurdo ver seus impostos investidos no envio de obscenidades ao espaço. Outro pessoal criticou a complexidade da mensagem – levaria tempo demais até que alguma civilização alienígena a decifrasse, se é que seria possível… O que era também um alívio para quem ficou receoso frente à possibilidade da placa ser encontrada por uma forma de vida hostil determinada a destruir a Terra.

O desconhecido abre muito espaço para especulação, deixa todo mundo de cabelo em pé e, até aí, tudo bem. Importante é perceber o que isso diz sobre nós mesmos. Os corpos nus na mensagem são magros, sem nenhuma deficiência. São dois: um deles tem um pênis, cabelos curtos, músculos aparentes e a mão erguida como quem diz “opa!” em sinal de boa fé. A figura ao seu lado é mais baixa, magra, dos cabelos longos, cintura fina e peitos proeminentes, não diz nada, é passiva e nem sequer tem uma vagina. Tem um espaço em branco, o vácuo entre as pernas (antes o nada que o obsceno). Aquele mesmo choque causado pelo quadro “A Origem do Mundo” de Coubert em 1866.

Os humanos das placas Pioneer são o ideal normativo: corpos perfeitos cisgêneros e heterossexuais com cabelos lisos (algo me diz que seriam brancos se os diagramas levassem cor). Reduzem a humanidade inteira a um modelo científico que, além de não ser neutro, falha em seu próprio método – abre mão da observação em troca de valores moralistas.

Elaborar uma mensagem concisa sobre nosso planeta e seus seres humanos é sem dúvida uma tarefa complicada e merece muito mais atenção do que de fato recebeu. As placas Pioneer são um caso dos mais notórios sobre a questão da representatividade e justificam por si só a crescente mobilização em torno do assunto. Imagina só se os alienígenas chegam aqui, dão uma olhada na galera e desistem da Terra acreditando ter pousado no planeta errado? Que vacilo (da NASA).

Ambas as sondas espaciais deixaram de enviar dados à Terra e continuam, até onde nós sabemos, sua viagem para fora do sistema solar.

Sugestão de leitura: A mão esquerda da escuridão da Ursula K. Le Guin é uma obra prima da ficção científica e tem tudo a ver com a matéria. Fala sobre alienígenas, corpos e gênero.

Carolina Stary
  • Ex-colaboradora de Tech & Games

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