16 de novembro de 2015 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
O cinema de Ava DuVernay

São raras as mulheres diretoras que conseguem um lugar na indústria cinematográfica, principalmente se considerarmos os filmes que atingem grandes audiências. Isso já não é novidade. A situação se torna ainda mais crítica se a tal diretora for negra. Porém, apesar das barreiras, cada vez mais essas mulheres estão lutando pelo seu espaço. Um bom exemplo é a diretora americana Ava DuVernay, mais conhecida pelo filme Selma, que conta a história da marcha que exigia o fim das restrições ao voto para os cidadãos negros, liderada por Martin Luther King Jr. em 1965.

Ava começou sua carreira no ramo do cinema como publicitária e só começou de fato a se aventurar na direção com mais de 30 anos. Em 2010, filmou seu primeiro longa-metragem com recursos próprios. Sabendo que dificilmente conseguiria um distribuidor, fundou a AFFRM (African-American Film Festival Releasing Movement), com o objetivo de promover filmes feitos por negros e negras.

O filme em questão se chama I Will Follow e conta a história de Maye (Salli Richardson-Whitfield), uma mulher em luto pela perda da tia que tanto admirava. A narrativa se passa em um dia na vida da protagonista, que recebe diversas visitas enquanto se prepara para deixar a casa em que passou seus últimos momentos cuidando dela. As visitas nos ajudam a entender as relações da personagem com os outros e consigo mesma.

Com o lucro dessa primeira experiência, Ava DuVernay pôde gravar seu segundo filme, Middle of Nowhere, que lhe rendeu o prêmio de melhor direção no Festival de Sundance. O longa-metragem conta a história de Ruby (Emayatzy Corinealdi), que tem a vida mudada a partir da prisão de seu marido. Ambos os filmes trazem personagens negras e complexas como protagonistas, demonstrando que uma maior diversidade por trás das câmeras leva a uma maior diversidade nas histórias contadas.

A influência de ter Ava DuVernay como diretora também foi sentida na narrativa de seu filme mais conhecido. Com um orçamento bem maior do que seus trabalhos anteriores e contando com Oprah Winfrey como produtora, Selma foi sua primeira experiência dirigindo um filme que não havia roteirizado.

 

 

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O povo de Selma.

Quando ela recebeu o roteiro escrito por Paul Webb, o foco maior da história era na relação do pastor e ativista Martin Luther King Jr. (David Oyelowo) com o presidente americano Lyndon Johnson (Tom Wilkinson). A participação de mulheres na narrativa era quase nula, limitando-se a uma ligação telefônica de Coretta King (Carmen Ejogo), esposa do pastor. Uma vez escolhida para comandar o projeto, a diretora mudou o enfoque do filme para o povo da cidade de Selma e adicionou personagens baseadas em mulheres que foram fundamentais no movimento pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos.

A representação do presidente americano da época foi inclusive um dos pontos polêmicos na recepção do filme. Alguns críticos disseram que a narrativa o trata como um vilão, devido à resistência dele para acatar as exigências de King. Porém, Ava DuVernay declarou que não tinha a menor intenção de fazer um filme white-saviour, isto é, com um personagem branco – no caso Lyndon Johnson – que salvaria os negros apenas com sua boa vontade. Ela preferiu representar o presidente como um ser humano complexo, aclamado por ter finalmente acabado com as restrições que dificultavam o acesso de negros e negras ao voto, mas também um negociador nos bastidores.

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Registro de voto negado para a personagem Annie Lee Cooper (Oprah Winfrey).

Como se pode perceber, o filme é baseado em uma história real. Em 1965, negros e negras ainda encontravam muitas dificuldades para poder votar nos Estados Unidos, principalmente nos estados do Sul, que tinham forte presença do grupo racista e violento Ku Klux Klan. Foi nesse ano que muitos ativistas, liderados por Martin Luther King, marcharam de Selma até Montgomery, capital do Alabama, exigindo que seus direitos fossem respeitados. Esse movimento, que culminou em uma legislação sobre o direito de voto, é retratado no filme.

Selma fez com que Ava DuVernay fosse a primeira mulher negra a receber uma indicação ao Globo de Ouro na categoria de melhor diretora. Apesar de ter sido cotada para dirigir o filme Pantera Negra, sobre o personagem da Marvel, a diretora preferiu não se envolver com o projeto. Há notícias de que ela trabalha em uma história que tem como pano de fundo o furacão Katrina, que atingiu a região de Nova Orleans, nos Estados Unidos. A nós, espectadores, resta esperar seus próximos filmes e torcer para que, em breve, Ava DuVernay deixe de ser uma exceção no mundo da direção cinematográfica.

 

Bárbara Camirim
  • Colaboradora de Cinema & TV

Bárbara Camirim tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e acabou de se formar em Comunicação Social. Está aos poucos descobrindo o que quer fazer da vida. Gosta de cinema, séries, literatura e, na verdade, qualquer coisa que envolva ficção.

  • Karen Yui Sagawa

    sabe onde posso baixar esses primeiros filmes dela? e com legenda de preferência hehe

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