10 de abril de 2014 | Edição #1 | Texto: | Ilustração: Mazô
O começo… do fim

Maria tinha 17 anos quando começou o primeiro namoro. O nome dele era Pedro, e juntos ficaram por alguns bons meses até que ela resolveu terminar. No começo, foi difícil dar os primeiros passos em direção ao fim, mas era preciso. Ela já não tinha certeza se queria continuar namorando, afinal de contas, ia se mudar de cidade para fazer faculdade – todo mundo dizia que namoro à distância não tinha futuro.

Rebeca, a melhor amiga de colégio da Maria, foi quem mais deu força para que ela conseguisse tomar a decisão. Como eram amigas há muitos anos, Rebeca notava qualquer indício de ofuscamento na radiante alegria de Maria, e ela já estava ficando opaca de indecisão. Deu o empurrãozinho que faltava para que Maria terminasse o namoro, que todo mundo via que não estava mais dando certo.

Pedro já esperava, também vinha se sentindo diferente, mais sufocado que o normal, com vontade de mudar de ares e de companhias. Eles se amavam e continuavam se amando quando “a” conversa colocou um ponto final no namoro – sempre tinham se querido bem. Maria foi para a faculdade e Pedro fez novos amigos com o tempo livre que lhe sobrou.

Maria foi então mais leve começar uma nova vida numa nova cidade. Lá conheceu gente muito diferente entre si, mas muito parecida com ela própria – cheia de planos, inseguranças, curiosidades. E cada vez mais aquela gente parecia sua conhecida de anos e anos atrás. Grandes amizades brotaram ali.

O tempo então fez seu trabalho e Maria acabou se afastando… de Rebeca. Sempre foram muito amigas, mas a distância, os objetivos diversos e as novas influências em suas vidas criaram diferenças incompatíveis entre as duas. Já não conseguiam mais se interessar uma pela outra e foram aos poucos perdendo – e até, em certa medida, evitando – o contato.
Três anos depois, Maria e Pedro ainda conversavam: trocavam experiências e histórias, vez ou outra saíam entre amigos, eram confidentes de segredos e pecados. Pedro já namorava outra pessoa e Maria experimentava a vida na sempre nova cidade.

Relacionamentos são parte fundamental do processo de desenvolvimento da nossa própria identidade: relacionando-nos com familiares, amigas e amigos etc., é que crescemos e adquirimos profundidade de caráter e diversidade de experiências que são essenciais para a formação de nossa singularidade como pessoas. A partir da vivência conjunta e da interação entre nós e toda a cadeia de pessoas ligadas a nós por meio de laços dos mais diversos, é sempre possível retirar algum tipo de aprendizado e conteúdo que levaremos conosco, sempre acumulando mais e mais e, desta forma, amadurecermos.

Um relacionamento afetivo, seja ele namoro, amizade ou parentesco, é um elemento que se funde com nossa personalidade, ou seja, a pessoa passa a compor parte de nós e do que somos e nos tornamos, e desfazer-se dele deliberadamente pode ser – e é, muitas vezes – difícil. Difícil porque nem sempre detectamos a fragilidade dos laços que nos unem à pessoa, ou nem sempre – na realidade, quase nunca – admitimos que eles estão fragilizados.
A vontade de fazer dar certo a qualquer custo, em grande parte propagada pelos filmes hollywoodianos, ou o tempo prolongado que passamos ao lado da pessoa, são alguns dos fatores que impedem que analisemos com a devida clareza a relação afetiva. Quantas vezes não nos vimos “empurrando com a barriga” uma amizade desgastada só porque aquela pessoa foi sua amiga desde o jardim de infância? Ou quando todo mundo da sua família está tão afeiçoado a seu namorado que fica difícil terminar, mesmo você querendo? Ou então quantas vezes nos submetemos a relacionamentos psicologicamente abusivos e aguentamos todo o tipo de ofensa e maus tratos somente porque eles provêm de uma pessoa da família? A lista de motivos pode se estender por muitas, quase infinitas, linhas.

No entanto, não somente de tragédias óbvias vivem os fins de relacionamentos. Inúmeras relações são deveras promissoras, sobretudo aquelas cujas pessoas envolvidas se dão muito bem e são – aparentemente – perfeitamente compatíveis; mas mesmo estas acabam entrando em descompasso de alguma forma e, assim, chegam ao fim os relacionamentos mais estáveis que se pode imaginar.

O que é certo, então, é que como todo carnaval, todo relacionamento pode ter um fim algum dia. Pode ser que este dia não coincida com o término formal, acertado e verbalizado do relacionamento. É muito comum que as pessoas prolonguem-no – a despeito da desconexão entre elas – até o fim de suas vidas. O “para sempre” talvez seja uma grande pressão que nos faz insistir em envolvimentos afetivos desgastados – e até mesmo abusivos -, ou para que nos adequemos a padrões de relação estabelecidos e pouco flexíveis. Não que o “para sempre” não possa existir, mas certamente é um desafio que nem todas as pessoas conseguem – e nem devem, necessariamente – superar.

Nesse sentido, quando os primeiros sinais do começo do fim de um relacionamento – que variam de pessoa para pessoa e de relação para relação, mas que, em geral, são perceptíveis a partir daquela sensação insistente de que as coisas não são, a despeito dos seus esforços, as mesmas entre vocês – surgirem, é preciso algum esforço para analisar as coisas sob uma ótica o mais distanciada possível da pressão do “para sempre” ou de qualquer outro tipo de motivo que nos empurra para a continuidade de um relacionamento que não vai mais tão bem quanto desejamos.

Não é fácil. E por isso talvez necessitemos do apoio de outras pessoas, com quem possamos conversar e nos abrir. Muitas vezes, a conversa franca entre nós e alguma pessoa externa à relação pode ser essencial para que consigamos admitir que o relacionamento está desgastado e, dessa maneira, reunir a coragem e a determinação necessárias para colocar um fim nele.

E então, quando conseguimos finalmente terminar um relacionamento, acabamos também por nos deparar com um outro problema que envolve finais: a ideia predominante de que todo fim é absolutamente definitivo. Se o relacionamento em que estivemos envolvidas não tiver sido um grande desastre afetivo, não há motivos para se distanciar da pessoa como se nunca tivessem se conhecido – o que é extremamente comum por aí. Não é porque não deu certo de um jeito que não pode dar certo de outro, os relacionamentos podem – e devem, se saudável for – ser transformados em coisas novas! Uma infinidade de combinações nos aguardam.
Nunca tenham medo do começo do fim, porque todo fim significa um começo.

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

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