21 de junho de 2014 | Ano 1, Artes, Edição #3, Literatura | Texto: | Ilustração:
O corpo e a voz
Ilustração: Helena Zelic.

Ilustração: Helena Zelic.

Todas nós sabemos que o teatro e a dança são artes que nos ensinam a lidar com nossos corpos – até por motivos óbvios, já que em ambos os casos o corpo é necessário para a performance. O que pode surpreender, no entanto, é que a poesia também é uma forma de lidar com nossos corpos. Mas como assim papel e caneta podem ajudar na autoconfiança? Bom, escrever sobre o que você sente e vive é sempre uma boa forma de exteriorizar seus pensamentos e clarear a mente, mas esta poesia é diferente. Porque não é apenas papel e caneta, é principalmente a sua voz.

A poesia falada (ou spoken poetry) é um tipo de poesia que resgata o início dessa arte, lá nos tempos da Grécia Antiga, quando ninguém escrevia poesia, mas a falava. Assim, o poeta dá literalmente sua voz ao poema. E, se antes instrumentos como a lira eram usados como acompanhamento, hoje em dia esses poetas abandonaram os instrumentos. O ritmo quem cria é o próprio poeta, com a ajuda da plateia, que é sempre muito participativa.

Isto é porque a ideia do slam é que a poesia volte para o povo. No site do ZAP! (Zona Autônoma da Palavra), é bem explicado sobre o que exatamente é esta arte performática: “O Slam dá a voz a todos, com uma liberdade total de estilo, de gênero e de assunto abordado. Não há estrelas e o poeta no palco nunca deve ser mais importante do que o público que está lá para ouvir. Todos são benvindos e podem participar, a única condição é se inscrever com o apresentador e obedecer as regras, que basicamente são: os poemas e textos devem ser de autoria própria, ter no máximo 3 minutos e a performance deve ser feita sem figurinos, adereços, cenários ou acompanhamento musical.”

Este movimento começou nos Estados Unidos, nos anos 80, e faz muito sucesso em diversos países hoje em dia, principalmente Estados Unidos, França e Alemanha. Criou-se também o slam, que é o encontro em que os poetas recitam suas poesias. São diversas modalidades existentes – desde a clássica (que é você declamar sua poesia) até competições com improvisos (algumas, você tem que falar sua poesia em 3 segundos!). Existe, inclusive, uma copa do mundo de slam, a qual teve sua última edição na França e a brasileira Roberta Estrela D’Alva ficou entre as finalistas.

Mas o que exatamente a poesia falada tem a ver com o corpo?

Existe uma série de mulheres poetas que se apropriaram da poesia falada para denunciar as atrocidades que sofremos por causa da visão da sociedade sobre nós. Elas falam sobre menstruação, cabelos, negritude, peso, masturbação, etc. E, com toda a coragem e elegância, sobem no palco, pegam o microfone e deixam a poesia fluir. São poemas emocionantes que contam do racismo, do machismo, da transfobia, da homofobia que infelizmente muitas de nós, mulheres, vivemos de uma forma ou de outra.

Palavra por palavra, essas poetas nos mostram que não estamos sozinhas quando sofremos porque a roupa que gostamos não cabe, porque nos olham diferente por causa do nosso cabelo, porque brigam com a gente quando demonstramos ter desejos sexuais. E a cada nova poesia falada, mais consciência tomamos, mais percebemos o quanto não precisamos de ninguém para nos dizer quem somos, porque nós sabemos. Nós sabemos quem somos e nós temos voz para dizer.

Essas mulheres nos ensinam a ver nossos corpos de outra maneira. Uma das grandes poetas, Sonya Renee, em uma de suas performances mais famosas, fala: “O corpo não é uma desculpa”. E daí se você está a cima do peso? E daí que você é negra? E daí que você se masturba? O que as poetas de poesia falada vêm perguntar é isso: e daí? Somos todas lindas, fortes, temos voz e ninguém vai nos derrubar. Os nossos corpos são apenas nossos. E nós vamos amá-los.

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Se você se interessou pela poesia falada, pode dar uma olhada na página do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos no Facebook.
Infelizmente, no Brasil só temos a Roberta Estrela D’alva como principal nome da poesia falada. Mas existe uma série de mulheres incríveis que falam sobre a questão do corpo em outras línguas (especialmente em inglês). As que acho mais incríveis são:
– Sonya Renee
– Staceyann Chin
– Nicole Homer
– Sarah Kay
– Rachel Wiley
Mas existem milhões de outras mulheres incríveis que você pode procurar! Inclusive, você mesma pode encher o peito e falar seus próprios poemas.

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Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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