24 de agosto de 2014 | Estilo | Texto: | Ilustração:
O desnecessário ringue do empoderamento

LILYFonte da imagem 

[TEXTO EDITADO EM 25/08/2014]

NOTA DA AUTORA:

Este texto teve seu enfoque nas rixas que às vezes estão presentes na construção do empoderamento das mulheres na música. Foi ignorada, porém, a especificidade do empoderamento da mulher negra, que necessita de um debate mais refinado do que o que foi apresentado, pois ela está vulnerável não somente ao machismo, mas ao racismo. Gostaria, então, de contrastar as diferenças do empoderamento feito pelas duas artistas citadas no texto.

A música “Anaconda”, da artista negra estadunidense Nicki Minaj, é um hino de empoderamento às mulheres que tem bunda grande. Esse atributo físico é frequentemente associado às mulheres negras e visto como algo pejorativo. O fato de Nicki colocar o orgulho de seu corpo e sua negritude em uma canção é incrível, pois desconstrói o pensamento de que a bunda grande deve ser motivo de vergonha.

Essa situação é bem diferente da colocada na letra de “Hard Out Here” pela artista branca britânica Lily Allen, que demonstra preconceito ao afirmar que ela “não precisa sacudir a bunda porque ela tem um cérebro”. O vídeo dessa música foi, inclusive, alvo de muitas críticas por usar apenas dançarinas negras que foram apresentadas de forma sexualizada, reforçando estereótipos de raça.

Com esse panorama fica mais difícil encontrar semelhanças nas críticas que foram feitas às duas artistas. “Skinny bitches”, termo utilizado por Nicki Minaj e que corresponde à “vadias magrelas” faz parte de uma resposta, ainda que num tom agressivo, há todo um padrão de beleza eurocêntrico. Já Lily Allen coloca-se de forma preconceituosa em sua letra e racista em seu vídeo, tornando as comparações à Nicki Minaj incompatíveis da maneira que foi colocada no texto.

Quanto à imagem de um corpo negro que fazia referência à Nicki Minaj que ilustrava esse texto, posso apenas me desculpar pelo descuido. Falei tanto da agressividade entre mulheres no texto, mas, no fim das contas, quem acabou parecendo agressiva fui eu. Em momento algum a intenção foi ofender. Mais uma vez, perdão pelo desleixo.

[TEXTO PUBLICADO EM 24/08/2014]

A grande mídia é importantíssima para veicular idéias. Por isso, quando uma música com teor feminista que serve para empoderar outras mulheres faz sucesso, dá vontade de dar pirueta de felicidade, porque são músicas que chegarão a muita gente. E quanto mais pessoas as ouvirem, mais pessoas poderão se sentir confortáveis com suas próprias aparências e modos de ser. O problema é a maneira com a qual esse empoderamento é feito.

Há uns dias atrás a Nicki Minaj lançou uma música nova chamada “Anaconda”. A faixa é basicamente uma ode a mulheres de bunda grande. Até aí tudo legal, tudo sussa, tudo tranqüilo. Mas aí, lá pro final da música, Nicki manda as magrelas irem se funhanhar de modo totalmente gratuito, só porque elas são magrelas.

Também tem uma música relativamente recente da Lily Allen que levanta o mesmo tipo de polêmica. Em “Hard Out Here”, Lily diz que ela “não precisa sacudir a bunda porque ela tem um cérebro”. E eu posso estar errada, mas essa fala específica não me pareceu irônica.

Em ambas as letras, uma mulher diminui uma mulher diferente dela para empoderar a si mesma. Basta um deslize para estragar uma letra que poderia ser super positiva. Isso é muito triste. É completamente desnecessário destruir uma moral para valorizar outra. As bundudas são tão maravilhosas quanto as desbundadas. Uma mesma pessoa pode sacudir a bunda e ter atividade intelectual sem nenhuma condenação ou contradição. Ou ela pode escolher só descer até o chão ou só ler livros pro resto da vida. Independente da escolha, tá tudo certo. Ninguém é melhor que ninguém.

Os tipos de beleza fora do padrão merecem uma atenção especial. Uma música que valorize as gordas é muito mais importante que uma música que enalteça as trincadas de academia, porque esse segundo grupo já é bastante exaltado pela sociedade e não precisa de grandes esforços para ter sua moral levantada. É preciso, inclusive, ter cuidado para não reforçar estereótipos de beleza. O empoderamento deve abrir o leque, fazer com que todo mundo se sinta bem sobre si mesmo, não privilegiar um grupo específico.

Diariamente somos obrigadas a lidar com o machismo. Por mais que a gente não queira, nossa vida é um campo de batalha. Então por que demônios nos voltamos umas contra as outras quando deveríamos estar nos unindo contra o real inimigo machão chauvinista? Por que nós colocamos mais entraves no nosso caminho? Eu realmente não sei, é um tremendo contrassenso.

Não precisamos dos meninos do One Direction nos dizendo que “o que nos torna bonitas é que não sabemos que somos bonitas”. Com licença, homens, somos maravilhosas e capazes de descobrir isso sozinhas. Da mesma maneira, também deveríamos dispensar os rechaços internos entre mulheres. Os homens não acrescentam absolutamente nada para a construção da nossa custosa autoestima, mas nós podemos e devemos ajudar umas às outras a protagonizar nosso fortalecimento. Estamos no mesmo barco e, no fim das contas, a falta de sororidade é um tiro no próprio pé.

Julia Oliveira
  • Coordenadora de Estilo
  • Ilustradora

Julia Oliveira, atende por Juia, tem 22 anos e se mete em muitas coisas, mas não faz nada direito — o que tudo bem, porque ela só faz por prazer mesmo. Foi uma criança muito bem-sucedida e espera o mesmo para sua vida adulta: lançou o hit “Quem sabe” e o conto “A ursa bailarina”, grande sucesso entre familiares. Seu lema é “quanto pior, melhor”, frase que até consideraria tatuar se não tivesse dermatite atópica. Brincadeira, ela nunca faria essa tatuagem. Instagram: @ursabailarina

  • Lorena

    Ótimo texto. E de fato falta muita sororidade por aí, mas é preciso entender que toda feminista está em construção. No fim de semana, Beyoncé gritou pro VMA – e mundo – inteiro que é feminista; a mesma mulher que cita o episódio de Tina Turner em Drunk in Love. E a mesma mulher que se coloca num binário de garotas para casar ou não, ao exigir uma aliança em Single Ladies.

    Tanto Minaj como Allen estão em construção e estão aprendendo diariamente como externar seu empoderamento. Nicki Minaj é incrível e tem um orgulho maravilhoso de seu corpo, o que já é louvável por si só. Estava ouvindo uma música agora que segue o mesmo estilo gorda vs magra, se chama All About that Bass. A menina também tem uma hora que solta um “skinny bitches”, mas não acho que apontar o dedão e chamar de falta de sororidade vale a pena. Falta de sororidade por falta de sororidade, chegar apontando erro em outras mulheres também é.

    Eu concordo MUITO com o texto, mas só acho que já pegam tão pesado em cima das mulheres que nós não podemos sair agindo da mesma forma. Devemos sim espalhar a sororidade entre nós, mas de forma amigável, mostrando que todas as mulheres são belas e que falta de sororidade não é um tiro no pé não, mas um estágio de amadurecimento por qual todas nós passamos e reproduzimos, até aprendermos que feminismo depende do apoio mútuo de todas as mulheres para com elas mesmas.

    Há braços!

  • Milena Santos

    Bem, o fato é que existem negras, índias, brancas, amarelas, mestiças (afinal hoje em dia praticamente ninguém é “puramente” de uma “raça”, principalmente no Brasil) tanto bundudas, quanto desbundadas. Lily Allen fez menção racista e isto ficou claro, enquanto nem no clipe nem na música da Nicki especificava cor, inclusive havia uma “branquela” entre as bundudas. Claro que o “skinny bitches” foi pesado, mas deve-se lembrar que o padrão de beleza nos EUA (mostrado em vários e vários filmes, e clipes) é ser “magra do peitão” e umas frases bem clichês são “levante essa bunda gorda”, “aquela garota da bunda gorda”, terno o qual Nicki se utiliza justamente para enaltecer estas, inclusive “pequeno na frente, mas grande atrás” ironiza ainda mais.
    Uma música legal para garotas gordinhas é a da cantora Meghan Trainor, “About The Bass”, sem xingamentos, bem-humorada… sem necessariamente ataques e indiretas.

    • itismesomeone

      Hmm, até que é verdade, ela até chega usar o termo ”skinny bitches” só que ‘brincando’. A música é bem legal mesmo, acho que o problema é só aquela parte “cuz boys like a little more butty to hold at nitgh” ou alguma coisa assim, como se o objetivo fosse ter um corpo que agrada os meninos. Mas nada é perfeito, né? Eu particularmente gosto bastante da música.

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