16 de julho de 2016 | Ano 3, Edição #28 | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
O divã e as viagens internas: não há nada de ruim em ir a uma psicóloga

Quando eu tinha catorze anos, vivi um acontecimento bastante traumático. Talvez eu possa dizer que ele dividiu minha vida entre antes e depois. Quando contava para algumas amigas o que havia acontecido, elas me diziam que eu precisava transformar essa dor em desabafo e autoconhecimento indo a uma psicóloga.

Isso me parecia muito estranho, afinal, como alguém poderia saber mais de mim do que eu mesma? Assim me recusei durante anos a procurar uma profissional e me abrir para uma pessoa desconhecida.

Eu tinha várias desculpas para isso: o feminismo era o que eu precisava para ficar bem, as leituras me faziam viajar e eu nem pensava nisso, uma viagem de férias curava qualquer questão, escrever era a melhor forma de organizar as coisas por dentro etc. Mas havia junto de todas essas questões um receio enorme de me encarar de frente com meus pensamentos mais secretos e dividi-los com alguém que não sentisse nenhum afeto por mim e pudesse ter um olhar mais “prático”.

Em algum momento, impulsionada por algo que nem sei o que era, afinal, parecia o momento da vida que tudo estava mais bem resolvido dentro de mim, eu marquei um horário com uma psicóloga.

No primeiro dia, eu a achei engraçada. No entanto, nas outras vezes que fui até lá, comecei a achar meio esquisito a dinâmica toda. Na sala só havia duas cadeiras e uma mesa. Como se fosse um consultório para falar de qualquer assunto sobre a minha saúde física, mas não combinava muito com ir até lá falar de questões emocionais.

Ir naquele lugar foi gerando tanto desconforto que eu desisti. O ápice foi um dia que ouvi os gritos de um paciente e dela, tudo misturado. Foi angustiante. Busquei então outra psicóloga, dessa vez ela tinha um jeito muito simpático e um carisma que me deixava muito feliz.

A sala dela tinha um ar meio retrô. A caixinha de lenços era de madeira e muito bonita. As poltronas eram confortáveis e eu fiquei feliz por quatro meses. Algumas coisas me incomodavam, é verdade. Ela falava muito e às vezes parecia que eu a ouvia mais do que ela me ouvia, mas o que me fez parar de ir, foi descobrir, a cada consulta, algo sobre mim que definitivamente eu não queria encarar. Então parei.

Um ano depois, comecei a ter muitos problemas na vida amorosa. E eram problemas que estavam me consumindo e parecia que eu não conseguia colocar os sentimentos em ordem sozinha. Parece que eu precisava de um apoio e de um modo de me encarar novamente, como tinha me encarado no momento que fugi de lá. Então, eu voltei a ser atendida por ela.
Não sei, algo parecia ter mudado na nossa dinâmica. Eu não me sentia bem em ouvir o que ela tinha para me dizer, ainda que tenha sido bom voltar. Então, consegui sair do meu relacionamento daquela época, mas também precisei romper com a minha psicóloga.

Deu aquela preguicinha de procurar uma psicóloga nova e começar a contar tudo do zero, mas eu ainda não tinha desistido da ideia de me aprofundar em mim mesma. Logo, marquei horário e fui. Foi bem diferente das outras vezes. Desde o primeiro dia eu consegui falar tudinho que estava sentindo e pensando. Quase não respirei de tanto falar. O ambiente me passava segurança e a presença dela também. Talvez tenha sido uma espécie de amor à primeira vista, mas pela psicóloga.

Agora faz um ano que vou até lá uma vez por semana. Nesse interim, teve vezes que discordei do que ela me dizia e outras que ela me ajudava a chegar em conclusões tão importantes por meio de suas perguntas que eu saía de lá maravilhada. Houve também um dia que saí com vontade de não voltar nunca mais, de tão verdadeira que ela foi, parecia que eu tinha sido esfregada no espelho de uma forma meio brusca – metaforicamente falando, rs.

Essa visita semanal que faço naquela salinha, me fez aprender muito sobre mim e sobre meus limites. Aprendi também sobre o que motiva alguns dos meus comportamentos estranhos e possíveis desconfortos. Além disso, uma das coisas que tenho aprendido é a me respeitar. Respeitar o que não gosto, de quem não gosto, quando preciso ir embora de algumas situações. Confesso, um grande desafio. Nada, nada fácil.

Desconstruir a imagem que eu tinha de alguém estranho querendo saber mais sobre mim do que eu mesma foi desfeita quando notei que minha psicóloga não faz mágica. O que ela fala parte muito do quanto me abro. É como se fosse um trabalho em conjunto. Ela nunca quis me dar rótulos, nem rotular minhas emoções, nem dizer que eu era “ansiosa” ou isso ou aquilo. Na verdade, o trabalho passa todo por me fazer entender como me comporto e que não nasci assim, isto é, não fui e não serei sempre da mesma forma.

Ir até lá me fez descobrir sobre mim mesma e minha relação com o mundo. Deitar no divã me fez fazer uma viagem semanal aqui por dentro, mergulhando em lugares tão escondidos e por vezes voltando muito no tempo. Percebi que ir até lá não anulava os processos de escrever para me entender, ler ou qualquer coisa que eu pensava ajudar antes. Pude, em vez disso, aliar diferentes possibilidades de autoconhecimento. Como eu disse acima não foi de primeira, conseguir ter uma relação bacana com a psicóloga passa por sentir-se bem, existir certa empatia entre as pessoas envolvidas.

Quer saber? Quando há conforto suficiente, recomendo essa viagem!

Fernanda Kalianny
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Se liga
  • Coordenadora de Poéticas

Fernanda Kalianny Martins Sousa , 26 anos, fez Ciências Sociais na USP e cursa doutoraddo em Ciências Sociais na Unicamp. Adora ler sobre aquilo que informa e complementa sua formação enquanto ser humano, então sua área de estudo tem tudo a ver com aquilo que sente ou é (estuda raça, gênero e sexualidade). Escreve poemas e acredita que sempre será "amor da cabeça aos pés". O coração, intensidade e impulsividade controlam quase todas as ações. Ama apaixonadamente e vive as paixões da forma mais cheia de amor possível. Antes que sufoque com o que fica para dentro, coloca tudo no papel.

  • Beatriz Caroline Paim Amaral

    Olá Fernanda! Amei o seu texto e é realmente isso o que sinto; Mas antes vou contar uma coisinha sobre mim.. Eu simplesmente me via como uma ‘louca’ indo a psicóloga, e na maioria das vezes, as pessoas em volta ainda ajudava a me afundar nessa coisa de que só uma pessoa com problemas mentais muito sérios ou ricaços iam ao psicólogo, até quando eu era pequenininha tive que passar com um psicólogo porque eu tinha muito, mas muito medo da escola, mas foi muito rápido, tipo só uns 3 meses de terapia. Só que quando eu completei 10 anos eu vi que as ‘coisas’ não andavam muito bem, e comecei a fazer novamente.. Eu e minha psicóloga acabamos muito amigas e tal, e logo em seguida, quando por ela fui orientada, a também fazer uma consulta com uma psiquiatra e foi aí que eu descobri que sofro com o Transtorno Obsessivo Compulsivo, o famoso TOC. e a partir daí tive ela como minha grande amiga e conselheira. Fiz 2 anos e meio de terapia com essa psicóloga e depois voltei em 2013, mas logo em seguida, minha psiquiatra achou que eu deveria fazer a tal da Terapia Cognitiva Comportamental e fiz mais uns 8 meses e consegui superar algumas manias e outros traumas, mas sinto (e sei que tem muito ainda a ser ‘desvendado sobre meus sentimentos e principalmente sobre mim) e lógico, aprender bastante, por vou te dizer uma coisa.. São muitos sentimentos que as vezes, precisamos de ajuda para decifrar e para pensar em como agir em algumas situações..

    Amei o seu texto, muito, muito..
    Ass: Bia Paim =)

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