15 de janeiro de 2021 | Educação | Texto: and | Ilustração: Raphaela Corsi
O ENEM, a Desigualdade e o Coronavírus

Você deve ter visto por aí muita gente comentando o vídeo lançado pelo Ministério da Educação sobre o ENEM em maio de 2020. Com a situação da pandemia de Coronavírus, houve muito barulho para que o exame fosse adiado. E no dia 21/05/2020, isso de fato aconteceu, mesmo o Ministério da Educação tendo mantido campanhas publicitárias e declarações públicas sugerindo que os alunos “se reinventassem” e estudassem em casa com o auxílio de livros e da Internet para se prepararem para a prova. Essa foi uma vitória importante do movimento estudantil naquele momento. 

Contudo, agora, em janeiro de 2021, com o agravamento da pandemia no país percebe-se que o adiamento inicial não foi o suficiente. Ainda estamos passando por um momento muito complicado, o Brasil atingiu a marca de 200 mil mortos pela COVID-19 e todos os dias temos um número alto de infectados. 

Por isso, nós da Capitolina achamos importante falar sobre esse assunto. Com dados interessantes e as pautas que surgiram durante as discussões de adiamento e retornaram agora na iminência do exame (nos dias 17/01 e 24/01/2021 a versão impressa.). Informações que muitas vezes passam batido e não nos fazem perceber a realidade para além da nossa própria bolha.

Estudantes com realidades desiguais

Em primeiro lugar, precisamos entender que o Brasil é extremamente desigual. Segundo um relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), lançado em dezembro de 2019, o Brasil é o 7º país mais desigual do mundo. Isso significa que em nosso território, pobres e ricos vivem realidades opostas, tanto em termos de experiências de vida incluindo lugares frequentados, arte consumida e possibilidades de educação quanto em relação a condições materiais, qualidade de habitação, alimentação e transporte.

Um exemplo didático dessas desigualdades foi apresentado em uma reportagem do El País, no final de 2018, na qual o jornal comparava a rotina de duas adolescentes paulistas, que moravam a cerca de 10 km uma da outra. Kimberly, moradora de uma favela, vive em uma casa de dois quartos com sua mãe e cinco irmãos, enquanto Mariana mora em uma residência de quatro quartos (sendo que um deles tornou-se um escritório) com seus pais e um irmão em um bairro rico. Outra diferença notada foi que Kimberly sai da escola e vai para casa realizar tarefas domésticas; já Mariana passa cerca de oito horas na escola, fazendo cursos de idiomas e esportes depois das aulas regulares. Casos como esses apresentam justamente as desigualdades sociais que refletem nos estudos e, provavelmente, nas oportunidades futuras de desenvolvimento que tendem a ser bem diferentes. 

No momento atual, com a pandemia da COVID-19, essas desigualdades ficaram ainda mais evidentes na vida de jovens estudantes como Kimberly e Mariana. Escolas foram fechadas e a alternativa para que o ano letivo não atrasasse passou a ser a realização de atividades à distância, principalmente on-line. Entretanto, a adoção do ensino a distância não leva em consideração as diferentes realidades dos alunos, principalmente de escolas públicas.  Alguns exemplos são o acesso limitado à internet, falta de computadores e de espaço em casa, problemas sociais, sobrecarga de trabalho dos professores, baixa escolaridade dos familiares, dentre outros fatores que afetam diretamente no aprendizado e entrada desses estudantes nas faculdades.

De acordo com dados fornecidos pela pesquisa TIC Domicílios 2019, iniciativa que tem como objetivo mapear o acesso dos brasileiros a tecnologias da informação e da comunicação, mais de 20 milhões de residências brasileiras não possuem computador e acesso à internet. Essa desigualdade é ainda mais acentuada quando observamos que 85% das pessoas das classes D e E (com renda per capita inferior a 1 salário mínimo) acessam à internet exclusivamente pelo celular.

Estados como São Paulo e Rio de Janeiro desenvolveram aplicativos de celular para auxiliar no estudo a distância, mas não são todos os pais e alunos que contam com um telefone com memória suficiente para instalar apps, por exemplo, além das dificuldades para entender como funcionam. Também é preciso lembrar dos alunos com deficiência que necessitam de um material pedagógico adaptado para suas particularidades.

Para além de todos esses fatores, temos ainda a resistência das classes com mais privilégios em conceber a divisão de espaços com os mais pobres. Em muitos textos aqui na Capitolina nós tratamos desse assunto quando falamos sobre cotas sociais, cotas raciais e a importância do ENEM ser adotado como um vestibular, ampliando horizontes.

Risco de contágio durante o ENEM

Em meio a uma grave crise sanitária sem precedentes, promover um exame da magnitude do ENEM com 5,7 milhões de alunos inscritos é colocar em risco não apenas esses jovens, mas suas famílias e uma rede de profissionais da educação que precisam trabalhar para que essa prova ocorra. Isso é especialmente cruel quando lembramos da desigualdade no acesso à saúde em nosso país.  Lembrando que a maioria dos inscritos para o Exame são mulheres (60%)  e negros (60%).

De acordo com um levantamento feito pelo Instituto Polis na cidade de São Paulo, homens negros são os que mais morrerram pela COVID-19 no Brasil: são 250 óbitos pela doença a cada 100 mil habitantes. Entre os brancos, são 157 mortes a cada 100 mil. Entre as mulheres, as que têm a pele preta também morreram mais: foram a 140 mortes por 100 mil habitantes, contra 85 por 100 mil entre as brancas. Outro levantamento, feito pelo IBGE, mostrou que mulheres, negros e pobres são os mais afetados pela doença. O que explica essa maior mortalidade e chance do desenvolvimento de formas graves da doença são as condições de moradia, transporte e trabalho dessa população que impedem que se isolem e se protejam de maneira adequada. 

Esses dados nos lembram que o risco de infecção pode até ser o mesmo para todos os alunos que se submeterão a prova (e deveria ser evitado), contudo as chances de receber o tratamento adequado e não infectar suas famílias é bem diferente entre pretos e brancos, pobres e ricos, moradores de casas pequenas na periferia ou de grandes apartamentos em bairros nobres. E o Ministério da Educação falhou em oferecer um protocoloco sanitário que garante a saúde desses estudantes.

#ADIAENEM e responsabilidade coletiva


O Enem se tornou a porta de entrada para a grande maioria dos estudantes que desejam cursar uma universidade e é uma ferramenta importante para a democratização do acesso ao ensino superior, principalmente por meio de programas como Sisu, Prouni e Fies. Entretanto, a crise causada pela pandemia tem reforçado as desigualdades existentes no país, especialmente na educação. Sendo assim, manter a realização da prova é ignorar a realidade na vida de Kimberly e de tantos outros jovens que enfrentam dificuldades semelhantes e veem na educação uma oportunidade para realizar seus projetos de vida.

Apesar da importância do ENEM no cenário nacional, não deveria ser aceitável realizar este Exame tão significativo para a educação em meio ao agravamento das infecções e mortes por Coronavírus no país. Os cuidados e prevenções contra a disseminação da Covid-19 devem ser um pacto em favor da saúde pública coletiva de todos e para todos.

A educação é um direito que precisa ser assegurado para todos os brasileiros, sejam eles de periferias ou de regiões mais privilegiadas. Exercê-lo não deveria colocar em risco a vida de ninguém e o acesso a ele necessita ser universal para que não aumente as desigualdades que temos no país.

Amir Cardoso
    Metade de mim é curiosidade. A outra metade é revisão. Amante dos livros, esportes, música e podcasts. Nasci em 1994, sapatão, pessoa trans não-binária e preta. Bacharel em Letras pela UFMG, amo escrever, mas amo mais ainda revisar. Coleciono sonhos e livros não lidos.

Ester Borges
  • Colaboradora de Educação

Desde 1997, Ester anda pelo mundo e o experimenta de forma curiosa. Talvez seja por isso que estuda relações internacionais na USP e tenta se convencer que é uma pesquisadora. Frequentemente considerada otimista, ainda não tem grandes conquistas, porém acredita que descobrirá entre o amor ao próximo e a militância política algo que fará a humanidade se relacionar melhor. Provável que já tenha lido ficção demais.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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