25 de abril de 2015 | Ano 2, Edição #13 | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
O eterno É (e uma explicação esdrúxula para o meu comportamento)

Passei quase um mês escrevendo esta pauta enquanto escutava essa playlist, a qual foi feita uns quatro anos atrás em conjunto com um montão de gente, para uma peça que se chamava “Kairós – o eterno É”. A peça falava sobre esses dois tempos: o linear – tempo mensurável, sequencial, externo a nós, do deus Chronos – e o circular – tempo imensurável, interno, do deus Kairós. Foi durante a concepção do roteiro dessa peça que entrei em contato com diferentes concepções de tempo.

Não é difícil entender Chronos e Kairós, basta viver. Qualquer ser existente é vulnerável à passagem do primeiro, que nos encarna e carcome. Mas o segundo é apenas para quem se é vivo, para quem sente aqueles momentos únicos e imprescindíveis que, no momento em que terminam, você sabe: ele é também eterno. São momentos preciosos e ensolarados, que podem acontecer a qualquer hora, principalmente quando você menos espera.

Sabendo desses conceitos e tendo vivenciado essa experiência kairótica quando ajudei na tal peça, foi quase como automático pegar essa pauta para escrever aqui na Capitolina, na edição sobre tempo. Fui pesquisar um pouco mais sobre esses deuses e descobri um terceiro deus regente de um tempo também, Aeon, o deus dos tempos dos deuses.

Passei muito tempo pensando em como contar sobre esses três tempos, em como explicar que o tempo não é uno, mas não cheguei em nada, além de uma estranha teoria e muitos rabiscos em meu caderno. E, enquanto ia pensando, Chronos apertava o prazo até eu ter que me contentar com o fato de que o que me restara era mesmo isso: poucas palavras e muitos rabiscos coloridos. Talvez isso seja porque falar de dois tempos não sequencias não faça sentido em palavras sequenciais. Talvez isso seja porque já falei tanto sobre isso quatro anos atrás que, mesmo que quisesse, não sairia nada. Não sei. De qualquer forma, as explicações para meu comportamento são esdrúxulas. Mas o que no tempo não é esdrúxulo?

Assim, deixo aqui o único pensamento que tive ao pesquisar mais sobre esses três deuses e abro meu caderno para as imagens e palavras que com certeza são bem melhores do que todas as outras tentativas (tão falhadas que nem me dignei a mandar para a revisão) e um alô pra Dora, que ilustrou esse não texto de forma tão genial que enchi linguiça aqui só pra ilustração dela entrar (te amo, Dora).

Gosto de pensar em Chronos como uma linha reta no papel. Ela tem começo, meio e fim; podemos segui-la sem surpresas. Sabemos de onde sai e para onde vai. Kairós, por sua vez, é círculo perfeito, sem começo ou fim, eterno em si mesmo. Aeon, no entanto, é a própria folha em branco. A paz e o desespero do infinito, de se poder fazer tudo o que lhe vier a mente, sem qualquer filtro ou censura.

página em branco,
desespero
mais um grito
recupero.

WP_20150425_006_2

WP_20150425_004_2

WP_20150425_015_2

WP_20150425_008_2

WP_20150425_007_2

WP_20150425_003_2

WP_20150425_012_2

WP_20150425_001_2

WP_20150425_009_2

WP_20150425_010_2

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

  • nice

    Putz, que combinação maravilhosa esses textos e rabiscos coloridos. Certeiros e marcantes. Parabéns 🙂

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos