13 de abril de 2015 | Ano 2, Edição #13 | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
O fruto de seu tempo – homens (não tão) ilustres, mulheres mais ainda e como revolucionar sua época

“Kant foi um pensador à frente de seu tempo”, “Marx foi fruto da sua época”. A gente sempre vê essas frases relacionadas a personagens importantes da nossa sociedade, que de alguma forma ou de outra marcaram seu tempo com seus atos e/ou pensamentos e que continuam tendo importância até os dias de hoje.

Filósofos, navegadores, pensadores econômicos, cientistas, biólogos, antropólogos… Todos eles têm em comum o fato de serem homens. Os protagonistas da nossa história em suas diferentes épocas, das invenções revolucionárias e das ideias que mudaram nossos pensamentos são sempre os mesmos – homens, em geral brancos e ocidentais. Às vezes um ou outro fora desse padrão, mas ainda assim homem. E o que isso demonstra? Que mulheres não foram capazes de influenciar seu tempo em épocas passadas? Que nossas condições desiguais de acesso às mesmas oportunidades, que já foram muito piores do que são hoje, nos impediram materialmente de desenvolvermos ideias e experimentos que revolucionassem o mundo? Sim e não. Mais não do que sim. E explico.

Vocês devem saber um pouco sobre a Revolução Francesa, que foi um movimento que teve suas origens no Iluminismo, lutou contra a monarquia absolutista e se espalhou pela Europa como fogo no palheiro. Esse episódio histórico têm influências até hoje nas nossas vidas, tendo sido o predecessor da concepção de Direitos Humanos e das reivindicações pela ampliação da democracia e do sufrágio. Todos sabemos, ou no mínimo podemos imaginar, que esse movimento esteve muito centrado na garantia de direitos ao homem branco, burguês e ocidental e quase não questionamos isso, porque, afinal de contas, esses revolucionários eram “frutos de seu tempo” e ainda não tinham contato com os questionamentos do movimento de mulheres, certo? Errado.

Quase ninguém sabe que, já naqueles idos de 1791, uma mulher, escritora e feminista reivindicava nossa igualdade formal perante os revolucionários franceses. Ela se chamava Olympe de Gouge e é a autora da “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã”, em alusão ao documento mais importante da Revolução de 1789, a “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”. E o que o movimento revolucionário que proclamava “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” fez em relação a essa reivindicação? Isso mesmo, a declaração foi obviamente rejeitada e o movimento mandou Olympe para a guilhotina, em uma escolha consciente de apagar da história da Revolução Francesa qualquer indício de luta feminista.

Algum tempo depois, mais um movimento revolucionário se desenvolve – o socialismo. Luta de classes, expropriação dos meios de produção, trabalhador contra patrão, classe operária contra classe proprietária e… nada de espaço para as mulheres. O feminismo seria uma luta secundária ou até uma pauta indesejável, já que fragmentava a classe trabalhadora (como se já não fosse fragmentada pela divisão sexual do trabalho, baseada na diferença entre os gêneros). A luta feminista era vista, e é ainda por alguns setores da esquerda socialista ortodoxa, como uma reivindicação pequeno-burguesa, porque a revolução operária por sí só extirparia todas as diferenças sociais, dando poder aos trabalhadores. A teoria marxista e seu principal expoente, Karl Marx, quando confrontados com críticas a esse aspecto evidentemente machista, logo recebem em sua defesa: “Marx era fruto de seu tempo!” Como ele poderia pensar nos direitos das mulheres quando estava ocupado demais imaginando o mundo perfeito da revolução socialista, não é mesmo? Hm, não.

Marx foi contemporâneo de muitas críticas feministas e viu o movimento de mulheres se fortalecer cada dia mais. Mas acabou escolhendo o caminho que a maioria dos homens intelectuais escolhe, o caminho que diminui as pautas femininas e nos secundariza na luta. Muitas mulheres enfrentavam jornadas ainda mais abusivas que as dos homens, recebiam salários menores eeram responsabilizadas pelo cuidado das crianças e da casa. Ou seja, aquela velha história da jornada tripla, e até quádrupla, feminina, que pouco ou quase nada mudou; já era pauta de luta das mulheres trabalhadoras na época. Foi inclusive pela luta de mulheres socialistas que o Dia Internacional das Mulheres surgiu, a partir dos esforços da socialista alemã Clara Zetkin.

Eu poderia me estender por parágrafos e parágrafos de anedotas em que os direitos das mulheres foram secundarizados, que nossas reivindicações ficaram esquecidas, que nossos inventos revolucionários foram sequestrados, tudo isso praticado por homens ilustres. Mas quero apenas com isso derrubar a falácia do “fruto de seu tempo”, que serve só para “passar pano” para homem que foi, sim, machista. Já ficou mais do que na cara que esses revolucionários ilustres sabiam muito bem que posição estavam adotando frente as reivindicações das mulheres.

Quero também que mais atenção seja dada às mulheres ilustres (e às não-ilustres) que foram esquecidas pela história, que é a história patriarcal, a história dos homens incríveis que, bem… guardado o devido respeito a sua influência, não foram tão incríveis assim. Está na hora de parar de endeusar o mero mortal cara-pálida e de defender o indefensável nas condutas desses homens. A história já é suficientemente machista.

Agora vamos ao que interessa: este texto era para tratar de pessoas que mudaram o mundo e como VOCÊ pode fazer o mesmo! Então elaborei um pequeno guia de atitudes que talvez ajudem:

  1. Não se cale: Migas, depois de todas essas histórias que eu contei, aprendam com essas mulheres esquecidas que nós não nos calamos, nós não nos calaremos! Questione sempre as atitudes opressoras, não deixe passar, não “passe pano”. Confronte a autoridade daquele professor que faz piadinhas machistas, pegue no pé do seu amigo que é abusivo com a namorada, se coloque do lado da menina zoada por ser gorda.
  2. Atue no seu meio e empodere mulheres: Agora que você já não se aguenta mais quieta frente a atitudes opressoras, organize-se! Crie uma publicação feminista (vem dominar o mundo com a gente!), um coletivo de garotas, um grupo de estudos de ciências exatas, um jornal na escola, oficinas de arte… Enfim, o que estiver ao seu alcance para dar mais voz e protagonismo a si mesma e a outras mulheres. Já basta de falarem, produzirem e levarem todos os créditos por nós, não é mesmo?
  3. Leia mais mulheres, conheça o “outro” lado da história: Para desestigmatizar a concepção de que o mundo foi feito por homens, é preciso muito trabalho. A impressão que nos passam é a impressão que fica: quase não existiram mulheres importantes na história. Mas saiba que essa é uma armadilha que uma vez armaram para as mulheres que ousaram questionar, e estão armando para que nós não acreditemos no nosso potencial de mudança, de influência no mundo e na história. Para se inspirar, leia mais mulheres, conheça as invenções que foram feitas por mulheres, resgate as personagens que foram para a guilhotina… Isso, mais do que qualquer guia que eu possa fazer, servirá de inspiração.

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Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

  • Carolina Monteiro

    Texto incrível!
    Realmente não somos informadxs sobre as mulheres que fizeram coisas importantes na historia da nossa sociedade.
    Sinto falta de ensinarem sobre isso na escola.

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