2 de agosto de 2017 | Ano 4, Edição #36 | Texto: | Ilustração: Sarah Roque
Por que estão querendo que o funk vire crime? Entrevista com Renata Prado
Criminalização do funk

Em maio desse ano, uma pessoa da sociedade civil, como eu e você, propôs no site do Senado Brasileiro que o funk fosse transformado em “crime de saúde pública“, por afetar negativamente “crianças, adolescentes e famílias”, com o dizia o autor da proposta. Como a ideia foi apoiada virtualmente por mais de 20 mil pessoas, ela foi encaminhada para uma Comissão Especial no Senado, onde poderá ser analisada pelos nossos senadores e ser transformada em Projeto de Lei, caso aprovada. Ou seja, o funk corre o risco de ser considerado, por lei, um crime. Dá pra imaginar, uma expressão musical e cultural sendo considerada crime? Estranho, né? Mas você vai ver que não é a primeira vez que isso acontece na história do nosso país!

Nós da Capitolina quisemos falar um pouco sobre funk, cidade e outros temas, e fomos bater um papo com a Renata Prado. Renata tem 27 anos, é estudante de Pedagogia na Universidade Federal de São Paulo; pesquisadora na área da educação partindo da temática da Lei 10.639/10, que estabelece a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira” no currículo oficial da rede de ensino; dançarina de funk; apresentadora do programa web Funk TV Visita; produtora executiva da festa Batekoo SP e diretora da Frente Nacional de Mulheres no Funk.

Izabela – Capitolina – Você é uma das produtoras de uma festa de origem baiana chamada Batekoo, de ritmos black, entre elas o funk. Como acontece a festa e qual é o seu público?

Renata – Atualmente a Batekoo acontece em quatro cidades fixamente: São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro e Brasília, já teve edições em Fortaleza e Belo Horizonte. Todas as pessoas são bem-vindas na festa, desde que não sejam preconceituosas, mas o protagonismo é desencadeado por jovens negros, especialmente as categorias mulheres negras e LGBTs negros. É um espaço muito plural, tem de tudo na Batekoo. É um lugar que tem um público da periferia que tem uma bagagem cultural mais amplificada, e os periféricos que colam na Batekoo são diferenciados, já têm um contato maior com o empoderamento negro. E isso é muito importante pra nossa juventude porque a gente não tem isso, né? Esse lance de empoderamento. Então a gente acredita no empoderamento através da estética. Isso já acontecia nos bailes funks, de soul, do movimento black, em 1960, 1970, a busca da identidade através do visual, pela estética, e a Batekoo perpetua isso nos dias de hoje em outra configuração.

Izabela – Capitolina – Muito se fala de “direito à cidade” como um direito de desfrutar e circular pela cidade livremente e que deveria ser de igual acesso a todos, mas que nem sempre é, por várias razões. Você acha que o funk assume um papel quando se pensa em direito à cidade? Pergunto isso porque se percebe, no ambiente urbano, um forte conflito com relação ao funk, o que motiva iniciativas como a de proibição dos fluxos (bailes de rua) e até mesmo a de criminalização do funk, proposta nesse ano.

Renata – Primeiro que esse Projeto de Lei é inconstitucional. A gente tem um Estatuto da Criança e do Adolescente que garante o acesso à cultura e ao lazer, então isso é inconstitucional, vai contra as leis do ECA, né? Precisamos priorizar as leis que já são existentes. Em relação ao direito à cidade, eu acho que tem que ser equalizado, assim como a classe média branca tem o acesso à cidade, sabe? Eu acredito que se temos ruas fechadas na Paulista – e a gente sabe qual é o público que lá frequenta – tem que ter principais ruas fechadas aos domingos nas periferias também, para que aconteçam atividades ligadas à cultura dos jovens que estão ali presentes, como o funk. Não só o funk como o samba, o rap, enfim. Mas a cena efervescente mesmo, que coloca mais de mil pessoas na rua, é o funk. Então é importante, sim, o funk ocupar a cidade. Acredito que precisamos de uma gestão que dialogue com a juventude, mas infelizmente o que a gente vem encontrando nos últimos tempos não é isso, né? E precisamos ocupar a cidade de forma legal. Como eu fui nascida e criada na periferia de São Paulo, e por muito tempo frequentei muito fluxo de rua, sei como é, o quanto é legal, o quanto é divertido, mas sei também o quanto incomoda as pessoas. Eu acho que se precisa pensar em uma coisa que dialogue com os dois: não incomodar as pessoas, e a juventude ocupar a cidade de uma forma mais organizada, no sentido de construída coletivamente com os jovens que estão na periferia. Mas a gente precisa de pessoas dispostas para isso, e infelizmente não é o que está tendo atualmente no governo.

Izabela – Capitolina – No texto da sugestão, o autor se refere ao funk como uma “falsa cultura”, e isso é bem comum, as pessoas falarem que o funk não é cultura. Quais você acha que são as implicações desse tipo de pensamento para a juventude que curte o funk?

Renata – Dizer que o funk não é cultura é ignorar uma história da cultura negra que nasceu em meados de 1960 com um cara chamado James Brown, né? A gente tá falando de um funk que traz uma carga política e busca um meio de fortalecer identidades do povo negro, e foi através de movimentos como os bailes de funk, conhecidos como bailes black, que a juventude negra se identificou enquanto sujeito negro, e se emancipou a partir desse reconhecimento de identidade. O funk atual tem suas problemáticas, sim, resultado da falta de apoio governamental por parte da gestão da nossa política para com a juventude da periferia. Não tem como você cobrar educação de uma juventude que é mal educada, mal educada no sentido do Estado não oferecer, minimamente, escola, educação de qualidade, para esses jovens. O Estado não oferece casas de cultura qualificadas para eles, como querem exigir postura de cultura? Então é um absurdo o Estado simplesmente criminalizar um movimento que, tem suas deficiências, mas é orgânico e
é legal, e tem que ser reconhecido como legítimo, porque dialoga com muitos jovens. As pessoas têm que entender que o funk não nasceu agora, nasceu há muito tempo, e assim como hoje é criminalizado, o samba já foi criminalizado um dia: o que acontece hoje com o funk, nada mais nada menos é do que o que aconteceu com o samba em 1920. Em 2017 a gente reconhece o samba como cultura. Será que a gente vai ter que chegar em 3017 pra reconhecer o funk como cultura?

Izabela – Capitolina – Em reportagem veiculada pelo jornal Nexo, o pesquisador Danilo Cymrot argumenta que a ideia de criminalizar o funk é resultado de uma dificuldade da população em lidar com temas complexos, “como violência, tráfico de drogas, sexo, educação e os jovens”, acreditando que “todos os males da sociedade que não têm uma solução fácil são provenientes de um gênero musical”, o funk. Você concorda? Nesse sentido, qual você acha que é a influência que iniciativas como o Festival Contra a Redução da Maioridade Penal, da qual você participou, têm sobre esses debates?

Renata – A sociedade não está capacitada pra discutir tais temas porque simplesmente não foi educada pra discuti-los. A gente vive em um país onde a gente tem como jargão que política, religião e futebol não se discute, e se discute sim, porque a intolerância religiosa se dá por conta da falta de discussão sobre religião. A falta de respeito em relação à cultura do preto e periférico se dá porque o governo não reconhece as nossas ações culturais enquanto legítimas, e prefere criminalizar a reeducar o povo pra compreender tais manifestações. A gente mora em um país em que é tabu falar sobre sexo, drogas, corpo. Violência policial a gente só vê na televisão, por parte da polícia com a população. E se o povo não tá preparado pra discutir tais demandas, é porque não foi ensinado pra eles como se discutir. Pro Estado fica muito mais fácil boicotar eventos que desencadeiam temas nesse sentido. A gente não está educado pra falar sobre isso, e precisa se educar pra falar sobre essas questões. O Festival Musical Contra a Redução da Maioridade Penal foi uma iniciativa de reeducação política do povo da periferia, mas isso foi uma ação de cidadãos e cidadãs que acreditam que a redução não é a solução. Quem teria que fazer isso não somos nós, é o governo.

Izabela – Capitolina – Muitas pessoas que estão na cena funk falaram, a partir dessa sugestão legislativa, que criminalizar o funk seria prejudicar uma rede de geração de empregos que surgem a partir dele. Você pode nos falar um pouco melhor como funciona essa questão do funk gerando empregos e renda?

Renata – Criminalizar o funk é proibir vários jovens da periferia de ter acesso ao mercado de trabalho. O funk também é um mercado de trabalho, mobiliza muitas pessoas. Existe inclusive estudo na FGV que fala sobre a economia, o capital que o funk gira. E eu acho que essas pessoas precisam entender que o funk faz parte da economia do país, ele produz muito, levando em consideração que os cachês dos principais funkeiros hoje são tão altos quanto os dos artistas renomados da MPB. Pensar também que um show de funk mobiliza pessoas no mercado de trabalho desde produção do evento até produção do artista, do vendedor de bebida, à pessoa do cachorro quente, da barraquinha, enfim. Isso também é empregabilidade, também é um sistema de emprego, também sustenta famílias. Então criminalizar o funk é criminalizar o trabalho de cidadãos e cidadãs que sobrevivem de forma independente, e, consequentemente, acabando com o funk, também vai acabar com a renda de trabalho dessas pessoas, inclusive que geralmente são chefes de família. MC de funk também é chefe de família, ele que costuma sustentar a casa… Porque estamos falando de uma classe social pobre, essas pessoas precisam fazer algo pra manter a sua vida, e o funk proporciona isso.

Izabela – Capitolina – No texto da sugestão, o autor fala que o funk é um desrespeito às mulheres. Na pesquisa de mestrado que desenvolvi sobre o tema, parti dessa ideia, e me aproximei das mulheres diretamente envolvidas no funk para saber o que pensavam. Por um lado, elas apontavam algumas letras de música como desrespeitosas; por outro, falavam de uma grande carga moral nesse tipo de visão presente no texto da sugestão legislativa, como se falar de sexo e de mulheres fosse automaticamente condenável. O que você acha disso?

Renata – Moralidade existe em tudo quanto é cultura, mas no funk isso é muito maior, né? Principalmente porque a gente tá falando de corpos em sua maioria negros e periféricos. Então, realmente, eu acho que existe uma faca de dois gumes no funk. O problema não é falar putaria, o problema é como se fala essa putaria, e cade vez mais a gente se depara com a falta de educação. Esses MC’s de funk retratam isso em suas músicas porque é assim que eles enxergam as mulheres, porque a gente vive numa sociedade patriarcal e machista, e eles vão reproduzir esse machismo na letra de música, porque o funk é nada mais nada menos que o cotidiano dessas pessoas que tá sendo narrado em música. Então isso só prova que a gente educa a nossa juventude com posturas machistas, e isso reflete nas músicas de funk. As garotas dançam porque elas também são condicionadas a pensar assim, porque o machismo
se dá de uma forma muito educada, então a gente é educada de forma machista. E também tem o lance do pudor, né? Porque não é só porque é putaria que é machismo. Tem putaria que é colocada em música que favorece sim as mulheres, e a gente gosta de falar de putaria, sim, porque isso não é um tabu, falar de sexo não deve ser um tabu. É um tabu pra mídia, porque pra gente mesmo não é, então a gente fala de sexo de uma forma muito natural. Desde que não nos ofenda, as minas vão dançar e rebolar sim! E se rolar ofensa nas músicas, as minas simplesmente fazem
outra música rebatendo os caras, sabe? Então é um erro achar que no funk as minas não têm opinião própria, que as minas no funk não são feminista, que as minas no funk não se valorizam. A gente tem noção do nosso corpo, a gente sabe que nosso corpo é nossas regras, e que a gente pode fazer dele o que a gente quiser.

Izabela Nalio Ramos
  • Colaboradora de Sociedade

Izabela, paulistana que às vezes queria voar por aí, mas tenho um Sol em câncer que fala alto. Já quis ser cantora, sereia, nadadora, jornalista e professora. Hoje, sou cientista social e antropóloga, e nos últimos anos trabalhei como pesquisadora em temas que amo: manifestações culturais, juventude, feminismos e relações raciais, de classe, gênero e sexualidade, tentando misturar Brasil com Egito e aproximar vários interesses. Sou daquelas que acredita que educação e arte/cultura podem ser meios de transformação, e que fica com brilhinho nos olhos quando vê isso rolando. Também adoro descobrir músicas, receitas de comida gostosa, e ver memes, gifs e vídeos que a gente ama e respeita.

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