26 de outubro de 2015 | Sem categoria | Texto: | Ilustração: Isadora M.
O futuro não chegou

Ontem, no domingo, comemoramos o tema da redação do Enem “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, a sensação é de que o país finalmente progride, avança, caminha rumo ao futuro. No próximo domingo, no entanto, vamos às ruas contra o projeto de lei absolutamente retrógrado do nosso presidente da Câmara, Dudu Cunha, que volta a dificultar ainda mais o atendimento às vítimas de violência sexual. Um passo pra frente e dois pra trás?

Comemoramos também a chegada de Marty McFly e não temos hoverboards das quais possamos nos orgulhar. Futuro não é uma ideia tão simples assim.

Talvez por que a nossa ideia de futuro tenha muito a ver com aquilo que a ficção científica nos promete e ela prória, a ficção, se divide em sub-gêneros mais ou menos comprometidos com a precisão científica. Contato, do Carl Sagan, ainda que trate de extraterrestres, tem um monte de ciência aplicada; já Star Wars é uma viagem por completo.

Antes de lamentar um futuro que nunca chega, é preciso pensar sobre o que espera: entender os limites da ficção e que ela também muda de ideia. Se na década de 80  fazia sentido apostar em hoverboards, hoje não faz. As narrativas (os livros, quadrinhos, filmes e jogos) mais recentes exploram a quase onipresença das telas, computadores e da internet, e, pensando por aí, o futuro já parece mais palpável.

Mas não é só a ficção, a ciência também muda – e o futuro junto com ela. Nós pisamos na Lua impulsionados pelo frenesi da Corrida Espacial, durante a Guerra Fria as duas grandes potências, EUA e União Soviética, direcionaram um tremendo esforço técnico-científico ao espaço porque, bem, era isso o que importava então (mais a rivalidade do que o espaço, convenhamos). O fim da guerra trouxe também novas prioridades e toda aquela promessa de visitas à outros planetas nunca aconteceu.

O foco e os interesses da ciência acompanham o resto do mundo, todos sempre em movimento, e também não são neutros. É aquela historinha de que se o esforço aplicado em tecnologia militar fosse transferido para a pesquisa médica, nós já teríamos menos doenças incuráveis. Em Julho desse ano, enquanto fotografávamos Plutão pela primeira vez, Stephen Hawking e outros tantos especialistas, cientistas e pesquisadores escreveram uma carta alertando sobre o perigo da má utilização da inteligência artificial em armas autônomas. Sobre carros autônomos, o professor do MIT David Mindell escreveu:

“Eu penso que a narrativa da autonomia completa pertence ao século XX. É uma narrativa de mecanização industrial que navegou pelo século XX, baseado na ficção científica do século XX. Essas narrativas podem e devem mudar”.

Nós não temos hoverboards: imprimimos membros prostéticos em impressoras 3D, hackeamos nosso corpo, namoramos virtualmente, cogitamos sexo com robôs, roubamos senha de Wi-Fi com nossos gatinhos. Eu já disse, o futuro chegou sim.

Carolina Stary
  • Ex-colaboradora de Tech & Games

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