16 de maio de 2016 | Edição #26 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
O glamour do passado
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“Antigamente as coisas eram melhores.”

É o que dizem as pessoas.

A vida era mais simples. A música era melhor. A bateria dos celulares duravam mais. As pessoas conversavam e se viam de verdade. Não passávamos tanto tempo em frente a telas. As razões pelas quais as pessoas costumam afirmar que antigamente as coisas eram melhores são infinitas. Elas são pessoais, mas dividem um sentimento de nostalgia sobre tempos passados.

A adolescência e a vida adulta chegam trazendo diversas responsabilidades e me parece normal que a infância pareça uma fase da vida onde tudo era mais fácil. Provavelmente era, e todos temos algumas boas lembranças de ser crianças e não ter grandes preocupações.

A verdade é que pintamos o passado com as melhores cores que temos. Eu poderia gastar linhas e mais linhas falando sobre todas as mudanças que a sociedade como um todo sofreu nos anos 1960 e como elas ainda reverberam nos dias de hoje. Sobre como as artes, o cinema, a música, os direitos das minorias e grupos socialmente excluídos ganharam outra dimensão.

O icônico festival de Woodstock (que aconteceu nos Estados Unidos, em 1969) é uma das maiores referências quando se pensa nos anos 1960. Vemos aquelas imagens das pessoas provavelmente tendo os melhores dias de suas vidas, uma grande parte da nata da música se apresentando, o amor livre, a paz e milhões de pessoas reunidas por “três dias de paz e música”. Woodstock aconteceu em agosto, quatro meses antes do Altamont Free Concert. Enquanto o primeiro é sem dúvida popularmente mais conhecido, o Altamont é aquela parte da história que não lembramos tanto. Enquanto a banda britânica Rolling Stones se apresentava, uma confusão começava a acontecer no meio do público, bem em frente ao palco. O clima que já estava tenso, acaba resultando na morte de Meredith Hunter, um jovem de dezoito anos assassinado por um membro da gangue de motociclistas Hell’s Angels (que haviam sido contratados para fazer a segurança dos shows).

É inegável a participação dos jovens em todas as mudanças ocorridas na década. E quando lembramos deles, imaginamos os hippies que negavam o estilo de vida careta e “vendido” dos pais. Mas enquanto parte da população jovem estava em casa protestando, muitos outros estavam nos campos de batalhas na Guerra do Vietnã e sofrendo todas as consequências físicas e psicológicas de estar exposto a um ambiente desses. E mesmo que tenha se feito muita crítica a guerra, ela é, sim, um dos pontos mais fortes dos anos 1960 na história norte-americana, mas ela não é a primeira coisa que nos vem a cabeça quando pensamos nessa década.

Por mais que os anos 1980 seja bem populares, ele não tem a mítica que os anos 1960 tem. E eu posso entender perfeitamente esse apelo ou a ideia de estar num momento da história onde, de fato, está se fazendo história e mudando o rumo do mundo.
É incrível pensar que tanta gente estava fazendo tanta coisa revolucionária e incrível na mesma época. Mas também foi uma época onde muita coisa ruim aconteceu.
Quando o nosso presente não nos parece tão interessante, nós recorremos ao passado, mesmo que esse passado não seja o nosso. As roupas, os cabelos, os costumes, a cultura. Quando dizemos que o passado é melhor, pegamos sempre as partes boas, as partes que achamos que sentimos falta nos dias de hoje.

E será que é possível sentir algum tipo de nostalgia por coisas que não vivemos?
Quando somos adolescentes, não nos sentimos conectados com pessoas da nossa idade e achamos que se vivêssemos em outra época não nos sentiríamos assim. Talvez nessas situações podemos sentir essa nostalgia. É quase uma sensação reconfortante de que o problema não somos nós, apenas gostamos de outras coisas. A internet nos deu a chance de poder se conectar e encontrar pessoas que têm os mesmos gostos que os nossos. Usando tecnologia moderna para apreciar coisas que foram feitas cinquenta, sessenta, setenta anos atrás. Ou não. Ou então você prefere mandar uma carta escrita a punho do que um e-mail tão impessoal.

O passado é uma mão de duas vias. Enquanto temos as coisas boas, precisamos lembrar que também já fizemos muitas coisas ruins. A ciência avançou e nos proporcionou a cura de diversas doenças, mas essa mesma ciência já foi a razão pela qual pessoas negras e brancas foram vistas como diferentes. Vai soar cliché, mas não podemos olhar e glamorizar o passado e esquecer de olhar e viver o presente.

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha tem 23 anos e segundo um taxista paulista não tem sotaque gaúcho. Cursou cinema e tenta se inspirar em Leslie Knope, mas sabe que sempre acaba sendo Ron Swanson ou April Ludgate. Escreve menos do que deveria e trabalha com produção audiovisual.

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Maravilhoso texto, trás muita reflexão

Sobre

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