20 de agosto de 2014 | Ano 1, Edição #5 | Texto: | Ilustração:
O gosto das cores
Ilustração: Bárbara Fernandes.

Ilustração: Bárbara Fernandes.

Os nossos sentidos são inquestionavelmente algumas das melhores ferramentas que possuímos para perceber o mundo ao redor de nós – um dos melhores meios de explorá-lo e conhecê-lo. Apesar da nossa mente ser a responsável por juntar as informações desses cinco caminhos – tato, olfato, visão, audição e paladar – em uma ideia multisensiorial, algumas pessoas nascem com um dom que as permite (apesar dessa talvez não ser a palavra certa, já que o fenômeno é, acima de tudo, involuntário) associar, por exemplo, uma letra do alfabeto a uma cor, uma nota musical a um cheiro, e assim em diante: a sinestesia.

Em outras palavras, quando sinestetas estimulam um de seus sentidos isso causa uma reação imediata em outro deles. E mais: essa associação, apesar de particular para cada uma das pessoas que possui esse dom, é consistente. Por exemplo, se uma pessoa associa a cor laranja à nota musical dó maior, ela sempre, sempre será laranja.

A Isadora M., uma das nossas colaboradoras de Moda e Beleza e coordenadora de ilustração, só foi entender por que certas coisas a incomodavam tanto quando descobriu que tinha sinestesia: “Para mim, o alfabeto da escola que ficava sobre a lousa sempre teve as letras de cores erradas, e eu achava que todo mundo pensava dessa mesma maneira. Eu poderia dizer as cores de cada letra, número, palavra. Lembro que certa vez eu tive uma tiara com o meu nome escrito, e eu achava que a tiara era feia porque cada letra tinha uma cor, mas não era a cor real dela.” Para um verdadeiro sinesteta, suas associações são tão fixas e irrefutáveis quanto o fato de que humanos precisam de água para sobreviver – tanto que qualquer disparidade entre os seus padrões sinestésicos e a “realidade” causa, no mínimo, desconforto.

A sinestesia pode vir em várias formas, algumas mais comuns que as outras: a sinestesia que associa símbolos gráficos a cores (a da Isadora!), aquela que associa sons a cores (chromestesia), a sinestesia de sequência espacial (aqueles que a experienciam veem sequências numéricas, calendários e até mesmo datas como pontos no espaço!), a sinestesia do “toque espelhado” (o sinesteta que a possui literalmente sente a a mesma sensação física que outra pessoa ao vê-la ser tocada, presa, etc), a sinestesia que associa cores ao paladar (comida colorida que não tem nada a ver com picolés de arco-íris e nem mesmo com uma alimentação diversificada) e a sinestesia auditiva-táctil, as mais raras delas.

Tal como daltônicos, a grande maioria dos sinestetas demora pra perceber que tem algo de diferente na percepção deles. A Isadora, por exemplo, só foi descobrir depois de ver um programa sobre, bem, sinestesia: “Lembro que lá falava que algumas pessoas associavam livremente cores, cheiros e outras coisas a músicas, letras, palavras. Foi daí que eu perguntei para alguém se tal pessoa entendia que cada letra e palavra tinha uma cor específica, e daí ela me respondeu que não.”

Enquanto ter uma (ou várias, já que muitos sinestetas possuem mais de um tipo de sinestesia) maneira nova de perceber o mundo abre milhares de possibilidades, assim como nossos sentidos podem nos confundir e nos enganar, a sinestesia pode fazer o mesmo – e pior: apesar de serem completamente naturais pra você, os seus padrões sinestésicos são algo completamente seu, e portanto, o mundo não vai se adequar a eles.

“O lado ruim [de ser sinesteta] é que, como a minha área é a ilustração e o design, quando tenho que escrever algo, eu tenho a tendência de querer colocar as palavras, etc., das cores que as enxergo. E muitas vezes isso não gera um equilíbrio com o restante da imagem, e fico me intrigando achando que está feio e errado se não for de tal cor.” Conta a Isadora: “Muita gente acha estranho e diz que isso é alguma invenção minha, mas não é. Outra coisa que acontece sempre é associar cores aos nomes das pessoas, e isso me atrapalha às vezes pois se eu considero o nome da pessoa de uma cor que eu não goste, eu tenho tendência a achar tal pessoa chata e não confiável. É sério, já deixei de fazer amizades por achar que tal pessoa era de ‘tal cor’ por causa do nome.”

Um sinesteta ainda tem, no entanto, mil motivos para se orgulhar da sua capacidade. Estudos feitos por Richard Cytowic, pioneiro na pesquisa sobre a sinestesia, indicam que a memória e a criatividade dos sinestetas são superiores à da maioria da população. A sua memória declarativa é particularmente privilegiada: segundo os estudos de Richard, eles tendem a guardar muito bem números de telefone, datas, senhas, fatos, eventos, etc. Também foi constatado que o fenômeno é 3 vezes mais frequente em mulheres: Marina Diamandis, Marilyn Monroe e Ida Maria são algumas mulheres notórias que a possuem.

Além disso, a sinestesia já provou que pode ter um uso científico e beneficiar aqueles que, tal como o norte-irlandês Neil Harbisson, nasceram com outra condição: a acromatopsia, que só permite que a pessoa que a possui enxergue em tons de cinza. Em 2003, após conhecer Adam Montandon por via de uma palestra que este ministrava sobre cibernética – focando na ideia de “ampliar os seus sentidos” – os dois começaram a desenvolver um eyeborg, ou seja, um organismo cibernético que funcionaria como um olho. O aparelho, inspirado na percepção sinestética, possui um sensor, atrás da cabeça, que recebe as frequências de luz e as transforma em ondas sonoras. Neil foi “treinado” para associar esses sons a cores, e, pouco a pouco, esses padrões aprendidos tornaram-se uma percepção natural, e evoluíram ao ponto de ele começar a sonhar em cores e ter até cores favoritas, sendo capaz de identificar todas as 360 cores que o olho humano é capaz. Agora ele não só é capaz de reconhecer todas as cores em um quadro de Van Gogh (outro sinesteta, falando nisso), como ouvi-las.

No final das contas, os sinestetas são apenas mais um exemplo fascinante daquilo que nosso cérebro é capaz, e uma maneira diferente, mas também complementar, de perceber e retratar a nossa realidade. “Ser sinesteta me atrapalha em determinadas situações, mas eu gosto de ser assim. Eu acabo vendo tudo mais colorido que as outras pessoas, e adoro isso porque gosto de coisas coloridas”, finaliza Isadora. Acho que num mundo onde tudo é cada vez mais cinza, todos nós gostaríamos de ver um pouquinho mais de cor.

+ referências:
TedTalk de Neil Harbisson, com legendas em português.
Sobre sinestesia que envolve o paladar (em inglês).
Ouvindo Cores.

Bárbara Reis
  • Colaboradora de Cinema & TV

Bárbara Reis tem 18 anos, é paulista e estuda Jornalismo na ECA. Acha que a internet é a melhor coisa que já aconteceu, é fascinada por novas linguagens e tem o péssimo hábito de acumular livros para ler e séries para assistir. O seu pior pesadelo envolveria insetos, agulhas, generalizações, matemática e temperaturas acima de 27ºC.

  • Alice

    Uma vez eu vi um documentário (que infelizmente não lembro o nome) sobre sinestésicos que associavam audição com paladar… Quando eles se encontraram e se apresentaram os comentários foram tipo: “Eu gosto do seu nome, tem gosto de ketchup!” “Não é? E o seu de iogurte!”. Eu, que ainda era criança, acreditava que fosse uma especie de poder mágico (quem sabe realmente não é?).

  • Pingback: Sobre as cores e os sons — Capitolina()

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