4 de janeiro de 2015 | Estilo, Textos Favoritos | Texto: | Ilustração: Laura Viana
O guia da manifestante prevenida

 

Mal começou o novo ano e inúmeras cidades pelo país já receberam a notícia de que, em alguns dias, vai ficar mais caro andar por aí. Em pelo menos nove capitais, a tarifa deve subir entre 10 e 50 centavos, o que pode parecer pouco, mas que é suficiente para reduzir a mobilidade de uma parcela significante da população.

O país presenciou em 2013 a sua última grande onda de aumentos generalizada, e o resultado foi aquilo que todo mundo lembra: muita gente não ficou nem um pouco contente com isso, e inúmeros protestos se espalharam tão rapidamente quanto os reajustes, que foram devidamente barrados em boa parte dos lugares onde a galera tomou as ruas.

E agora, em 2015, a coisa promete não ser muito diferente, e pelo Facebook já podemos acompanhar eventos convidando para os vários atos: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Florianópolis, por exemplo, já somam quase 30 mil confirmados.

Participar de movimentações como essas é uma experiência incrível, mas é normal que muita gente não se sinta completamente preparada para isso, afinal, o que não faltou na última onda de protestos foram notícias de gente machucada ou prisões arbitrárias. Assim, é perfeitamente saudável sentir medo de estar nesses espaços, mas também é bom ter em mente que nem só de bomba de gás lacrimogêneo se faz uma manifestação, e que, muitas vezes, passar por cima disso e ir para a rua do mesmo jeito pode ser muito recompensador: você ganha não só ônibus mais barato, como uma vivência política que vai encontrar em pouquíssimos outros lugares.

Então preparamos esse guia para você, garota esperta, que nesse #verãodopoder pretende se fazer ouvir nas ruas, com aquelas dúvidas de manifestante de primeira viagem e algumas dicas de quem já viveu a tristeza de se encontrar numa manifestação de três horas de caminhada com uma mochila pesada e um sapato que faz bolha e não deseja isso nem para o pior inimigo.

 

O look:

Amiga, esse não é o momento para brilhar. Deixe a maquiagem, os vestidos e as sapatilhas pra outro momento, que a palavra chave aqui é “conforto”. O melhor é se apegar ao básico: calça jeans, camiseta e, se o calor permitir, alguma peça grossa de manga comprida, pra proteger de qualquer intempérie que resolva aparecer pelo seu caminho – sol, chuva, coisas que arranhem e, se você for eu, o chão enquanto consequência de tropeções.

Pros sapatos, a mesma coisa: escolha aquele par com o qual você correria a São Silvestre, de tecido resistente e pelo qual seu pé já esteja apaixonado, e seja feliz sem bolhas ou torções.

Pra quem tem algum problema na visão, o melhor é optar pelos óculos. Pode parecer meio incômodo passar o tempo inteiro com um troço na cara, mas é bem mais chato ficar com químicos irritantes de gás lacrimogêneo presos nas lentes de contato.

Por fim, deixe as bolsas em casa e vá com sua fiel companheira de aventuras: uma mochila bacana, não muito pequena nem muito grande, que será útil para carregar as coisas do próximo item.

 

O que é bom levar?

Água e comida são duas coisas essenciais para se ter consigo em absolutamente qualquer situação (sério, eu realmente não consigo pensar em um momento em que água e comida não seriam adequados), e nesse momento não seria diferente. Em algumas manifestações se anda muito, muitas vezes sem perceber, e, chegando ao final do caminho, você se dá conta de que está com a sede e a fome de quem atravessou o Saara, e é um grande alívio encontrar a garrafinha e a maçã perdidas no fundo da mochila.

O vinagre foi a grande estrela das últimas manifestações, usado para aliviar os efeitos das bombas de gás lacrimogêneo. Elas nem sempre vão aparecer, mas quando isso acontecer, nosso querido tempero de salada perde feio para a eficácia de um outro amigo bem comum em toda casa: o antiácido. Não aqueles efervescentes, mas o leite de magnésia, sabe? Você só precisa fazer uma misturinha de meia medida de água para cada uma do antiácido e levá-la em uma garrafinha (se tiver um borrifador, melhor ainda), e aplicar na pele onde os efeitos estiverem mais incômodos. Para as vias respiratórias, o melhor é beber água mesmo.

Celulares e câmeras fotográficas são outros bons companheiros. Ao longo do trajeto, você pode se desencontrar de amigos ou precisar falar com alguém, então sempre vá com a bateria cheia. Além disso, é bacana ter ferramentas de registro para espalhar o que está acontecendo – se seu celular faz streaming de vídeo, é uma arma ainda mais poderosa para coibir abusos policiais, por exemplo.

Além disso, leve também aquelas coisas que toda mãe sempre avisa: protetor solar e um agasalho, já que boa parte dos atos começa no fim de tarde e acaba de noite e é bem mais legal quando você não volta para casa congelando.

 

E o que é bom NÃO levar?

O básico é deixar em casa qualquer coisa que seja ilegal para não correr riscos desnecessários.

Os instrumentos cortantes também não devem te acompanhar – eu, por exemplo, faço faculdade de artes e não costumo lembrar que pessoas normais não saem por aí carregando goivas e estiletes, mas é meio perigoso esquecer desse detalhe. Tintas e sprays também podem te render dores de cabeça, então tome cuidado.

Por último, esqueça todo o peso inútil. Você não precisa carregar todo o seu material escolar consigo a não ser que queira uma bela dor nos ombros no dia seguinte.

 

Tem outras dicas, tia?

Só mais três e eu juro que acaba: vá acompanhada, porque é bom ter alguém com quem trocar cuidados e conversar durante o caminho, seja bacana com as pessoas ao redor e não hesite em dividir seu lanche ou seu antiácido – é de bom tom e uma manifestação é um dos lugares mais inadequados do mundo para se ser individualista –, e conheça o trajeto, para não ficar perdida a cada esquina.

 

Apesar do que fazem parecer por aí, uma manifestação não é nenhum bicho de sete cabeças – coisas assustadoras às vezes acontecem, mas a gente não pode se deixar intimidar e parar de se movimentar por conta delas. E, com algum pequenos cuidados, é possível se sentir um pouquinho mais segura para sair por aí e arrasar na reivindicação por diretos, indo sempre até onde os seus limites, físicos e emocionais, te permitem. E a gente se vê na rua!

Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

  • naomi

    Parabens pelo texto! é um posicionamento político importante pra revista.
    1° fiquei sabendo que aquelas pastilhas efervescentes de vitamina C também ajudam com o gás. é só colocar um pedacinho na boca.
    2° se rolar spay de pimenta, não passa água pq só vai espalhar a pimenta pra mais lugares.
    bjs, até dia 9!!

  • monoludens

    uma dica boa também é: se informe sobre quais são as pautas e reivindicações. isso nao cabe em mochila nenhuma mas também não pesa nada.
    confesso que já me peguei em algumas manifestações percebendo que não sabia quais eram os pontos exatos da pauta. dai ficava morrendo de medo de algum repórter me abordar e eu virar a versão gauche daquela galera das passeatas anti-corrupção ou de ser massa de manobra rs

  • Vai que…

    Não esqueça também de levar o RG, pra se rolar um encontro básico com a PM…

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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