24 de dezembro de 2014 | Ano 1, Edição #9 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
O guia final para lidar com aqueles comentários de dar nos nervos, ou como lidar com o tio do pavê

Todo encontro familiar é a mesma coisa. Sua tia pergunta como vai sua vida amorosa, mesmo que você nunca em vida fosse contar para ela. Seu tio, entre risadas e em tom de brincadeira, faz comentários que te fazem explodir de raiva por dentro. Sua avó invariavelmente comenta que está muito magra ou muito gorda. E assim por diante. No fundo, tudo o que você quer é que seus familiares te deixem em paz e não acabem com a sua vibe.

“foda-se a sua vibe ruim, cara”

“foda-se a sua vibe ruim, cara”

A verdade é que todas nós passamos por esses perrengues – não importa se amamos ou odiamos nossa família. Parece que nossos familiares fazem um curso de Perguntas Irritantes Para Fazer Para Os Membros Jovens Da Sua Família. E, convenhamos, todos eles passaram na prova final e colocam todo seu aprendizado em prática no natal, quando o número de familiares em um único cômodo cresce exponencialmente por todo o mundo.
Sabendo da dificuldade de lidar com essas perguntas ou comentários, nós da Capitolina pesquisamos os mais comuns e preparamos um guia de como lidar com isso tudo, mas, particularmente, apelidei de O Guia Final de Como Lidar com o Tio do Pavê. Assim, comecemos com a clássica:

– É pavê ou pa cumê?

Para esta maravilhosa pergunta, só existe uma resposta e, minha cara leitora, ela é simples:

– É patê.

A partir de agora, todos os outros comentários têm mais de uma possibilidade de resposta. Tem resposta mal educada, tem resposta bem educada, tem resposta pra educar a família fora dos padrões hétero-normativos. Então, gostaria de deixar ressaltado que, a partir desse ponto, cabe a você que opção usar (ou quem sabe, criar sua própria resposta e incluir no nosso guia), pois só você sabe o que funcionaria na sua família ou não. Outras ideias são apenas absurdas mesmo, mas que dão aquele gostinho de falar! Então, vamos lá!

Quando a parentada decide perguntar da sua vida amorosa:

A grande, a clássica, que em primeiro lugar na lista de todas as pessoas do mundo. Aquela pergunta que, quando falamos de encontrar a família, todo mundo reclama. Todas nós sabemos que chega aquele momento da noite que sua tia (sim, sua tia) vai olhar para você, sorrir e fazer a pergunta vencedora:

– E os namoradinhos?

Como responder essa pergunta que mal conheço e já considero pacas?

Podemos sempre ser sinceras e responder:
– Não namoro, tia, eu pratico o poliamor.
– Você não quis dizer “namoradinhas”?
– Sou assexual, tia.
– Namorado não tem nenhum, mas estou pegando vários caras na balada, tá bem legal.

Podemos ser mais sinceras ainda:
– Como se eu fosse realmente contar sobre isso pra você, né, tia? Convenhamos…

Também é sempre possível acabar logo com o assunto:
– Estão todos bem.
– Vão muito bem, obrigada.
– O de Minas passou mal sexta passada, mas tá tudo bem com o resto.

Sempre temos também a possibilidade de apenas confundir todo mundo. Então quando sua tia perguntar “E os namoradinhos?”, você pode simplesmente dizer:
– Sim.
– Não, muito obrigada.
– Prefiro com açúcar.
– Quarta-feira.
Nesse caso, você tem que falar com muita convicção e, se te perguntarem “como assim?”, você deve repetir sua resposta com mais convicção ainda. Talvez inserir um “É isso” ou um “né?” ajude, de forma a parecer que você sabe exatamente do que está falando e os estranhos são eles.

Em último caso, você pode apenas sorrir, beber ou comer algo, se levantar e ir embora.

Se você tem (ou tinha) alguém com quem namorava, pode acontecer de te perguntarem:

– E o/a namorado/a? É o/a mesmo/a ou já trocou?

Essa também é uma pergunta ótima. Porque além de tratar relacionamentos da forma mais capitalista possível, invade a nossa privacidade e ainda vem com aquele fundinho de julgamento, mas em tom de brincadeira. Assim, podemos entrar na brincadeira de tratar pessoas como objetos de consumo:
– Claro que troquei! Já estava ultrapassado!
– Sim, três vezes. Os homens entram e saem de moda muito rápido.
– Aham, tô com um com jeitinho de vintage agora ótimo! Mas temos que ficar de olho, produto se renova rápido.

Lembre-se que contar a verdade também é sempre uma opção. Então conte a história toda em um ritmo frenético e teste o quanto que seus parentes conseguem acompanhar:
– Na verdade, é uma história engraçada. Eu comecei a pegar o melhor amigo dele pelas costas e daí aconteceu que…
– Nossa, foi difícil esse ano. Ele tinha aquele lance no pé dele e aquilo tirava total o tesão. Eu tentei dar um toque, mas ele não pegou. Então, um dia eu perdi a cabeça e a gente brigou feio…
Não poupe nenhum detalhe! E não se esqueça de falar o mais rápido que conseguir!

Confundir também vale nesse caso!
– Com lascas de amêndoas.
– Paulo Leminski.
– Goiabada, sem dúvidas.

Em último caso, você pode apenas sorrir de um jeito amargo, beber ou comer algo, se levantar e ir embora.

Algumas amigas também comentaram que seus parentes costumam perguntar:

– E onde tá seu/sua namorado/a?

Quando me contaram que essa é uma pergunta recorrente para pessoas que têm namorado, me assustei. Porque só existe uma resposta possível:

– Gente, é natal.

Ou a pessoa está com a família dele, ou ela está fugindo de qualquer família do mundo.

E aí vem aquela situação: você está solteira e sua família sabe disso. Em algumas famílias, isso não é um problema. Depois de você responder que não tem “nenhum namoradinho”, os familiares trocam de assuntos e você sai razoavelmente ilesa. Mas também existe o caso dos parentes que gostam de armar casais e, nesse caso, alguém solta:

– Ah, uma amiga minha tem um filho da sua idade e ele é super bonitinho, estuda [insira algo de prestígio], você vai adorar! Vou apresentar vocês!

Este caso, normalmente, é assim mesmo: heteronormativo. E as coisas que você pode responder são poucas:
– RISOS.
– Aham.
– Cantar essa música em alto e bom som.
Arregalar os olhos e tentar sorrir também é uma possibilidade. Ou apenas sair correndo.
Talvez a melhor opção é fingir que não ouviu.

Também pode vir aqueles comentários caso seus parentes saibam que você é lésbica ou bissexual.

– Mas, fala aí, você não gosta mesmo de meninas, né?
– Não, eu tenho paixão por elas.
– Mas, fala aí, você não é homofóbico mesmo, né?

Mas pode ser pior e te dizerem:
– Ah, mas isso é normal! Você é menina ainda. Gostar de garotas é só uma fase, não se preocupa.

– Não.
– E eu lá estou preocupada? Pois é, não.
– Não é uma fase, chama-se homossexualidade/bissexualidade. Se quiser, posso te passar uns links legais sobre movimento LGBT.
– Morra.
Particularmente, não recomendo este último, mas cada família é uma família.

Além de perguntar sobre sua vida amorosa, muitas vezes nossos parentes também decidem fazer comentários em relação aos nossos corpos, como se já não fosse difícil o suficiente crescer em um mundo que dita qual corpo você deve ter e, por ele ser impossível de se conseguir, já nos frustramos o suficiente. Mas apesar disso, é comum que algum parente faça um comentário como:

– Mas você está magra demais!
– Tá gordinha, hein! Não vai exagerar na rabanada!

E como sobreviver a comentários desse tipo?

Antes de responder qualquer coisa, você deve saber que nada que os outros falam importa. O que importa é você estar saudável e pronta para arrasar a qualquer momento! Então, a primeira coisa a se fazer é bloquear a passagem de qualquer um desses comentários para o seu cérebro processar. Depois, o que você pode fazer é gritar em alto e bom som:

– Meu corpo, minhas regras!

Tirar a sua blusa e dançar Beyoncé depois disso fica ao seu critério.

Outra possibilidade é respirar fundo, pegar na mão da pessoa que te falou isso, olhar no fundo dos olhos dela e explicar o quão absurdo foi seu comentário, dando uma aula de feminismo (e você ainda pode fazer uma digressão para história da beleza). Afinal, todas nós sabemos que quem tem que curtir o nosso corpo somos nós. O resto não tem nada que ver com isso.

Depois de baterem cartão na sua vida amorosa e no formato do seu corpo, começa a melhor parte do jantar de natal: as perguntas sobre sua vida e seu comportamento. Essa é, definitivamente, a minha parte preferida, porque é quando os preconceitos mais diversos aparecem, junto com aquele tom de superioridade de quem “já viveu isso”, que certos adultos gostam muito. Aí, entram aquelas clássicas pra começar:

– Como vão os estudos? As notas estão boas?

– Vão a pé.
– Aham.
– Defina “boas”
– É natal, não é hora de falar sobre estudos!

– Como foi no ENEM?

– Fui [insira aqui a forma de locomoção que você usou para chegar ao local da prova].

– Mas você vai mesmo fazer/ está fazendo [insira uma faculdade pouco prestigiada aqui]? Mas como você vai ganhar dinheiro?

– Sim, vou/ estou. E ganharei dinheiro como todos vocês: trabalhando.
– Vou/ estou e planejo ganhar a mega sena.
– Não, decidi mudar para Medicina. (espera um tempo de reação) Brinks, tô de boa.

Outras perguntas que aparecem são:

– Já deu tempo de se arrepender das tatuagens?

– Não. Já deu tempo de você se arrepender dessa pergunta?
– Já, estou pensando agora em amputar [insira aqui a parte do seu corpo em que você tem tatuagem].

– Já sabe o que quer da vida?

Essa é definitivamente a minha preferida, porque é a pergunta mais abrangente que eu já ouvi. Estamos em constante mudança e a vida não é exatamente a coisa mais planejável que existe. Por exemplo: quando eu era pequena, eu tinha certeza que queria ser bailarina de circo. Mas eu cresci e a vida me levou para outros rumos e, hoje, eu que entrei na faculdade a fim de dar aula de literatura, sou editora de uma revista online. Mas os parentes esquecem de tudo isso e nos perguntam se sabemos o que queremos da vida. E o que podemos responder?

Particularmente, gosto da ideia de citar filósofos:
– Só sei que nada sei.
– Aquele que sobrevive não é o mais forte ou o mais inteligente, mas o que melhor se adapta.
– A ciência é o pensamento organizado, a sabedoria é a vida organizada.

A outra possibilidade é ser sincera:
– Sei lá, cara.
– Quero dinheiro e transar muito.
– Dominar o mundo.
(Este último será a minha resposta neste natal.)

*IMPORTANTE*: Lembre-se de sempre sorrir ao responder aos seus parentes, pois a chance de eles aceitarem suas respostas cresce exponencialmente, mesmo se você os xingar (mas, de preferência, evite xingamentos).

Existem milhões de outras perguntas e comentários complexos que a parentada adora fazer, aqui demos algumas ideias para o pacote simples. O que é importante de lembrar sempre é que não vale a pena criar grandes brigas e se estressar também só consome sua própria energia (a qual você poderia gastar comendo aquela torta de nozes maravilhosa da sua avó ou aquele chester que seu pai fez).

Procure ficar com as pessoas da família com quem você se dá melhor. E, qualquer coisa, sempre dá pra mandar mensagem de socorro pras amigas. E as chances de obter um resultado positivo é maior se suas amigas também tiverem tretas com as famílias delas. Mas, independentemente disso, tente aproveitar de alguma forma. Nem que seja criando um jogo de quantas vezes o seu tio paulista fala “meu”. A verdade é que para sobreviver a tudo isso, só dá pra ser com muito humor.

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Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

  • Luísa Tarzia

    usei o do poliamor e super funcionou! todo mundo ficou chocado, perguntou de novo pra entender direito, eu confirmei e mudaram de assunto pq não sabiam lidar hahahaha 🙂

  • Marina

    Hueheuehue. A dos namoradinhos vou usar eternamente. Otimo post

  • http://www.eatmashit.com Teresa Brandi

    post lindo <3 hahaha,ficou tão legal que até da vontade de anotar pra usar nessas situações chatinhas

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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