10 de junho de 2014 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração:
O impedimento do futebol feminino
Ilustração: Isadora M.

Ilustração: Isadora M.

A Seleção Brasileira de futebol masculino foi campeã mundial em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. Mas você sabia que por muito tempo o futebol feminino foi uma atividade proibida no país?

Em um texto muito importante, Virginia Woolf inventa a história de uma irmã de Shakespeare que tinha vontade de escrever peças de teatro e ser reconhecida por isso. Digamos que nada é fácil para a jovem personagem, somente por ela ter nascido menina. Agora, já pensou se o Pelé tivesse uma irmã que desejasse ser jogadora de futebol na mesma época que ele? O que será que aconteceria com ela?

A resposta, infelizmente, é bastante fácil. A suposta irmã teria que mudar de ideia, enquanto via a seleção brasileira masculina de futebol erguer a taça da Copa do Mundo nos anos de 1958, 1962 e 1970. Em 1965 quando o Brasil estava na ditadura militar, o Conselho Nacional de Desportos (órgão criado na época em que Getúlio Vargas comandava o Estado Novo) publicou uma lista de esportes proibidos para mulheres. Na lista estavam o futebol de campo, de salão e de praia. Apesar de a proibição ter caído em 1979, foi só em 1983, quando o país começava a se redemocratizar, que o futebol feminino foi reconhecido como atividade esportiva com regras e puderam criar ligas e uma seleção nacional.

Antes da proibição escrita em lei, o CND já regulava, desde 1941, quais atividades as mulheres podiam ou não fazer. Entendia-se, ali, que alguns esportes não deveriam ser praticados por mulheres porque com esforço físico e possibilidade de colisão com outros corpos, arriscava-se a principal função da mulher na sociedade e no Estado Nacional: a de gerar filhos. Nos anos 1950, mesmo com o fim do Estado Novo, pouco mudou. Em meados daquela década, aconteceram alguns jogos de futebol feminino, mas, em geral, em eventos beneficentes e executados por vedetes como um espetáculo. Se aquela irmã fictícia que inventamos para o Pelé quisesse reunir as amigas para um futebol como atividade de lazer, encontraria bastante dificuldade.

Mas não foi só por aqui que as mulheres foram proibidas de jogar futebol. No próprio país de Shakespeare, a Inglaterra, o banimento veio em 1921 (por coincidência, mesmo ano da primeira partida registrada entre mulheres no Brasil, na cidade de São Paulo). Quem apoiava a medida na terra da rainha, dizia que a existência de times femininos era uma decadência moral para o futebol inglês. Mas até hoje tem quem veja essa atitude como uma grande dose de recalque dos homens, porque, naquela época, um time composto por mulheres chamado Dick, Kerr’s Ladies F.C. mandava muito bem em campo e jogava de igual-para-igual com equipes masculinas (além de às vezes ganhar dos times dos homens, a equipe feminina era bastante popular e atraía uma galera para acompanhar seus jogos!). Lá, a proibição durou 50 anos e só caiu em 1971.

Quando o futebol feminino tornou-se uma atividade reconhecida no Brasil, na década de 1980, ocorreu um boom de equipes de futebol compostas por mulheres. Mas por que será que até hoje em dia, mais de 30 anos depois, é raro escutarmos falar de qualquer uma dessas equipes? A historiadora (e artilheira!) Giovana Capucim e Silva explica: “A falta de patrocínio, estrutura, apoio e jogos regulares fez com que, pouco a pouco, as equipes fossem desaparecendo. A história do futebol feminino no país diz muito sobre a situação atualmente enfrentada pelas atletas que precisam sair do país para se profissionalizar, já que não conseguem viver do futebol.”

Além disso, a falta de referência pesa bastante. Enquanto os meninos crescem ouvindo sobre os lances fantásticos de Pelé, as pernas tortas e talentosas de Garrincha, as defesas espetaculares de Gilmar, as meninas têm poucos exemplos femininos conhecidos à disposição para serem comparadas enquanto chutam tampinha de garrafa de refrigerante no pátio da escola. A gente espera que cada vez mais o impedimento seja apenas uma das 17 regras do futebol de campo, e não uma prática que afaste as meninas dos gramados!

Pra seguir no assunto… 

  • A Nadja Marin, que foi jogadora profissional de futebol, fez um pequeno vídeo contando um pouco da história do time Dick, Kerr’s Ladies F.C. 
  • Em São Paulo está rolando, de 17 de maio a 13 de julho, a exposição As donas da bola. As fotografias que retratam a relação das mulheres com o futebol e que estão no Centro Cultural São Paulo foram tiradas apenas por fotógrafas do sexo feminino. 
  • Na França, Helena Costa assumiu como a primeira treinadora mulher de um time masculino de futebol profissional no país. A matéria traz outros exemplos de mulheres que se destacaram nesse cargo. 
  • Para as meninas que curtem bater uma bolinha de vez em quando, as garotas do coletivo feminista Non gratxs organizaram o Futebol Riot Grrrl: um evento (que já rolou duas vezes) de futebol feminino. Destaque para a chance de conhecer gente nova e comer delícias veganas. Neste link tem um vídeo da primeira edição. 
  • O GuerreirasProject tem na sua equipe ex-atletas do futebol feminino, além de artistas e acadêmicas, e é através do futebol que elas buscam a discussão sobre direitos civis e igualdade de gênero.
Bárbara Carneiro
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Ilustradora
  • Fotógrafa
  • Colaboradora de Esportes

Bárbara Carneiro mora em São Paulo, curte narrativas cíclicas, tem como gosto mais constante a cor amarela e cria um cacto no jardim.

  • Dani

    Amei o texto Babi! 😉

    • http://thecactustree.blogspot.com Babi

      ‘brigada, Dani! (:

  • Victor L. Figols

    Olá Bárbara,

    Gostei muito do texto, fico muito feliz quando vejo a reflexão do papel das mulheres no mundo do futebol, principalmente, quando essa reflexão parte das mulheres.

    Conheço a Giovana e o seu trabalho, e temos que concordar com ela, a história do futebol feminino no Brasil explica a atual situação da modalidade.

    PS: Também sou historiador, estudo as dimensões culturais do futebol e tenho um blog em que eu escrevo sobre o esporte, se chama O Campo (http://o-campo.tumblr.com/)

    • http://thecactustree.blogspot.com Babi

      Êêê, valeu, Victor! A Gica manda muito bem na pesquisa dela! (:
      Vou acompanhar teu blog, e que bom que você curtiu o texto.

  • Paulo Vinicius Maya

    Ótimo texto.

    Só acho que faltou uma referência a jogadora Marta, principal referência do futebol feminino mundial (e brasileira) que já deu incontáveis declarações sobre a dificuldade de subsídios ao futebol feminino no Brasil.

    • http://thecactustree.blogspot.com Babi

      Oi, Paulo Vinícius! Obrigada pelo seu comentário. Outras pessoas também disseram que sentiram falta de menção à Marta e eu acho mesmo que ela é uma baita referência. Fiquei com receio de escrever sobre ela e a coisa ficar “resolvida” porque a melhor jogadora do mundo é brasileira. Mas fica como dica pra mim mesma: quem sabe mais pra frente não rola um texto só sobre grandes figuras do futebol feminino? (:

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  • pedro

    eu quero saber qual 3 muheres que se destacan no futebol feminino

    • http://thecactustree.blogspot.com Babi

      oi, pedro!

      primeiro de tudo, temos que pensar que é difícil falar de pessoas que se destacam em alguma atividade que não aparece muito na televisão, nos jornais ou em revistas. mas a fifa tem uma parte do seu site só sobre futebol feminino. neste link, há uma lista de grandes atletas do passado que mandaram tão bem que se tornaram embaixadoras da modalidade: http://pt.fifa.com/aboutfifa/footballdevelopment/women/ambassadors.html

      =)

  • Marina Teixeira

    Ei, Babi!

    Cheguei aqui por acaso através de um link no seu blog e achei fantástico o texto. Amo futebol – apesar dos pesares – e sua reflexão me fez pensar em várias situações que já vivi e discussões que já tive…

    Gostei muito da ideia da revista. Percebi muito cuidado envolvido! Parabéns e vida longa!

    • http://thecactustree.blogspot.com Babi

      Marina, só vi agora teu comentário, que alegria!

      Depois de escrever esse texto, saquei que esse é um tema que me interessa super e fico feliz que pessoas como você – muito maneiras! – se interessaram também. 🙂

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