8 de novembro de 2015 | Música | Texto: and | Ilustração: Fabiana Pinto
Maracatu— Mulher encanto, resistência e religiosidade.

“Maracatu é brincadeira séria, é religiosidade, é candomblé. Maracatu para mim é minha vida, minha religião. Maracatu tem dono. Maracatu é respeito. Respeito é a base de tudo.” diz Mestre Joana D´Arc(a brasileira), primeira e única mestra de Maracatu da história, a Mestra da Nação do Maracatu Encanto do Pina. Nós da Capitolina acompanhamos por uma tarde a oficina de agbê que a mestra Joana ofereceu no Teatro do Oprimido, na Lapa cenário de tantos baques de maracatu e de grandes cortejos de carnaval. Com frases como “Para dançar Maracatu a mulher tem que ser exibida! Dancem!” e histórias de luta, a Mestra encantou a todos com sua simpatia. O encontro foi colorido e cheio de energia,  uma grande aula não apenas de música e dança, mas de representatividade afro, respeito e força.

Mulheres aprendendo a tocar agdê durante oficina de Maracatu ministrada por Mestra Joana, no Rio de Janeiro.

Logo no inicio da aula, antes da Mestra Joana ser apresentada, sua amiga e batuqueira Tenily Guian destaca a importância do respeito e responsabilidade naquele ambiente, diz que “Mestra Joana é uma grande amiga, mas ela é uma Mestra de Maracatu importante e por isso não devemos lhe tratar com respeito. Devemos nos referir a ela como Mestra o tempo inteiro.”, reforçando a ideia e importância do respeito naquele ambiente que é forte dentro das Nações de Maracatu. A oficina era majoritariamente feminina e a percussão vinda diretamente das terras pernambucanas não podia ser diferente, além de chamar atenção por possuir mulheres jovens, como Dani Batista uma batuqueira poderosíssima de apenas 15 anos que durante toda a oficina deu um show com seu atabaque e sorrisos, e Jhayanna Chacon, filha da Mestra Joana com o Mestre Chacon da Nação do Maracatu Porto Rico, e que também participa da Nação Encanto do Pina auxiliando a mãe nas oficinas oferecidas em todo o Brasil.

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O maracatu como encontro, união e empoderamento de mulheres.

Apesar da presença de mulheres como as catitas, dançarinas de Maracatu que trazem o encanto e dão vida ao Maracatu como dança com suas saias, giros, leveza e movimentos cheios de alegria,  tradicionalmente o Maracatu é uma celebração comandada por homens como os grandes Mestres de Maracatu do Recife e de outras localidades e, mulheres não possuem tanto espaço para desempenhar funções como reger baterias e comandar uma nação. Mas, na Nação do Maracatu Encanto do Pina, a coisa é bem diferente, quem dá as ordens é uma mulher divertida, forte e poderosa. Mestra Joana durante nossa curta conversa e ao longo da oficina destacou diversas vezes a importância da Nação para crianças e jovens do Bode, uma comunidade do Recife, situada no Bairro do Pina. Ela acredita na mudança através da cultura,  acredita no uso e disseminação do Maracatu como forma de resistência do candomblé e da cultura afro (para saber mais, já falamos de Maracatu por aqui).

 

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Uma forte característica na Nação do Maracatu Encanto do Pina, é a presença de mulheres em posições tradicionalmente ocupadas por homens na história do Maracatu.

Fizemos uma breve entrevista com a Mestra, que você acompanha abaixo:

Capitolina: Como é o trabalho com as crianças na região ?

Mestra Joana: O fortalecimento da nação é o trabalho com as crianças e os jovens. A base é muito voltada para eles. Somos uma comunidade e portanto, uma família. Tem convívio, boa relação com os pais. E responsabilidade também: fazemos trabalho conjunto com a escola, há controle de faltas, por exemplo. Acredito que quanto mais tempo eles estejam na nação, menos ficarão na rua.

Capitolina: Quais são suas ideias para o futuro da Nação e do Maracatu?

Mestra Joana: São grupos da Nação que recebem oficinas. Com a divulgação do maracatu, tem acontecido algo parecido com o que aconteceu com a capoeira: tentam separar o maracatu da sua religiosidade, para assim vendê-lo. Isso não pode acontecer, a origem não pode ser perdida. O candomblé tem que resistir

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Mestra Joana durante oficina de agbê.

Quem for do Rio de Janeiro, se interessar e quiser conhecer um pouco mais sobre maracatu e essa tradição, o Baques de Pina que é um grupo de dança e percussão formado atualmente por Soraia, Vitor, Henrique, Carol, Graça, Tanily, Maria Gabriela, Felipe, Ana Luiza, Paula, David, Natalie, Fernanda Fefi, Fernanda Bueno e Luana, o grupo se dedica ao estudo de Maracatu e realiza encontros todas as quintas-feiras às 21 horas no Centro de Teatro do Oprimido. O endereço do CTO é Av. Mem de Sá, 31 – Centro, Rio de Janeiro – RJ, 20230-150

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Agbê: Um dos instrumentos de percussão tocados majoritariamente por mulheres da Nação do Maracatu Encanto do Pina.

 

Sofia Laureano
  • Colaboradora de Música

Sofia tem 19 anos e mora no Rio de Janeiro. É estudante de Geografia, zineira, capricorniana, gateira, militante feminista sapatão e preta, rolezeira e guitarrista da Belicosa.

Fabiana Pinto
  • Colaboradora de FVM & Culinária

Fabiana Pinto, negra e carioca. Graduanda em Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro em tempo integral e, escritora de suas percepções e experimentações do mundo em seu tempo livre.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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