7 de setembro de 2014 | Edição #6 | Texto: | Ilustração:
O medo como cultura
Ilustração: Isadora M.

Ilustração: Isadora M.

Todo mundo sente medo.

Tá, dentre 7 bilhões de pessoas no planeta, algumas possuem condições raras de ausência de medo (quase sempre por causa de falhas nas amídalas cerebelosas). Fora esses casos de pouca importância estatística, porém, o medo é uma parte tão fundamental da nossa biologia que não tinha como não afetar a maneira como a humanidade se relaciona com o mundo. Até onde se sabe, todas as culturas criaram criaturas e lendas que são resultados não só daquilo que consideram assustador, como também repugnante, obsceno ou errado. O mais interessante é perceber que algumas figuras ou padrões são constantes, ainda que pontuados por especificidades que marcam as diferenças culturais.

Já que esse mês nosso tema é Medo, a Capitolina decidiu falar um pouquinho dessas diferenças e semelhanças nas criaturas mais assustadoras dos folclores e mitologias.

Fobos e Deimos

Na mitologia grega o medo e o pânico eram personificados por dois filhos gêmeos de Ares (o deus da guerra) e Afrodite (a deusa do amor). Fobos – o medo – e Deimos – o pânico – uniam-se ao seu pai nos campos de batalha e trabalhavam em conjunto: enquanto Fobos fazia os inimigos tremerem nas bases, Deimos era o responsável por dar o empurrãozinho final para que fugissem ou abandonassem as formações militares. Tal qual boa parte dos deuses gregos, os irmãos eram representados como seres humanos heroicos ou belos, o que faz sentido para a cultura bélica da Antiguidade grega.

Vampiros

Hoje em dia é difícil encontrar alguém que tenha medo de vampiros. Mesmo antes do sucesso da saga Crepúsculo (e das obras seguidoras), a apropriação cultural dessas criaturas sombrias ficou tão saturada pelo cinema, pelos quadrinhos e pela cultura pop em geral que ela perdeu boa parte do apelo assustador que manteve ao longo dos séculos. O que muita gente não sabe, porém, é que figuras “vampirescas” são uma constante nos folclores de culturas muito diferentes entre si. O que elas têm em comum é a constante da criatura “sanguessuga”, uma fobia humana recorrente, e a associação com a morte.

Na China, por exemplo, existe a lenda do Jiangshi, uma espécie de vampiro-zumbi que nasce quando um gato pula sobre um cadáver (!). O Jiangshi sugaria sangue e Qi de suas vítimas, e teria um bafo tão horrendo que mataria como gás venenoso. Para pará-lo, nada de cruzes ou alhos: basta colocar um montinho de arroz na frente dele, que só poderá seguir o caminho depois que contar um por um. Na Croácia e na Sérvia, por sua vez, era comum acreditar num tipo de vampiro que era gerado por incesto, e que só podia ser morto se uma estaca fosse cravada em seu umbigo. Dentre os maias havia até um deus morcegão, o Camazotz, que tinha aparência monstruosa e era tão adorado quanto temido por suas tendências violentas. Forçando um pouquinho (mas só um pouquinho) a barra, dá até para chamar o chupa-cabra de um tipo de vampiro. Quem pegou a década de 1990 com certeza lembra do monstro ET que supostamente drenava completamente o sangue de rebanhos inteiros durante a noite, inclusive aqui no Brasil, e que nunca foi pego.

Vlad Tepes, que deu origem ao Drácula. Imagem: domínio público.

Vlad Tepes, que deu origem ao Drácula. Imagem: domínio público.

Na História também não faltam relatos perturbadores de gente que começou a brincar com o que não devia. Vlad Tepes é o caso mais conhecido, e inclusive foi quem inspirou a criação do conde Drácula por Bram Stoker. Chamado também de “O empalador”, por razões óbvias e não muito agradáveis, foi um príncipe da Valáquia (província da Romênia) cujo sadismo e crueldade se tornaram lendários. Outra famosa foi a condessa húngara Elizabeth Bathory, que teria “disciplinado” excessivamente uma quantidade imensa de criadas, geralmente mulheres jovens, ao ponto de matar algumas. A lenda é de que banhava-se no sangue de suas vítimas para manter a juventude. Claro que a associação no imaginário popular de mulheres com bruxaria não é desconhecida, e muito mais provável é que a Condessa Sangrenta tenha sido “apenas” uma sadista psicopata poderosa demais para o bem daquelas que estavam ao seu redor.

Lobisomens

Também bastante apropriados pelo cinema, livros e jogos, os lobisomens se “domesticaram” um pouco mais no imaginário popular. Não perderam, porém, a imagem da dualidade, aquela máxima do eterno conflito entre o nosso lado racional e o lado animalesco, ou simplesmente do ser humano contra a natureza. Mais do que a ideia de se transformar em um lobo em si, muitas culturas parecem se preocupar com a questão da transformação em fera. Esses mutantes transformam-se em lobos em culturas onde esses animais existem, mas lendas africanas podem falar de pessoas transformadas em hienas, enquanto que as histórias russas lembrarão dos ursos, por exemplo. O temor por predadores não é difícil de entender numa época em que a luta pela sobrevivência incluía ataques constantes de grandes carnívoros.

Mas, voltando aos lobos, nas primeiras histórias nas quais a licantropia foi registrada quase sempre isso se dá por uma punição divina. O caso mais emblemático está na obra Metamorfoses de Ovídio. No poema epopeico, o rei Lycaon recebe um visitante misterioso e, para testá-lo, serve-lhe carne humana no jantar. Acontece que o visitante era ninguém menos que Zeus, o todo poderoso rei dos deuses gregos, que não gostou nada da pegadinha: transformou Lycaon em lobo, obrigando-o a desejar carne humana dali para frente. Outras lendas falam de assassinos e estupradores que transformam-se em lobos ou feras monstruosas durante a noite – analogia bem clara, que ressoa com a ideia de um “animalismo humano” que parece estar na origem desse mito.

Zumbis

Zumbis nunca estiveram tão na moda quanto hoje. Todo mundo ama… matar zumbis. Ou imaginar um mundo tomado por eles. Ou pensar se seríamos capazes de dar a volta por cima no caso de uma eventual catástrofe zumbificante global. Comparados com os outros monstros da lista, o mito dos zumbis é relativamente jovem, mas tem suas raízes nas tradições religiosas haitianas do vodu. Um zumbi seria um cadáver trazido de volta à vida por um sacerdote. Desprovido de qualquer discernimento, seria normalmente usado como trabalhador braçal para lavouras ou como guerreiro. Os etimologistas normalmente apontam para o termo “nzumbi”, “espírito ancestral” ou “morto” em certas línguas africanas, como origem do nome.

A noite dos mortos-vivos não foi o primeiro filme a trazer zumbis, mas foi um dos mais importantes para defini-los. Imagem: domínio público.

A noite dos mortos-vivos não foi o primeiro filme a trazer zumbis, mas foi um dos mais importantes para defini-los. Imagem: domínio público.

Hoje, o tipo de zumbi mais conhecido é aquele popularizado pelos filmes A noite dos mortos-vivos (1968) de George Romero ou pela série transmídia The Walking Dead: a criatura que devora seres humanos e alastra uma praga contagiosa. Os zumbis de Romero são uma crítica à sociedade consumista descerebrada (sacou?) americana durante a Guerra do Vietnã. E há quem diga que nossa atual febre por mortos-vivos seja reflexo de um medo subconsciente pela tecnologia desenfreada. Legal, né?

Folclore brasileiro

Nosso folclore está cheio de criaturas sinistras, que chegam até nós ainda nas aulinhas de alfabetização em versões mais leves. O próprio Monteiro Lobato deu uma ajudinha ao tornar contos populares originalmente sombrios em amigáveis no nosso imaginário. Veja o Saci Pererê, por exemplo. Como acontece com muitas histórias que surgem do boca-a-boca, não dá para apontar para uma origem definitiva, mas algumas versões mencionam que ele tinha chifres e dentes longuíssimos que usava para chupar o sangue de cavalos (olha o chupa-cabra aí de novo). Para completar a imagem de “menino travesso”, dizia-se que matava pessoas com cócegas!

Outra figura que ganhou uma versão “para menores” é a Mula sem Cabeça, que quase todo mundo conhece pela historinha de que foi uma mulher que seduziu um padre (tadinho dele) e que por isso foi amaldiçoada. Mas algumas histórias mencionam “pecados” bem mais pesados, como canibalismo e infanticídio, enquanto outras simplesmente marcam o momento em que o mito surgiu: até desrespeitar as leis da Igreja ou ser uma mulher muito sedutora já foram motivos para transformar gente em mula que solta fogo pelas ventas inexistentes (por favor, me ajudem a entender como alguém sem cabeça pode ter nariz). Haja moralismo.

Daria para fazer um post inteiro só sobre como nosso folclore e histórias se adaptaram para se encaixarem melhor no gosto popular. A lenda tupi de Iara, “a senhora das águas”, por exemplo, lembra com muita frequência da personagem como uma bela sereia que com a linda voz encantava homens até o fundo do rio Amazonas, onde se afogavam. Menos lembrada é a versão em que Iara era nada menos do que a melhor guerreira de uma tribo indígena e filha de um pajé. Seus irmãos, com inveja, juntam-se certa noite enquanto ela dormia para assassiná-la, mas Iara acorda a tempo e os mata. Quando seu pai vê a cena, porém, acredita que ela é a culpada e a sentencia à morte por afogamento no rio. Nhanderuvuçu, que sabia da inocência da moça, não deixou que ela morresse e a transformou na sereia afogadora de homens que conhecemos e amamos. Bem, depois dessa até eu ficaria vingativa.

Na cidade grande…

Certo. Não sei vocês, mas até hoje eu só vi lobos (a) no zoológico ou (b) no Animal Planet. Tem morcegos numa árvore que fica do lado da janela do meu quarto, mas eu aprendi que eles são frutíferos e quase sempre inofensivos. O cemitério fica bem longe de casa, obrigada, e a TV me ensinou a lutar contra zumbis, caso seja necessário (dica: mirem sempre na cabeça, galera).

Algumas das coisas que causavam medo às nossas avós hoje foram devoradas pelo dia eterno das luzes da cidade, pelo nosso ceticismo científico ou simplesmente pela falta de contato com a natureza. O que não significa que não tenhamos mais medo. Muito pelo contrário: apenas trouxemos as coisas assustadoras para o nosso cotidiano.

As tradicionais histórias de fantasmas vitorianas, por exemplo, são um reflexo da forte obsessão pela morte do período. Mais no presente, o que não faltam são histórias de seres malignos saindo de nossas televisões, celulares e até videogames amaldiçoados! Histórias de carros demoníacos, de bonecos assassinos, IAs mal-intencionadas ou de psicopatas que à primeira vista parecem pessoas gentis. Provavelmente frutos de uma época em que vivemos cada vez mais amontoados em pequenos espaços lotados de objetos de conforto e convivendo diariamente com centenas de estranhos.

Conheço quem colocou a TV voltada para a parede depois de ver esse filme... Imagem: O chamado (The Ring, 2002), de Verbinski. DreamWork Pictures.

Conheço quem tenha colocado a TV voltada para a parede depois de ver esse filme… Imagem: O chamado (The Ring, 2002), de Verbinski. DreamWork Pictures.

Nesse caos de vida, tecnologia e mistério, escolhemos dar sentido e emoção às nossas narrativas pessoais. Nem sempre de maneira alegre. As lendas urbanas e as creepy pastas estão aí para provar. Mas isso fica para um outro texto. 😉

Vanessa Raposo
  • Coordenadora de Tech & Games

Vanessa é carioca, mas aos 25 anos sente que o mundo é grande demais para se pertencer a só um lugar. Por isso, passa boa parte do tempo em paisagens imaginárias e planejando suas próximas viagens - que podem ou não acontecer (“As passagens pra Plutão ainda estão disponíveis, moço?”). Gosta de filmes da Disney e de musicais mais do que dizem ser aconselhável para sua idade. Quando não está pseudofilosofando sobre o papel dos videogames na cultura pop, pode ser encontrada debruçada sobre seu laptop, arrancando os cabelos por alguma história que cisma em não querer ser escrita. 

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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