28 de setembro de 2014 | Edição #6 | Texto: | Ilustração:
O medo de amar é o medo de ser livre
Ilustração: Beatriz H.M. Leite.
Ilustração: Beatriz H.M. Leite.

Ilustração: Beatriz H.M. Leite.

Já falei aqui antes sobre o medo da solidão e como ele, por vezes, nos faz aceitar e manter relacionamentos cocô. Dessa vez, vou falar sobre o contrário: o medo de amar que, muitas vezes, nos aprisiona nessa tal de solidão.

Você está lá vivendo sua vidinha, estudando para provas, saindo com os amigos, acompanhando suas séries, quando, de repente, *BOOM*, conhece uma pessoa que, como diria o Joey de Friends, parece ser a melhor invenção desde o pão de forma. E aí, o que você faz? A resposta lógica seria tentar algo, mas é bem comum fazer a maluca e sair correndo na direção oposta. Há vários questionamentos que nos levam a esse tipo de comportamento: E se der errado, como é que eu fico? E se der certo? E se eu perder?

Acho que o medo de amar está diretamente relacionado ao medo de se arriscar. Porque, nesses casos, é tudo ou nada. Não existe colocar o pé na água pra ver se ela está morna o suficiente; é mergulhar na piscina sem nenhum teste antes, podendo nadar e fazer piruetas ou acabar se afogando, batendo com a cabeça no concreto etc. O medo de amar é, ao mesmo tempo, o medo do desconhecido (não saber no que aquilo vai dar) e o medo do conhecido (achar que, por observação e experiências passadas, sabe no que vai dar e acha que não vale a pena). Podemos, então, dividir o medo de amar entre dois tipos: o medo de tudo dar certo e o medo de tudo dar errado.

O medo de dar certo é aquele que nos mantém na zona de conforto. Reclamar que a vida está ruim é extremamente confortável. Arriscar-se a sair dessa mesmice e mergulhar em uma relação que pode ser muito boa requer coragem de deixar pra trás suas próprias neuras, sua vida bem-estruturada e previsível, e passar a se importar com algo além das suas questões cotidianas. É esse medo que nos leva à auto-sabotagem, a sair correndo. É esse medo que nos deixa estagnadas. A zona de conforto é um lugar muito bonito, mas não nos leva a realizar nada.

O medo de dar errado, acho que vem de um costume de prevenção pra tudo na vida. Mas há uma diferença muito grande entre usar protetor solar pra evitar câncer de pele e deixar de se relacionar pra evitar a mágoa. Isso porque a mágoa faz parte de tudo. É quebrando a cara que a gente aprende, que a gente cresce, amadurece. Quebrar a cara é sempre uma possibilidade. E isso pode acontecer (e acontece) em qualquer contexto, em qualquer situação. Nós nunca estamos realmente protegidos de nada – podemos até vir a ter câncer de pele mesmo usando protetor solar todo dia. Por esse motivo, não vejo muito sentido em evitar viver certas experiências para tentar se prevenir das dores da vida. Essas dores são sempre um risco, não importa o que a gente faça, então, não é melhor aproveitar? Digo, se sempre pode dar errado, prefiro aproveitar enquanto dá certo do que simplesmente deixar de viver qualquer coisa só porque pode dar errado. Fora que ainda existe a possibilidade de dar certo. Vai que dá.

Acho que está certa aquela música do Beto Guedes que nos diz que “o medo de amar é o medo de ser livre”. Apaixonar-se é uma baita de uma inconveniência. Não costuma se encaixar nos planos, na rotina, bagunça tudo, nos desestrutura por completo, nos deixa totalmente vulneráveis. E a vulnerabilidade assusta. É novamente a metáfora da água e da piscina. Amar é mergulhar sem saber se vai nadar ou se afogar. Ser livre é o que nos permite dar esse mergulho. Mergulhar é sempre melhor do que ficar olhando pra água, parada na beira da piscina, pensando “e se?”.

E, já que falei do Beto Guedes, vou falar do Vinicius de Moraes também: “Você que não gosta de gostar / Pra não sofrer, não sorrir e não chorar / Você vai ver um dia / Em que fria você vai entrar.” Porque quem deixa de amar pra não sofrer escolhe outro tipo de sofrimento, que é a prisão de não se deixar ser feliz. Já tem tanta coisa nessa vida que foge ao nosso controle e nos faz sofrer, que me parece uma irresponsabilidade com si mesma escolher nem tentar ser feliz e viver coisas boas. Se eu mergulho e me afogo, é triste, é chato, dá trabalho voltar a respirar normalmente, mas é um risco que assumi, sabendo que, da mesma forma que perdi o ar, eu podia ter mergulhado e me tornado campeã de acrobacia aquática. Mas, se eu deixo de mergulhar, eu me assumo culpada pelas minhas próprias insatisfações, pois foi escolha minha não ser a campeã. É por isso que, pra mim, a grande verdade é que não importa o resultado: nadando ou se afogando, mergulhar sempre a vale a pena. Vai que eu ganho as olimpíadas.

Laura Pires
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Vlogger

Usa seu vício em séries e Facebook como inspiração para os textos, para a vida e para puxar assunto com os outros. Adora ouvir histórias e conversar sobre gênero, sexualidade, amor e relações amorosas – gosta tanto desses temas que deu até um jeito de fazer mestrado nisso. É professora de inglês, cantora e pianista amadora de YouTube, fala muito, ri de tudo e escreve porque precisa. Ama: pessoas e queijo. Detesta: que gritem.

  • Bianca Xavier

    Fantástico! Bela visão, Laura. Parafraseando Fabrício, liberdade na vida é ter um amor pra se prender. Beijo!

  • Julia

    Apesar de eu gostar das análise que fez nas duas perspectivas, eu sinto falta de outras que não se encaixam nesse caso. Por exemplo, quem não queira se envolver por traumas passados (e gerou problemas de confiança, talvez por relacionamento abusivo como exemplo) ou quem perdeu alguém (seja uma pessoa querida de qualquer forma), não parecem se configurar simplesmente na metáfora do comodismo.

    • Laura Pires

      Julia, eu entendo essas questões como medo de sofrer e medo de perder, o que tem tudo a ver com o medo de dar errado. De forma alguma isso seria comodismo. Acho que as pessoas deixam de se envolver como maneira de se proteger mesmo, mas têm motivos diversos pra isso.

  • Cristiane

    Belo texto, faz bastante sentido. Mesmo assim, eu opto por me isolar. Fiz isso a vida toda e sempre me culpei por fugir das coisas, por me “poupar” de sofrer e acabava arrependida por ver minha vida passar sem viver de verdade. Daí, há algum tempo, me envolvi com um cara “encantador” e hoje tomo antidepressivos e passo cada minuto do dia tentando não pensar nele (e cá estou eu falando dele, veja só). O sofrimento foi (é) tamanho que me fez reabrir meus olhos para algo que eu já sabia há muito tempo: não vale a pena. O melhor é continuar me poupando, mesmo. A dr que senti (e ainda sinto) por causa disso é muito maior do que a dor de estar só. Pelo menos pra mim.

  • Marcelo

    Sou viúvo fui casado durante 27 anos nunca tive relações extraconjugais . Um ano de luto e sem querer apareceu e entrou na minha vida uma mulher . Não sei explicar porque mas vivo a cada dia com medo . Medo de perdê-la , medo de ser trocado. Muito medo . Não consigo me livrar desse fantasma e meu dia dia tem sido tentar preservar nosso bom relacionamento. Sei que ela me dá prazer demais. Preciso de ajuda

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.