8 de setembro de 2014 | Edição #6, Tech & Games | Texto: and | Ilustração:
O medo nos games
Ilustração: Jordana Andrade.

Ilustração: Jordana Andrade.

Texto de Carolina Stary & Vanessa Raposo.

A curiosidade matou o gato, diriam nossas avós. E nós também: de susto! Nos filmes de terror é quase sempre daquele jeito que a gente conhece: a heroína caminha por um corredor de casa, no total breu. Ela tinha ouvido um barulho enquanto se preparava para ir dormir, algo entre um sussurro e som de estática, e decidiu conferir. Ao chegar à sala, tudo parece normal, móveis perfeitamente alinhados, a mesinha de centro impecável refletindo um único filete de luz lunar que escapa das cortinas recém-trocadas. A luz vermelha do stand-by da TV ilumina o rosto da heroína e ela se convence de que precisa de um descanso urgente. Então, no reflexo da tela da TV, ela enxerga um vulto se esgueirar para trás do sofá. Nos segundos decisivos de paralisia, considera todas as possibilidades: imaginação? Um bicho? Ladrão? A heroína poderia recuar agora. Voltar para o quarto e pegar o celular, ligar para a polícia ou chamar um vizinho. Mas ela não pode se negar a saciar a curiosidade. Ninguém pode. Seus pés trilham passo a passo o caminho até o sofá, a respiração rasa e alta. Ela não ousa tocá-lo. Para. Prende o fôlego. Então, num movimento truncado de corpo, inclina a cabeça em direção às sombras. E observa o vazio. O vazio de um par de olhos.

Se estivesse lendo um livro ou assistindo a um filme em que algo assim acontece, eu provavelmente surtaria com a burrice da personagem. Por que ela foi olhar atrás do sofá sozinha, no escuro, quando obviamente não tinha coisa boa ali? Mas, em certa dose, será que a curiosidade não me moveria de forma parecida se algo assim acontecesse, se eu precisasse olhar? No fundo, a gente sabe que poucas histórias seguiriam em frente se não fosse pelo ímpeto de personagens corajosos e estúpidos. Corastúpidos.

Nos videogames de terror, o pulo do gato (curioso?) é que é você a responsável por espreitar pelas sombras, futucar os segredos de uma mansão mal-assombrada, fugir de mortos-vivos e olhar sobre o ombro apenas para encontrar um rosto amaldiçoado gritando em seu ouvido. Você é quem terá a gratificante experiência de ser corastúpida. E isso pode ser apavorante.

O primeiro game de terror de que se tem notícia chama-se Haunted House, lançado em 1972 para o Magnavox Odyssey – primeiro console caseiro de videogames a ser comercializado para o grande público. Haunted House não é só o primeiro game de terror, como também um dos primeiros jogos a ser lançado na história dos consoles. Porém, por ser muito complexo e exigir peças externas para ser jogado (dentre outras coisas, ele precisava de uma película que devia ser colocada sobre a televisão, de dois jogadores, e tinha um pequeno baralho com cartões), acabou não marcando muito. Ele nem era, realmente, um jogo muito assustador, mas uma espécie de pique-esconde no qual um dos jogadores era um detetive e o outro, um fantasma, e seguia regras muita parecidas com as de um jogo de tabuleiro.

Várias excursões ao gênero foram feitas nesse primeiro ano. Em especial, foi muito feliz nos text-based games (jogos de texto), com o aparecimento de títulos como The Lurking Horror (1987). Sweet Home, lançado para Famicon (o “Nintendinho” japonês) em 1989, também contribuiu muito para o gênero, já de forma mais gráfica que seus antecessores textuais. Mas foi só no começo da década de 1990 que as coisas começaram a se definir no terror dos games, com a “invenção” do survival horror – ou seja, o “terror de sobrevivência” –, puxada pelo lovecraftiano Alone in the Dark.

Resident Evil 2.

Resident Evil 2.

Se você parar para pensar, vai perceber que talvez tenha sido difícil criar os primeiros jogos de terror. Os jogadores, afinal, estão acostumados a encarar monstros feiosos e perigosos o tempo inteiro, e isso é quase sempre a parte divertida desses games.

O que o survival horror traz para os jogos é a ideia de impotência do seu personagem, a necessidade de sobreviver a qualquer custo a inimigos que são muito mais poderosos que você ou que sequer podem ser derrotados. Afinal, um zumbi não é assim tão assustador se eu posso matá-lo com dois tiros de escopeta e eu tenho um arsenal que daria inveja à Casa Branca. Experimente agora ter apenas uma lanterna. E precisar usá-la com cuidado porque ela chama atenção. Você não quer chamar atenção – mesmo. Aquele zumbizinho capenga já não parece mais tão bobo, não é?

Ainda na década de 1990, o gênero evoluiu com as franquias (até hoje famosas e que chegaram a ganhar filmes conhecidos) Silent Hill e Resident Evil. A primeira mistura terror psicológico com história de fantasmas e a segunda é uma excursão pela sobrevivência contra hordas de mortos-vivos famintos. Nos anos seguintes, porém, as grandes empresas deixaram o gênero um pouco de lado. Ele nunca foi completamente esquecido, mas o foco do mercado em ação chegou ao ponto de afetar as próprias séries definidoras do gênero (os últimos Resident Evil, por exemplo, são muito mais games de tiro do que realmente assustadores).

Há um motivo para isso: existem pesquisas que apontam que esse é um gênero que vende relativamente pouco. Não porque os jogadores considerem chato, mas pelo contrário: os survival horrors se tornaram tão apavorantes que muita gente prefere assistir no YouTube… a outras pessoas jogando! Menos rentável para o mercado AAA, tornou-se terreno fértil para os desenvolvedores independentes, que com poucos recursos financeiros e tecnológicos conseguem dar vida a histórias de morte. Amnesia, Slender e Lone Survivor são apenas alguns dentre os mais arrepiantes jogos criados no meio indie.

Quanto ao futuro, alguns dizem que já é do Oculus Rift, aguardadíssimo equipamento de realidade virtual que está sendo visado não só pelas empresas de videogame, como pela rede social Facebook e para aplicações na saúde, educação e publicidade. Alguns títulos já estão sendo criados tendo o Rift em mente, mas poucos parecem fazer isso de forma tão inteligente quanto Alone. O game coloca o jogador numa sala virtual onde você deverá, uh, jogar um jogo de terror. Até aí tudo bem. O problema é quando os acontecimentos estranhos parecem sair da TV e acontecem na sala onde você está. Terrível.

Para coroar a matéria, decidimos fazer uma pequena seleção de alguns títulos mais assustadores que conhecemos. Dá uma espiada! (Mas contenha a curiosidade.)

Para conhecer o gênero

Amnesia: The Dark Descent – Use o escuro a seu favor para fugir de seres malignos, mas não exagere: sua mente pode começar a pregar peças em você.

Slender (gratuito) – Colete oito páginas de um diário enquanto explora um acampamento abandonado. Não olhe para trás. Aliás, não olhe para nada.

Slender.

Slender.

The Path – Reencene a história da Chapeuzinho Vermelho com seis meninas em fases diferentes da vida. Psicológico e estranho, mostra que cada uma de nós tem seus lobos particulares.

The Path.

The Path.

Alan Wake – Um escritor, que poderia ser o mestre do terror Stephen King, investiga o desaparecimento de sua esposa enquanto criaturas de suas histórias começam a ganhar vida.

Pesadelo: o início (gratuito) – Quem sentiu falta de um saborzinho nacional pode jogar esse game 100% brasileiro. Aqui você encarna um fiscal de obras que acaba passando a noite no metrô de São Paulo e, na tentativa de sair, vai precisar lidar com coisas muuuito esquisitas.

XX

Pesadelo: o início

Retrôs

Lone Survivor – você é um dos últimos sobreviventes de um apocalipse e faz muito tempo que não vê ninguém. Administre suas provisões e tente manter a sua humanidade para continuar são.

Lone Survivor.

Lone Survivor.

You Find Yourself in a Room (gratuito) – Você se encontra numa sala vazia. Digite comandos e perceba que a coisa começa a ficar muito estranha quando o videogame demonstra o quanto te odeia. Text-based game em inglês.

Home – Tempestade, lanterna, casa escura e estranha. Uma narrativa pixelizada de terror inteligente e intimista: boa pedida para quem gosta mais de mistério do que de levar susto.

Home.

Home.

Full-Hype

Para a Vanessa: Futuro Silent Hills, atualmente conhecido como P.T. (Playable Teaser) – Guillermo del Toro (O labirinto do Fauno) e Hideo Kojima (Metal Gear Solid) se juntam no já comprovadamente perturbador novo título da série.

Para a Carol: Alien: Isolation – Amanda, filha da eterna Ellen Ripley, volta (sozinha!) à nave Nostromo em busca do paradeiro da mãe. Será lançado em outubro e promete reproduzir com louvor toda atmosfera angustiante e claustrofóbica do filme homônimo de Ridley Scott.

Carolina Stary
  • Ex-colaboradora de Tech & Games

Vanessa Raposo
  • Coordenadora de Tech & Games

Vanessa é carioca, mas aos 25 anos sente que o mundo é grande demais para se pertencer a só um lugar. Por isso, passa boa parte do tempo em paisagens imaginárias e planejando suas próximas viagens - que podem ou não acontecer (“As passagens pra Plutão ainda estão disponíveis, moço?”). Gosta de filmes da Disney e de musicais mais do que dizem ser aconselhável para sua idade. Quando não está pseudofilosofando sobre o papel dos videogames na cultura pop, pode ser encontrada debruçada sobre seu laptop, arrancando os cabelos por alguma história que cisma em não querer ser escrita. 

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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