27 de outubro de 2015 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: and | Ilustração: Isadora M.
O melhor (e o pior) do ENEM 2015

Nesse último final de semana aconteceu o Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM, e, como vocês já devem saber, essa edição causou. Então, resolvemos fazer uma lista dos melhores e piores momentos do Enem 2015.

SPOILER: Teve o livro da Capitolina sendo citado na redação!

Olha o rascunho da redação da Luisa:

O MELHOR

1) 7 milhões de pessoas pensando em violência contra a mulher

Os temas de redação do ENEM têm como característica (e objetivo) tratar de temas pertinentes à realidade brasileira, e neste ano, eles acertaram em cheio. Considerando as estatísticas apresentadas pela própria prova sobre a incidência de violência contra a mulher no Brasil, a probabilidade de uma vítima estar fazendo aquela prova (entre os 7,7 milhões de candidatos) era, infelizmente, muito grande. E a dela nem sequer saber antes daquilo que era vítima de algum tipo de violência – note como as de caráter emocional/psicológico são bem menos denunciadas do que a física – era igualmente grande.

2) ENEM exigindo que você seja uma pessoa decente pra passar numa federal

Uma das piores coisas sobre vestibulares em geral é que eles são essencialmente conteudistas. Alguns mais, alguns menos, mas este continua sendo um padrão. O que garante que uma pessoa que sabe um monte de particularidades de todas as matérias do currículo escolar será um bom profissional? Por mais que conhecimento acadêmico seja importante, ele é apenas uma parte do que constitui um profissional capaz. Assim, é muito interessante ver o ENEM cobrando um tema ao qual muitas pessoas que se vangloriam de serem “inteligentes” respondem de forma cretina ou nem sequer sabem como responder (pausa para você lembrar daquela pessoa ridícula da sua classe que tira 10 em toda prova de matemática mas que trata mulheres como lixo).

3) Textos introdutórios MARAS!

Teve Simone de Beauvoir, Cecília Meireles, Lygia Fagundes Telles, Gloria Evangelina Anzaldúa, Agostinho Neto…

Isso se deve um pouco ao fato de eu ser 99% de humanas, mas essa é uma prova que me faz sair com uma vontade LOUCA de ler os textos introdutórios na íntegra. Além dos textos escolhidos serem interessantes, foi dada atenção a pessoas de diversas origens, e cuja obra foca em resistência e em dar voz a segmentos oprimidos da sociedade.

4 ) Questões de matemática bem “migas” e que lidavam com bastante coisa do cotidiano

Dentro desse universo de vestibular conteudista, a prova de matemática do ENEM pode ser considerada um exemplo. Um número considerável de questões abordava conteúdos menos complexos do currículo de matemática do ensino médio – combinação, probabilidade, fórmulas mais básicas de geometria, porcentagem – e os relacionava com conteúdos do dia a dia. Basicamente, foi uma prova no clássico “modelo ENEM”, do qual eu sempre gostei bastante.

5 ) Os memes

Sem palavras, apenas imagens podem descrever. Antes rir do que sofrer, não é mesmo?

No Tumblr “Sou feminista e lacrei no ENEM“, foram reunidas algumas redações de adolescentes que arrasaram na prova! O olho chega a brilhar.

Tem até um Tumblr reunindo as maiores pérolas dozomi.

O PIOR

1) Questões potencialmente excludentes

Por mais que a questão citando Simone de Beauvoir seja ótima, provavelmente não dava pra responder àquela questão sem saber que ela era teórica feminista, o que, infelizmente, é um tanto excludente.

Eu amei ver Simone de Beauvoir na prova, de verdade. Fiz vários corações no meu caderno de perguntas, sorri que nem uma boba e tudo mais. Mas foi impossível não reconhecer que qualquer pessoa que não estivesse familiarizada com seu nome e causa teria graves problemas para responder à pergunta. Com isso, não quero dizer que o vestibular só deva cobrar autores que todo mundo conhece, etc. e tal, até porque eu não conhecia muitos dos autores citados. Em outras questões, no entanto, a resposta dependia exclusivamente de interpretação de texto, e não de conteúdo prévio.

2) Tema da redação

O tema da redação é fundamental de ser discutido: fato. O tema levanta espaço para discordância: não. Se formos considerar temas passados das redações do ENEM, muitos abriam espaço para que a pessoa candidata concordasse ou não com a proposição da redação: “publicidade infantil em questão no Brasil” (2014), “Lei Seca” (2013), “movimento migratório para o Brasil” (2012) são temas que abrangem um certo espaço para discordância ou mesmo para pensar efeitos positivos e negativos. A violência contra a mulher só tem aspectos negativos.

O ponto é: uma redação dissertativa – como é requisitado no exame – não deve apenas conter “pontos positivos x pontos negativos” sobre um tema; ela pode ser composta por outras tantas dimensões, como criticar alguma política de combate à violência contra a mulher, ressaltar os benefícios de outra política, falar sobre diferentes dimensões de empoderamento da mulher na sociedade brasileira e relacioná-las com violência doméstica. Existem muitas estratégias, mas, em geral, há pouco espaço na educação para nos engajarmos criticamente com aquilo que aprendemos e, por isso isso sim, há uma dificuldade em “sair da caixinha” e pensar em diferentes alternativas para escrever uma redação bem desenvolvida nesse tema.

3) Ciências da natureza

Prova de ciências da natureza muito complexa que fugiu completamente dos padrões do ENEM, se aproximando dos da FUVEST, extremamente elitista e conteudista.

Acho que falo por todos que prestaram essa prova quando digo que Ciências da Natureza me assustou DEMAIS. Para começar, ninguém que focou nesse exame, fazendo provas passadas para estudar, esperava uma prova dessas. A fuga do padrão ENEM foi injusta não só por desconsiderar o plano de estudos daqueles que priorizaram o ENEM, mas por cobrar uma profundidade característica de exames notórios por seu elitismo, tais como os vestibulares de universidades paulistas.

4 ) Mídia e deboche dos candidatos atrasados

A cobertura da mídia que acha graça na desgraça alheia e, mais uma vez, fez uma terrível cobertura debochando dos candidatos que se atrasaram e perderam a prova. Muitas vezes o atraso pode ser devido a condições precárias de transporte ou falta de acesso a um centro de aplicação da prova próximo ao seu município, ou seja, questões estruturais que estão diretamente relacionadas a quem tem o privilégio da educação no Brasil e quem tem mais facilidade ou dificuldade em acessa-la.

5) Paradoxo

De uma forma mais geral, a prova trouxe muitos engajamentos interessantes: mais críticos, menos ligados ao currículo “puro” que as escolas devem aplicar segundo o próprio MEC. Mas então, surge uma pergunta: uma vez que as metodologias de ensino no Brasil em geral prezam pelo conteudismo, como a prova pode exigir da pessoa candidata que ela desenvolva essa abordagem crítica se isso não é parte do ensino em sala de aula? Surge, em alguma medida, uma lacuna entre o conteúdo e o formato do ensino nas escolas e os próprios requerimentos do exame.    

Debora Albu
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão

Debora é mestra em Estudos de Gênero e é formada em Relações Internacionais. É carioca, apesar de ter passado uma temporada da vida em Paris e todo mundo a chamar de "francesinha" - por vezes acredita ser verdade. Faz parte da gestão da Agora Juntas, um rede de coletivos feministas no Rio de Janeiro. É ciberativista e feminista antes mesmo de entender o que essas palavras significam.

Bárbara Reis
  • Colaboradora de Cinema & TV

Bárbara Reis tem 18 anos, é paulista e estuda Jornalismo na ECA. Acha que a internet é a melhor coisa que já aconteceu, é fascinada por novas linguagens e tem o péssimo hábito de acumular livros para ler e séries para assistir. O seu pior pesadelo envolveria insetos, agulhas, generalizações, matemática e temperaturas acima de 27ºC.

  • Luisa

    Minha deusa, meu tweet ta na capitolina!!! Que amoooor

  • Rachel

    Realmente a Capitolina me ajudou a redigir sobre o tema da redação do ENEM 2015. Quando comecei a escrever sobre a marginalidade da mulher, lembrei do ”post” que a revista havia publicado no Instagram – Se as críticas contra a Dilma poderiam ser contra ao fato dela ser mulher.Esse questionameno de certa forma me ajdou a elaborar o texto e interligar a imagem da mulher impotente e subordinada, sustentada pelos meios midiáticos, à violência doméstica.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos