28 de maio de 2015 | Ano 2, Edição #14 | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
O mito do comunista de aeronave

Você já deve ter lido por aí, nos meandros da Internet, que “comunista de iPhone não é comunista” e/ou variantes. Geralmente, quem fala isso quer dizer que quem quer a superação do capitalismo não pode usufruir de coisas que existem também – e não só – no mundo capitalista.

Antes de entrar no assunto do texto propriamente dito, queria já deixar claro aqui que esse argumento não faz sentido algum. Se o Brasil é capitalista, e se eu moro aqui, eu vivo em um país capitalista. Já que, para viver, eu tenho que beber, comer, tomar banho, me locomover pela cidade, me vestir, eu preciso pagar pelas coisas que me permitem fazer tudo isso. Então é bem lógico: hoje, neste país, assim como na maior parte do mundo, não alimentar o sistema capitalista significa não viver, a não ser que eu seja uma indígena de uma tribo isolada e extremamente protegida.

“Mas, então, se você assume que precisa consumir bens, como você se diz contra o capitalismo?”

Simples: o capitalismo não é o único sistema de produção do mundo. Essa ideia de que essa forma de produzir é a última bolacha do pacote tem muito a ver com a queda da União Soviética, nos anos 1990. A URSS era uma nação que já começou enorme, expandiu seu domínio durante sua história, foi a maior responsável pela queda da Alemanha hitlerista, mandou pessoas para o espaço (sim, já chegaremos lá) e… Era socialista.
Com a queda da União Soviética, o mundo ficou com poucos países socialistas, e a maior parte dos que sobraram são bem pequenos. Em cima desse fato, começaram a aparecer as falas de que o socialismo estava morto, que era um sistema falido, que o capitalismo havia ganho permanentemente essa disputa.

Aí nós, que somos novinhos e nascemos depois que tudo isso aconteceu, crescemos em um mundo já impregnado por esse discurso e achamos, mesmo que inconscientemente, que um mundo capitalista é o único capaz de proporcionar condições de vida boas para todo mundo (ainda que o capitalismo não tenha dado e ainda não esteja dando certo para a maior parte da população mundial). Para intensificar ainda mais essa falsa certeza, temos uma propaganda anticomunista enorme e sutil, que espalha notícias, sempre falsas ou descontextualizadas, sobre os países que ainda são socialistas.

Enfim, tanto não é verdade que os países socialistas são incapazes de produzir tecnologias e outros bens que, como eu disse antes, a URSS produziu até viagens para o espaço! Você já deve ter ouvido falar na escola sobre a “corrida espacial”, né? Ela aconteceu entre a União Soviética e os Estados Unidos, durante a Guerra Fria, e era basicamente uma disputa entre esses dois países em busca do desenvolvimento da tecnologia espacial.

A União Soviética, ainda que não tenha levado nenhuma pessoa para a lua, foi a primeira nação a mandar uma pessoa para fazer um voo orbital em torno da Terra! Isso depois de já ter iniciado a transição para o socialismo há muito tempo.

Ou seja, o desenvolvimento tecnológico é perfeitamente possível (tanto o de aeronaves quanto o de celulares) por meio de uma forma de produção diferente. A única coisa que difere é o motivo pelo qual se produz essas coisas. Talvez as nações não capitalistas até hoje, de fato, não tenham garantido a tecnologia mais avançada para todos os seus habitantes, mas isso ocorreu principalmente porque a prioridade delas era produzir comida e vestuário para toda (e aqui era TODA mesmo) a população, e isso não quer dizer que elas não tiveram capacidade de desenvolver essas coisas sozinhas (vimos pelo exemplo da URSS que é possível), mas sim que as condições econômicas e objetivas do momento (por muitos motivos que não conseguirei aprofundar aqui) faziam com que elas tivessem outros mil problemas maiores na frente.

Para se produzir tecnologia basta ter matéria-prima, quem produza e quem use. O que difere as duas formas de produção é que uma produz muitas coisas para que os mais ricos comprem, e que a outra produz para que todas as pessoas usufruam de algo que vai deixar a vida mais fácil, interessante ou prazerosa.

Então, da próxima vez que um amiguinho for implicar com o seu iPhone, dá de presente um livrinho de História, põe isso aqui para tocar no seu iPhone no último volume e sai divando miga.

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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