7 de março de 2015 | Edição #12 | Texto: | Ilustração: Hanna Seabra
O mito da garota linda e louca (não caia nessa)

Quando uma mulher fala há uma subversão. Essa frase parece exagerada porque, afinal, muitas mulheres falam sobre diversos assuntos e ocupam altas posições de poder. Mas, com um pouco de atenção, percebemos que ainda é revolucionário uma mulher emitir opiniões sobre seus próprios sentimentos, valores e desejos. Um bom método para verificar isso é o teste de Bechdel – baseado em um quadrinho da cartunista Alison Bechdel – que avalia filmes a partir de dois parâmetros: a existência de duas mulheres com nomes na trama, e que essas conversem sobre algo que não seja um homem. A lista de obras que não passam nesse simples teste é enorme. O que nos mostra que a maioria das personagens femininas é criada a partir de um olhar masculino (mesmo que a obra nem seja necessariamente de autoria de um homem).

A falta ou a má representatividade das mulheres na mídia é um problema, porque nossas identidades são construídas a partir das imagens e possibilidades que o mundo nos apresenta. O que vemos em filmes, livros, revistas e programas de televisão exerce uma grande influência sobre nós; é por isso que até sem perceber seguimos padrões de beleza. O que nós acreditamos ser bonito, certo ou agradável é, em geral, construído a partir de valores machistas, racistas e heteronormativos. Por isso é importante exigirmos mais representatividade na mídia, além de procurarmos ver/ouvir/ler os grupos que são historicamente excluídos e silenciados.

Há muita coisa que pode e deve ser debatida sobre representatividade, mas meu tema nesse texto tem um recorte bem específico: o mito da garota linda e louca (que também pode ser divertida, aventureira ou perigosa). Foi preciso dar toda essa volta para enfim começar dizendo o óbvio: a maioria das personagens femininas não tem nada a ver com a realidade das mulheres. No entanto, muitas vezes nós teimamos em imitar a ficção sem entender o quanto algumas histórias são limitadoras. Uma das narrativas mais recorrentes e sedutoras é o estereótipo da garota linda e louca que tem sido perpetuado por filmes e garotos idiotas há anos e já possui algumas variações:

1. A “Femme Fatale”: essa personagem é linda, louca e perigosa. Costuma ser muito insensível e destruir corações dos pobres coitados que não resistem aos seus encantos.

2. A garota aventureira e desequilibrada: Ela é intensa e impulsiva. Seus namorados ficam perturbados com sua instabilidade, mas, no fim do filme, aprendem uma lição sobre a beleza efêmera da vida.

3. A garota doidinha, criativa e sonhadora: Essa personagem pode sofrer crises de ansiedade, doenças terminais ou qualquer problema terrível, mas nada abala seu humor. Ela enxerga a poesia das coisas pequenas, planeja viagens ou eventos com trilhas sonoras perfeitas e encanta a rotina entediante de seu par romântico.

Essas personagens, em suas diferenças, compartilham uma mesma idealização que reduz a realidade feminina a um único parâmetro: ser atraente. A personalidade dessas personagens é construída para que sejam criaturas misteriosas, interessantes ou adoráveis. Elas não são perfeitas, pelo contrário, são todas “problemáticas”, mas seus problemas nunca são tratados como questões reais, são romantizados bem naquele estilo já batido de “complicada e perfeitinha”. O que esse mito diz em entrelinhas não tão sutis é: tudo bem você ter problemas, desde que você os tenha de um modo que entretenha um homem. Tudo que é considerado anormal nessas personagens serve para que seus pares românticos (que são sempre homens já que vivemos em uma sociedade heteronormativa) vivam algo emocionante, tenham uma epifania ou uma história para contar. Mas o problema começa quando deixamos que essas obras de ficção influenciem nossas expectativas; quando um garoto – que não é um personagem, mas uma pessoa real – diz: “eu curto mesmo as garotas que são perturbadas, mas também não precisa ser dessas que tomam remédios tarja preta, porque aí já é demais” (juro que essa é uma frase real que ouvi, não inventei).

O problema se torna insuportável quando nós, garotas, romantizamos nossas próprias existências tentando caber em determinados papéis. Eu já fiz isso. É assustador sofrer crises de ansiedade e depressão por muitos motivos. No meu caso, um deles é porque eu pensava que, se alguém realmente soubesse como eu me sentia, nunca poderia me amar. Não achava que era possível alguém me querer inteira, então tentava transformar a parte que doía em acessórios. Eu encarava meus conflitos como algo que precisava dissimular e, quando não conseguia fugir de mim mesma, sentia que seria sempre dominada pela minha pior parte. Só consegui começar a ser inteira quando entendi que não preciso ser uma mulher adorável e interessante, porque eu sou uma pessoa e posso ter falhas e limites psíquicos – que dizem respeito exclusivamente a mim e a mais ninguém.

Livros e filmes serão sempre recortes da realidade. Algumas páginas ou minutos não dão mesmo conta da nossa complexidade. Não é esse o problema. A ficção é uma coisa maravilhosa, mas pode ser extremamente nociva quando perpetua preconceitos e opressões. O mito da garota louca e linda contribui para que o papel das mulheres ainda seja o de coisas atraentes. Quando tomamos esse parâmetro, a atratividade, como um dever, somos obrigadas a silenciar qualquer sentimento ou opinião desagradável. Aquelas que se expõem inteiras, complexas, falhas e limitadas, como qualquer ser humano, não são admiráveis; pelo contrário, acabam caindo nos mais antigos rótulos: histérica, bruxa, frígida, monstro insensível e louca, no pior sentido. A loucura, afinal, só é considerada interessante quando serve às expectativas e desejos dos outros. Mas nós, que não somos personagens, escrevemos a nossa própria história.

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

  • Allan Ricieri Stuani

    Bela reflexão, Taís Bravo! Coesa, pertinente, e representativamente libertadora!

    Muito obrigado

  • Viviane Rodrigues

    Legal!

  • Ana

    Amei o texto, mas eis o que me aflige: eu até poderia assumir totalmente quem eu sou e tenho certeza que eu seria muito mais sozinha e poxa, eu realmente não quero ser a excluída… é errado pensar assim, porém é inevitável. Estou muito confusa. Uma confusão agoniante! E aí? 🙁

    • Giva

      Ana, não sou especialista no assunto mas acredito que no mundo sempre existe alguém te vai te aceitar por inteiro e mesmo que demore pra isso acontecer é mais importante se sentir bem consigo mesma agindo do seu modo e se aceitando. Você não será excluída por ser humana, acredite em mim. Todo mundo tem suas inseguranças e problemas.

      • Fabricia Aparecida

        Seja vc mesma Ana!

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  • Maria Luisa Vianna

    maravilhoso texto, parabens

  • Fabricia Aparecida

    Fantástico! Amei o texto porque fala aquilo que sempre digo…. pare de ser um personagem e seja você mesma!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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