4 de janeiro de 2015 | Edição #10 | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
O mito “querer é poder”

“Tudo pode ser, se quiser será.” Essa frase motivadora de música da Xuxa sempre me fez sentir meio incompetente. Se basta querer pra conseguir, por que geleias eu passei a vida não conseguindo as coisas que mais desejei? Sabe, se era só querer muito, fracassei feio, porque preenchi o único requisito e mesmo assim não rolou. Dá zero pra mim. Cadê a explicação pra isso? E é por isso, minha gente, que, quando votamos o tema PODER pro mês de janeiro da Capitolina, eu quis logo falar sobre esse mito de que “querer é poder”. Mas não se assustem, esse não é um texto pessimista.

O grande problema do mito “querer é poder” é que essa frase passa a ideia de que conseguir algo não requer esforço, trabalho e dedicação, requer apenas um desejo certo. E essa coisa do desejo certo também é muito problemática, porque, se você não conseguiu, é porque não quis “de verdade”. Então, existe uma maneira correta de querer algo? Tem medidor pra isso? Se eu participo de um concurso de uma vaga e fico em segundo, eu não consegui porque a pessoa que passou em primeiro quis mais do que eu? Foi uma forma de compensação cármica porque o primeiro colocado teve um ano muito difícil? Não dá pra ver as coisas assim. É até desestimulante.

Acho que o conceito de “querer é poder” pode ser relacionado com a comum supervalorização do talento e subestimação do esforço na nossa cultura. É fácil de observar isso por aí e nós mesmas vivemos caindo nessas armadilhas. Admiramos o menino de três anos que toca Beethoven no piano e não damos muita trela pra mesma peça sendo tocada por alguém que dedicou semanas ao aprendizado daquilo. O mesmo acontece na escola. É muito comum que sejam valorizados apenas aqueles alunos e alunas que tiram sempre dez e, quando vão mal, tiram 8,5. Poucos se importam com a aluna ou aluno que tira dois, depois sobe pra 3,5 e consegue finalizar o ano com seis. Não costumamos perceber isso, mas é bem provável que o/a aluno/a nota dez tenha se esforçado muito menos, simplesmente por ter mais facilidade, enquanto o que é realmente louvável é ver que uma pessoa que tirava dois se esforçou de tal maneira que conseguiu subir pra seis. E, se isso não é reconhecido, desmotiva, e a pessoa deixa de continuar se esforçando. É sempre muito mais fácil dar os louros a quem já começou ganhando.

Essa supervalorização do talento é prejudicial também para o dito talentoso. Uma pessoa que passa a vida inteira sendo boa em tudo acaba sendo também uma pessoa que não desenvolve habilidades para lidar com dificuldades e, quando encara uma barreira pela primeira vez na vida, não sabe o que fazer. Tendo a achar que os tais “esforçados” são pessoas muito mais preparadas para o mundo. Gente que não tem medo de botar a mão na massa, gente que não desanima diante de batalha, gente que vai lá, arregaça as mangas e faz. Gente que, quando falha, não cai de pedestal nenhum, apenas segue, pronta pra mais um desafio. Quem vive sem desafios aprende menos.

Mas vamos voltar pro “querer é poder” especificamente. Isso me lembra daqueles participantes iludidos de reality show de competição de canto. Aquelas pessoas que não cantam afinado nem parabéns-pra-você e chegam no programa se achando o futuro da música pop e estouram os tímpanos dos jurados, destruindo algum clássico, e acabam fazendo papel de ridículo pros espectadores rirem no sofá da sala. Não falta só talento. Falta também autoconhecimento e autocrítica. Querer ser a próxima Christina Aguilera jamais irá me dar a voz dela. Tem que fazer muita aula de canto pra chegar perto daquilo e, por mais aulas de canto que eu faça e às quais eu me dedique, talvez eu nunca consiga, porque cada um tem suas limitações e é preciso reconhecê-las.

Também precisamos reconhecer aqui que nem todos nascemos com as mesmas oportunidades. Falar que “querer é poder” é ser muito simplista e se pautar em um princípio de meritocracia. Pra quem não sabe, meritocracia é a ideia de que recebemos recompensas diretas pelos nossos esforços, isto é, nós merecemos o que conseguimos na vida, logo, se não conseguimos, é porque não fizemos por onde. Parece muito bonito em teoria, mas é um conceito muito falho, pois desconsidera os pontos de partida desiguais de cada um. Euzinha, classe média, colégio particular e cursos de línguas a vida toda, tenho um querer muito mais socialmente eficaz do que o querer de uma menina negra que cresceu em comunidade, estudou em escola pública e nunca teve dinheiro pra curso de inglês. Não dá pra dizer que, se eu passei no vestibular pra universidade pública e ela não, foi porque eu quis e, por isso, me empenhei mais, e ela não. Porque não basta querer. E, muitas vezes, nem com muita dedicação a gente consegue – e uns conseguem mais que outros.

Querer não é poder. Querer é básico. Querer é o que nos impulsiona a correr atrás. Mas correr atrás é fundamental. Fechar os olhos e mentalizar muito forte seu desejo, por maior que seja sua fé, é morrer no vazio se você não se move pra realizá-lo. Nada deve ser pressuposto como entregue de mão beijada. E nunca devemos pressupor que merecemos algo da vida, que ela nos deve algo por sermos muito gente boa mesmo. Nós temos é que fazer a nossa parte. O reconhecimento de que “querer é poder” é um mito não é derrotismo. Acho, pelo contrário, uma porta aberta pra se jogar no mundo, em vez de ficar sentada esperando acontecer só porque sentimos que merecemos.

Aqui na Capitolina estamos com a campanha #verãodopoder. O que você quer pra esse verão? O que você quer realizar em 2015? Vai esperar acontecer ou vai tomar uma atitude? Está se sentindo poderosa? Vamos à luta! E depois conta pra gente! 😉

Laura Pires
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Vlogger

Usa seu vício em séries e Facebook como inspiração para os textos, para a vida e para puxar assunto com os outros. Adora ouvir histórias e conversar sobre gênero, sexualidade, amor e relações amorosas – gosta tanto desses temas que deu até um jeito de fazer mestrado nisso. É professora de inglês, cantora e pianista amadora de YouTube, fala muito, ri de tudo e escreve porque precisa. Ama: pessoas e queijo. Detesta: que gritem.

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