1 de fevereiro de 2017 | Ano 3, Edição #30 | Texto: | Ilustração: Ana Maria Sena
O momento deixamos de ser crianças e nos tornamos adolescentes

Você sabe exatamente quando deixou de ser uma criança para se tornar uma adolescente?

O tempo entre o nascimento e a nossa morte é marcado por algumas fases da vida bem específicas: infância, fase adulta e velhice. Entre essas fases que já são mais ou menos pré-estabelecidas ainda passamos por momentos transitórios como a chamada a pré-adolescência e tem ainda aquela fase de que a gente já não é mais adolescente, mas também não é bem adulto e ninguém tem consenso nenhum sobre onde ela começa e ela termina e a gente fica sendo jovem até achar que já tá velho demais. E mesmo essas fases que são mais “específicas” já foram diferentes em outras épocas da sociedade.

Muita gente mais velha gosta de reclamar de como somos uma geração preguiçosa e que não sabe o que quer da vida e que na idade deles, eles já tinham a vida feita (trabalhos estáveis, família e toda aquela coisa). Isso não deixa de ser verdade, mas não é necessariamente uma coisa melhor, já que a sociedade muda e nossas noções de juventude também mudam. E as pessoas hoje vivem mais do que, por exemplo, há cem anos atrás – e com certeza eles também tinham muitas dúvidas sobre tudo, só não tinha internet pra ficar dividindo com os outros essas agonias.

Quando estamos no meio dessas transições nem tudo é tão claro. Algumas pessoas podem ter situações marcantes que determinam a saída de um determinado estado para outro, enquanto para outras pessoas isso acontece de maneira tão despercebida que podem ocorrer choques entre a percepção de si mesmo e da que os outros têm sobre ti. Essa confusão é normal já que cada etapa da vida vem com perdas e ganhos e nem sempre é fácil largar as incertezas por um caminho novo.

Um outro agravante são todas as expectativas da sociedade para fazer certas coisas em determinadas épocas. É preciso aproveitar a adolescência loucamente e saber o que você quer fazer para o resto da vida até os 17, ser jovem profissional e bem sucedido, ter uma família e depois de muito trabalho aproveitar uma velhice quietinha e tranquila. E ir contra tudo isso não é tão fácil. Crescemos e precisamos aprender a caminhar com nossos próprios pés – e em algumas situações carregar pessoas com a gente, mesmo que despreparadas e crescer pela necessidade.

A Capitolina entrevistou duas mulheres, a Júlia Manzano – 26 anos e historiadora, e a Nicemara Cardoso – 33 anos e servidora pública, para saber como foi a chegada da adolescência delas.

 

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Capitolina: Quando tu te tornou adolescente tu teve algum acontecimento que te marcou? Ou um momento em que tu percebeu que já não era mais criança?

JÚLIA: Eu lembro de um colega de colégio, na quinta série, que me questionou na frente da turma toda se eu ainda brincava de barbie e eu demorei pra responder. Fiquei meio tensa, e ele, na demora disse “hááá então tu brinca”. Eu lembro de que na hora eu entendi que isso não era mais “aceitável” e ainda assim ganhei uma última Susi de dia das crianças naquele ano, mas com muita culpa. Brincava escondida. As memórias acabam sendo um pouco práticas. Lembro de me sentir muito madura por ler Paulo Coelho (risos).

 

NICEMARA: Eu já tinha uns 14 anos, acho, e estava indo pra aula quando passei por umas crianças brincando na rua, sob a supervisão de um adulto que pediu para eles pararem a bola: “Espera a moça passar”. Acho que ouvir a palavra fez com que eu pensasse em mim, pela primeira vez, como não sendo criança, ainda que “moça” soasse um pouco estranho.

 

C: Na adolescência chegou a descobrir que alguma coisa que te falavam antes era um mito ou esqueceram de te contar alguma coisa?

J: Acho que ninguém te prepara pra adolescência. Enquanto menina, é uma fase que é bastante ruim. Tu ainda tem cabeça de menina e é cobrada como mulher para muitas coisas. O mesmo não acontece com os meninos, que ficam fazendo besteira até a idade adulta. Acho que a adolescência me fez começar a sentir mais fortemente a desigualdade de gênero e como eu era (ou me sentia) limitada por ser mulher. Tenho escrito numa agenda de 2003 (12 para 13 anos) que ser guria era ruim. E eu posso não ter escolhido as melhores palavras, mas sei que era exatamente porque começava a sentir que um looooooooooongo caminho de desigualdade e opressão que me esperava. E olha que eu tenho vários privilégios. Mas ainda assim, acho que a pontada da desigualdade começa a surgir quando tu perde um pouco o ar de criança e começam a te cobrar como adulta mesmo tu tendo 13 anos e não tendo ideia do que tá fazendo ali. Acho que as cobranças também acabam cerceando muito a capacidade criativa das mulheres que se auto censuram por questões ligadas à desigualdade de gênero, como não responder, não falar alto. E isso se consolida na adolescência. Essa normalização da anulação feminina.

N: Quando era criança, acreditava que meus pais sabiam tudo e tinham a receita da vida, e foi na adolescência que comecei, lentamente, a perceber que eles poderiam estar tão perdidos quanto eu. E gostaria que alguém tivesse dito que tudo bem ser quem eu era, e que eu poderia me divertir mais em vez de me preocupar ou me culpar tanto por qualquer coisa.

 

C: Tu teve algum conflito em que tu te sentia mais uma coisa que outra? Por exemplo: ter problemas em deixar certos traços da infância, ou dificuldade de entender como as coisas funcionavam na adolescência (ou agora nessa fase “xóven”).

J: Eu sentia muita pressão social. Eu brincava escondida ao mesmo tempo que queria usar maquiagem pra ir pro colégio. Lembro que logo na idade já assumi muito esse rótulo de adolescente e adorava, especialmente ganhando algumas responsabilidades como voltar sozinha do colégio ou ir no supermercado comprar coisas pro café. Lembro que também vieram responsabilidades que eu não gostei, como o serviço de casa. Senti mais o recorte de gênero aí, já que meu irmão, mesmo sendo bem mais velho, não tinha tantas responsabilidades atribuídas a ele, enquanto eu sim. Eu também era bastante tímida e no final da adolescência que consegui me soltar um pouco mais, mas foram anos de silêncios, timidez e nervosismo em situações sociais por ser uma adolescente que não se encaixava em muita coisa. Acho que hoje em dia com a difusão da internet se considera o “uncool” cool, ou seja, não ir em festas, ficar vendo Netflix o final de semana todo e tal é bacana. Mas pelo menos na minha realidade e onde eu estudava, pra ser cool tinha que ser festeiro, sair e se divertir. E eu não gostava disso.

N: Acho que foi mais difícil sair da adolescência. Tinha a ilusão de que aos 20 e poucos anos estaria tudo bonitinho e resolvido na minha vida. Mas, na verdade, pesava em mim a ideia de fazer escolhas sem saber onde me levariam e acreditando ainda que tinham que me levar a algum lugar especialmente fantástico. Parecia que eu não conseguiria ser adulta sem acertar tudo isso. Mesmo ainda me sentindo inadequada, tenho tentado aceitar que a vida pode ser mais leve.

 

No campo da psicologia o estudo dessas transições é chamado de Psicologia do Desenvolvimento, que leva em consideração algumas habilidades (motoras, sociais, etc) que são desenvolvidas em determinadas idades e também o que cada pessoa viveu. Por mais que em algumas situações (como por exemplo um atendimento médico) se leva em conta a idade do paciente tudo isso pode ser um pouco subjetivo e propenso a uma margem de erro.

Se eu pudesse voltar para a Natasha de 13 anos eu diria para se preocupar menos e aproveitar mais, não deixar que as coisas que os outros falem te atingir e o problema é o mundo, não tu.

Agradecemos à Karoline Siqueira, Capitolina e estudante de Psicologia da USP pelas conversas e esclarecimentos.

 

No cinema:

As melhores coisas do mundo (Laís Bodanzky, 2010)

Nós somos as melhores (Lukas Moodysson, 2013)

A Bruxa (Robert Eggers, 2016)

 

Na literatura:

Mulherzinhas (Louisa May Acott, 1868)

O diário de Anne Frank (Anne Frank, 1952)

Carrie (Stephen King, 1974)

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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